(Ensaio publicado na +Soma 21 Dez-Jan 2011. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
por ig aronovich e louise chin / LOST ART
Manifestações artísticas não reconhecidas, formas de arte em processo de extinção e outros temas que não têm destaque na mídia mainstream nos atraem. Há anos documentamos esses assuntos: assim foi com "Car Parts", ensaio sobre esculturas feitas com sobras de peças automotivas inutilizadas, comuns em oficinas espalhadas pelo Brasil (lost.art.br/carparts.htm e lost.art.br/carparts2.htm).
Por motivos bastante semelhantes, as portas de salões de cabelereiros nos chamaram a atenção. Fechadas nas manhãs de domingo, elas revelam um mundo habitado por celebridades como Vera Fischer, John Travolta, Latino, e mais uma multidão de personagens anônimos. Começamos a buscar os salões em diversas partes da cidade e percebemos que geralmente um único artista é responsável por grande quantidade de portas e muros num determinado bairro.
Embora os artistas e a localização mudem, os retratos sempre mantém a mesma linguagem: são reproduções toscas, involuntariamente desproporcionais (também não é nada fácil reproduzir rostos em portas com relevos ou paredes irregulares). O resultado é sempre curioso e carrega um senso de beleza autenticamente popular, que estabelece um raro elo de ligação entre o universo pictórico brasileiro e o do restante da América Latina.
A Galeria: Salon Art é nossa forma de homenagear a arte perdida de artistas como César dii Almeida, 36, pintor desde os 23, que cobra aproximadamente R$ 200 para pintar uma porta com aerógrafo. E, com isso, seguir enxergando o belo no imperfeito.
LOST ART
Confira o restante do ensaio em lost.art.br/salonart.htm
Conheça o trabalho de César dii Almeida em www.cesardialmeida.com.br
I’ll Be Your Mirror
Thomas Dozol
Quando ouvi falar de Thomas Dozol pela primeira vez, ele ainda estava fazendo as fotos do que viria a ser sua série “I´ll Be Your Mirror” (“Eu serei o seu espelho”). Fiz uma ideia vaga do que poderiam ser esses portraits. Depois, logo antes de ele mergulhar no laboratório para sair dali com a edição final, nós fomos apresentados. Esse processo gradual de aproximação deu um sentido especial para a exposição que fui conhecer pouco tempo depois. Se uma obra de arte carrega, inevitavelmente, a bagagem do artista, percebi como esta série imprime o toque delicado, o olhar agudo e o silêncio de Thomas. Quando se propõe a ser o espelho de seus objetos, ele o faz de forma tão particular que o trabalho retribui o gesto.
“Eu sempre acho estranho ligar pras pessoas e perguntar: ‘Posso ir até a tua casa te fotografar depois do banho?´”, diz Thomas. Ele foi chegando sorrateiro e, antes que alguém dissesse “não”, se instalou fora da sala de banho esperando ser chamado. Sem artefatos, apenas com sua câmera, sem dar instruções, Thomas compilou momentos de intimidade de seus amigos. A presença pontual de algumas figuras mais famosas faz toda a diferença: todo mundo está aqui em igualdade, com as mesmas armas (ou a ausência delas), despojado de artifícios, como o fotógrafo, em ações puras. Um homem com a pele cortada pela lâmina afiada ou gasta demais surge do lado do galã sem a luz favorável a lhe disfarçar as rugas. A amiga aparece envolta numa toalha, da mesma forma que a superstar seca os cabelos ainda sem maquiagem e sem Photoshop. Fosse a série composta de poucos retratos, a presença desses astros ficaria acima da obra. Mas, entre dezenas deles, tudo se dilui: a persona pública, os excessos, as aparências, retrabalhados pela presença purificadora da água e com a força da solidão necessária.
Por Diego de Godoy