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Tue: 09-15-09

Exposição Virtual: Fefê Talavera

 Lil Monsta – Entrevista com Fefê Talavera

Por Tiago Moraes

Todo mundo tem seus monstros. Sentimentos como medo, raiva, e culpa que, para não serem somatizados e atingirem proporções gigantescas, precisam ser exteriorizados de alguma forma.

Fernanda Salinas Talavera, ou simplesmente Fefê Talavera, usa a sua arte para colocar para fora todos os seus, e pouco a pouco vai se libertando de sentimentos que a cutucam e incomodam.

Brasileira de raízes mexicanas, essa artista de 29 anos formada na FAAP, e pós-graduada nas ruas, reside atualmente em Madri com o marido, o também artista francês Remed. Mas seu espírito livre e inquieto faz com que possa ser encontrada em qualquer parte do mundo, seja pintando um muro na Itália, expondo num museu em Ottawa ou cantando num palco para milhares de pessoas na Malásia.

 

Você se lembra de quando e como começou a se interessar por arte?


Sempre me interessei, desde pequena, meu pai costumava me ensinar a pintar com aquarela e pastel seco. Eu ficava maravilhada com as cores, os cheiros e a facilidade que ele tinha pra fazer qualquer coisa. Acredito que tenha sido o meu maior exemplo. Os meus pais sempre me apoiaram, a casa deles é cheia de arte. Também tive aula com a Leda Catunda, foi com ela que fiz meu primeiro quadro, e depois de um tempo me interessei em começar a fazer coisas na rua…

Você se formou em artes plásticas na FAAP, uma das escolas de arte mais tradicionais e renomadas do país. Paralelamente, experimentou muito nas ruas, e se envolveu com a cena de arte urbana justamente em um momento em que o graffiti tradicional começou a dividir os muros com outros tipos de intervenções. O que você aprendeu de importante na faculdade que nunca aprenderia na rua e o que aprendeu na rua que nunca aprenderia numa faculdade?

Aprendi que para ser artista você precisa ser livre, não precisa de uma faculdade. Ela me limitou muito, eu entrei lá livre e saí completamente bloqueada. Você até aprende coisas importantes, como História da Arte uma pequena noção das técnicas, mas é só isso. De resto, eu me irritava muitíssimo em ter que fazer o que o professor queria e não o que eu queria. Quem é ele para dizer se minha arte está certa ou errada? Na FAAP está cheio de professor/artista fajuto, muita panelinha, muita arrogância, muito conceito…blah!! Não aguento!!!
Já na rua é outra história, não existem regras. Se você quiser expor seu trabalho você vai lá, faz e pronto, está lá, à disposição de quem quiser ver. A quantidade de gente que vê o seu trabalho é enorme, e o mais legal é que não é só a galera que frequenta galerias de arte, mas o jornaleiro, a senhorinha que lava os banheiros do hospital, o porteiro, e até mesmo o curador da Bienal. Na rua a gente tem mais possibilidades de aproveitar o espaço, de fazer cada vez maior e de experimentar diferentes tipos de superfícies.
 


Você teve uma fase bem marcante com os seus bichos (ou monstros) tipográficos, feitos com tipos recortados de cartazes de lambe-lambe, e com isso conseguiu respeito e reconhecimento não só na comunidade de arte urbana como também entre os tipógrafos. Fale um pouco dessa fase e do que essas criaturas representavam para você.


Fazer os bichos tipográficos para mim foi um grande passo na minha carreira de artista. Comecei pintando em pôsteres velhos e colando na rua, daí percebi que esses pôsteres por si só já eram uma obra de arte. Aquelas letras tinham vida para mim, eram tão bonitas que eu comecei a recortá-las em grande quantidade e, como eu já fazia os monstros, resolvi tentar com a colagem, e deu certo. Essa fase foi super boa, porque foi a época em que conheci os meus mais queridos amigos. O Flip me convidou pra expor na Most, foi a minha primeira individual, e na sequência as coisas começaram a acontecer. Comecei a fazer mais exposições na Choque Cultural, e depois começaram as rolar os convites para exposições no exterior.


Você ainda pretende acordar essas criaturas de novo um dia ou aquilo foi só uma fase que não pretende retomar?

Claro, elas continuam vivas, só preciso arranjar um tempo para cortar letras – demora muito e eu me desespero. Gosto de mudar sempre, de descobrir novas técnicas, de ir reciclando tudo que eu já fiz.

Li em algum lugar que esses seus monstros são a sua maneira de exteriorizar toda a raiva, o medo, os sonhos e desejos. O que deixa você com raiva hoje? E com medo? Com o que você mais sonha? E o que mais deseja?

O que mais me deixa com raiva é a ignorância, a prepotência e a crueldade. Tenho medo da dor de perder alguém que eu amo. Sonho em ter mais paciência com as pessoas… e desejo conseguir sobreviver mais alguns anos fazendo arte.


Sua arte traz influências astecas e maias, e isso faz todo o sentido, já que você tem raízes no México, berço dessas culturas . Por outro lado, você cresceu e passou toda a infância e adolescência em São Paulo. Qual das duas culturas mais influenciou e moldou o seu trabalho até chegar ao que é hoje?

As duas culturas são uma grande influência. Dentro de casa a minha cultura sempre foi a mexicana, já fora de casa foi a brasileira, então fica meio difícil… Mas acho que no geral a cultura mexicana me influenciou mais…


Hoje você mora em Madri. Quais as principais diferenças que você vê na cena cultural de Madri e da Europa como um todo em relação ao Brasil?

A cena cultural aqui é incrível, os europeus têm sorte nisso, têm sempre shows, espetáculos, têm sempre milhões de coisas interessantes para ver, coisa que no Brasil não tem. Acho muito prazeroso sentar num parque super bem cuidado, ir aos museus, no verão tem muita coisa pra fazer, tem cinema ao ar livre, tem pracinha onde todo mundo senta pra bater um papo e tomar cerveja, tem festa de bairro, tem uns lagos para andar de canoa com o namorado…


Você se casou recentemente com o Remed, um francês que também é artista. Onde e como se conheceram? Foi no Brasil ou na Europa?

Nos conhecemos em Barcelona, numa exposição dele na Montana Gallery. Quando vi a arte dele pela primeira vez, me apaixonei pelo traço e principalmente pelas letras e significados. Logo depois a gente foi pintar juntos na rua e foi aí que o nosso amor nasceu.


Vi que vocês têm pintado muito juntos… Não só diversos murais nas ruas como também telas. Como funciona o processo criativo de vocês? E como é pintar em conjunto? Quando você pinta com ele é diferende de quando pinta com algum outro artista?

Pintar com o Remed é bem difícil. A gente é muito diferente, e tem uma grande intimidade de marido e mulher, e esse tipo de intimidade é bem diferente de quando eu pinto com algum outro artista, a não ser que seja alguém muito meu amigo também. A gente sempre briga quando pinta junto, não tem jeito! Eu não entendo por que ele não me deixa à vontade, coisa que com qualquer outro artista não acontece… Sinto que ele não me dá espaço, que é ele que sempre tem as idéias, e quando sinto que estou conseguindo me liberar ele vai e apaga a minha pintura… Que raiva!


Em relação às pinturas que você faz na rua, muitas pessoas relacionam diretamente ao graffiti, quando sei que prefere relacionar o seu trabalho na rua com o muralismo. Fale um pouco sobre isso, explique essa diferença.

A real é que eu nunca fui grafiteira, pintar com o spray para mim é só mais uma técnica como qualquer outra. As pessoas é que adoram classificar tudo, dizer que a Fefê é isso ou aquilo… Eu pinto junto com artistas que grafitam há anos, e nunca pensei em me tornar uma grafiteira, primeiro porque não faço bomb, segundo porque a minha técnica no graffiti é péssima! Também não sigo nenhuma doutrina do graffiti, acho muito pequeno se fechar num mundinho em que você só pinta com essas pessoas ou só escuta esse tipo de música, ou só sai com essa galera… fica muito vazio. É tão mais interessante conhecer outras técnicas, outras culturas, outras ideias, do que ficar nesse círculo vicioso que não ensina nada. Eu não só pinto muro como pinto qualquer suporte que eu encontre. Prefiro ser chamada de artista do que de muralista, ou grafiteira, ou qualquer outra coisa.


No ano passado você fez uma exposição em Amsterdam junto com o Doze Green, uma das maiores lendas do graffiti mundial. Como rolou essa conexão e como foi a experiência?

A conexão que rolou com o Doze foi quando o conheci em Nova York, em uma exposição de que participei junto com outros artistas brasileiros. A gente se viu uma vez e já rolou uma ligação muito forte, então decidimos fazer uma expo juntos. Começamos a trocar ideias pela internet e descobrimos que havia muito em comum no que pensávamos e no que a gente fazia, até que um dia ele me chamou pra fazer uma expo com ele em Amsterdam.
A experiência da exposição com ele foi bem intensa, ele já é mais velho e tem umas manias a que eu não estava acostumada. Como sou uma pessoa de forte caráter, não suportava muita coisa que ele fazia, não estou acostumada com esse tipo de macho e às vezes a gente saía no pau. Passamos um mês trabalhando juntos, e no final deu no que deu… Fizemos uma puta tela legal juntos, mas a relação acabou aí.

Pelo seu flickr dá pra perceber que você está viajando muito, pintando com diversos artistas, expondo seu trabalho em diversos países. É a vida que você sempre quis ou ainda falta alguma coisa?

Eu penso que não poderia ser outra coisa na vida senão artista. É o que sempre quis, até de país eu mudei, acho que tenho muita sorte por tudo que tem acontecido… O que falta para tudo sair perfeito mesmo agora é começar a vender mais. A crise aqui na Europa está super forte, então a vida fica bem mais difícil, e não rola ficar trabalhando para os outros de graça, isso eu não faço, exijo o respeito que todo artista deveria exigir sempre.

Você parece transitar com facilidade por diversas técnicas, como o desenho, a pintura, as colagens e os carvings. Tem alguma que é a sua predileta ou depende muito do dia, do humor?

Toda técnica me fascina, e tem aquelas para que a gente leva mais jeito… Acho que vai muito do dia, às vezes só quero desenhar, outras só quero riscar, outras colar… E tem aqueles dias que nada sai do jeito que você quer. Muitas vezes prefiro pintar quando estou muito triste, assim coloco toda a minha energia naquilo.

Fale um pouco do seu projeto musical, Lil Monsta. É mais uma válvula de escape para soltar os monstros, colocar a raiva pra fora?

Total, é mais uma técnica! Mas com música é bem diferente. Eu amo música, e respeito muito. Comecei a cantar porque tinha um namorado que era produtor na Áustria. Ele dividia o estúdio com o Stereotyp, e um dia eles me pediram para fazer um freestyle em português. E eu comecei a rir, sou bem tímida, mas pensei que não tinha nada a perder e tentei. Lembro que sentia as minhas bochechas bem quentes (risos), devia estar roxa de vergonha. E eles gostaram do resultado e mandaram o acapella para uma porrada de produtores pelo mundo. Foi assim que eu comecei, e depois alguns músicos começaram a me chamar pra cantar… Achei tudo isso muita loucura, porque nem pensava nisso, que um dia isso pudesse acontecer.

Qual a influência que a música exerce no seu trabalho como artista? E, agora que você também tem esse projeto musical, o que leva da sua arte para a sua música?

Sempre fui muito ligada à música, sempre gostei de trabalhar com músicos que admiro, como Stereotyp, Al Haca e The Bug. Colaborei com eles fazendo som e arte, às vezes só para uma mixtape, e outras fazendo a capa do disco.
Faço parte de um projeto que se chama Crunchtime junto com diversos artistas de diferentes áreas e de diferentes culturas, e sempre nos reunimos para criar juntos. E não importa se alguém não sabe pintar, ou cantar, ou dançar, todo mundo faz tudo. Basicamente a ideia é se divertir e entreter quem está assistindo. As pessoas que fazem parte desse projeto são muito talentosas, e vale a pena trabalhar com elas porque sempre rola uma troca musical ou artística muito forte.


Você sempre acompanhou de perto a cena underground de música e arte aqui no Brasil. O que tem ouvido e visto de bom e novo aí pelas suas andanças na Europa?

Sempre conheço muita gente por cada lugar que passo. Recentemente conheci duas artistas incríveis, italianas, uma é a Pona e a outra é a Arianna Vairo. Elas são bem jovens, e ambas têm um talento incrível, vale a pena dar uma olhada. Já na música o que eu tô mais ouvindo agora é Major Lazer, projeto do Diplo com o Switch, uma mistura de dancehall com eletrônico. Outros que não saem do meu ipod são o Boxcutter, que é mais tranquilo, tem bastante dub, dubstep, glitch e minimal e o Sa-Ra, mais pro electrosoul, hip-hop, são 3 produtores americanos foda!

O que podemos esperar da Fefê num futuro próximo? Exposições? Shows? Pretende visitar o Brasil em breve?

Brasil sim, possivelmente ainda esse ano. Exposições tenho uma em outubro em Ottawa, na Canteen Gallery, e também uma em Bilbao, na SC Gallery… Sobre shows, nenhum marcado no momento. 

 

Quer mandar alguma mensagem final?

Um “big up” para toda a minha família, para o maridão e para os amigos mais próximos que nunca me abandonaram.

 

Veja e ouça mais:

flickr.com/fefe_talavera
fefetalavera.blogspot.com/
myspace.com/lilmonstaff
crunchtime-records.com






Fri: 07-24-09

Exposição Virtual: Billy Argel

 

Só os mortos não reclamam

Por Tiago Moraes

Adherbal “Billy” Argel era, até alguns anos atrás, um herói praticamente esquecido. Uma injustiça para alguém que criou, praticamente sozinho, toda a estética do skate, do surf e do punk no Brasil na década de 1980.

Lembro até hoje da sensação incrível que era, no auge da minha pré-adolescência, entrar em uma loja de skate e olhar para aquelas paredes imensas, forradas de shapes incrivelmente coloridos, com desenhos de cruzes, adagas, dragões, morcegos, caveiras e todos os tipos de monstros e criaturas bizarras. Billy sabia como ninguém representar graficamente a verdadeira atitude e rebeldia que o skate representava, em um mercado em que muito se copiava e pouco se criava.

Aprendi com o skate e com o punk-rock muito mais do que qualquer professor poderia me ensinar na escola, e o mais interessante é que a arte sempre esteve presente nisso tudo, seja na capa de um disco, num pôster de show ou na parte de baixo de um skate.

No ano passado, no suntuoso espaço Santander Cultural em Porto Alegre, um dos segredos mais bem guardados da arte underground brasileira foi finalmente revelado para o mundo. As artes de Billy, que antes eram literalmente massacradas em corrimãos e bordas até praticamente sumirem, ganharam agora status de obra de arte.

Quando que você começou a desenhar skates?

Eu já desenhava desde moleque. Foi uma coisa natural, eu ficava desenhando na classe – quando você não tem muita motivação na aula, fica desenhando. Já tinha feito algo embaixo de um skate, mas nada sério. Quando eu vi os skates da Dogtown, achei do caralho. Aquelas cruzes eram um símbolo muito forte.


Como rolou o seu primeiro desenho para um shape? Foi o model do Porquê para a Urgh, não foi?
Foi. Conheci o Porquê na época da Wave Park, quando deram esse apelido. Ele ficava o dia inteiro na pista fazendo perguntas do tipo “por que essa roda é boa?”, “ah, porque é boa”, “mas por que é boa?”, “porque tem rolamento?”, “por que isso?”, “por que aquilo?”, e a gente “Ô, Porquê, dá um tempo”. Outro dia ele apareceu com o irmão, aí todo mundo falou, “esse aí então é o Poisé”. O pessoal não perdoava (risos). O Porquê me deu o shape e falou: “o model não está definido, mas eu quero que você faça um desenho”. Eu topei, só que trabalhava numa agência e não dei muita atenção. Eu ia fazer quando tivesse uma folga. Um dia ele me ligou e perguntou se já estava pronto. Eu disse que sim. Aí ele disse: “tô passando aí, o shape já vai ser lançado e estamos em cima da hora”. Peguei um papel na hora e desenhei umas caveiras. Fui colocando embaixo do vegetal, copiando com um pincel, escrevi o Porquê, fiz a outra cor no pincel, com traços grossos. Pra época ficou muito bom, tanto é que o Jorge [Kuge, dono da Urgh!] me encomendou uma nova série logo depois.

Foi aí que começou a Highgraph?
Isso, eu saí da agência e montei o estúdio. Aí não parou mais de chegar trabalho. Também montei uma marca, a Mr. Fink. A minha ideia era vender por reembolso postal, em revistas como a Bizz. A marca vendia bem, chegou até a ser vendida na [extinta rede de lojas] Fruto Verde. Eu atendia muitas marcas de skate e surf, como Urgh!, Lifestyle, Caos, Stanley, Superphen, Cush, Anarquia, Slide, Varial, Billabong, Mango. Pensei “eu entendo desse mercado, sei do que ele precisa: de tudo que é contrário, contracultura”. Na época eu nem sabia o que era isso, mas eu vivia, saca? Depois chegamos até a trabalhar para empresas maiores, como a Vasp e a Hobby (antiga rede de clubes esportivos de São Paulo). Tinha umas dez pessoas comigo, mas o meu negócio era o skate. Quer coisa melhor do que fazer o que gosta e ainda ganhar uma grana?

Os caras pagavam bem por esse tipo de trabalho na época?
Pagavam, a gente vivia bem. Eu costumava dizer que brincava de ganhar dinheiro. Além de ter uma demanda muito grande, o mercado estava favorável, e nossos trabalhos efetivamente faziam as vendas aumentar, então os caras sempre voltavam. Além disso, rolava identificação, porque a gente falava a mesma língua.

Você ia atrás de trabalho ou essas marcas vinham até você?
Elas vinham. No começo simplesmente não tinha concorrente. Depois começou a pintar gente querendo ensaiar algumas coisas no computador, e eu falava: “meu, o negócio é fazer na mão mesmo!” Mas a real é que eu também queria ter um computador, só que não tinha grana, nem sabia onde comprar. E eu sempre pirei em letras, para mim a tipografia é 80, 90% do design. Então [com o surgimento do computador], eu pensei: “agora vou poder pegar todos esses livros de fontes, jogar no computador e sair escrevendo o que eu quiser”. E agora a minha pira é criar fontes. Fiquei uns seis meses só fazendo fonte, sem botar a cara fora de casa. Queria fazer uma quantidade legal e sentir a resposta na internet. Tenho muitas inéditas, estou para montar um site.

Qual foi a sensação quando você viu alguém usando um shape que desenhou pela primeira vez?
Sabe o que eu pensava? Eu quero mais! Queria ver a minha parede cheia de skate. Coleciono várias coisas, como você pode ver: guitarra, anel de caveira, moto, lata de spray. Acho que é um pouco de medo, porque quando eu era moleque não tinha as coisas. Lembro que a gente já passou dificuldades – não fome, mas saía do colégio pago e ia pro do governo, não tinha grana pra comer lanche no recreio.

Quais eram suas maiores influências e inspirações na época?
Sem dúvida alguma todas as artes do Jim Phillips para a Santa Cruz, as da Powell... Meu estilo até hoje é o que eu via quando moleque, arte que pegava na veia mesmo. Eu gostava de coisa horrorosa, impressionante. A revista Heavy Metal, que veio quando eu já era adolescente, tinha tudo que estava rolando de mais foda: Moebius, Ranxerox... Era a bíblia do desenho. Na época não tinha internet, precisava juntar uma puta grana para comprar um livro e ter acesso. Outra influência sem dúvida foi o Big Daddy (Ed Roth), com aqueles carros envenenados, os dragsters e o Rat Fink. E depois veio o punk.

Como foi a tua incursão no punk?
Foi uma coisa de identificação mesmo. Lembro quando eu li a primeira matéria sobre os Sex Pistols, na Manchete, falando de um novo fenômeno na Europa. Vi as fotos dos caras e falei “caralho”. E não era aquele som pesado, hardcore, que veio um pouco depois. Era um som mais com ideias. Nessa época eu estava ligado numa coisa mais imediata, eu vinha do rock pesado anterior ao metal e percebi que tinha a ver com os desenhos em nanquim do punk. Foi um negócio do caralho, você via um Duane Peters, um Steve Olson Olson (skatistas ligados ao movimento skate-punk). Eu já gostava de All Star, e os caras usavam. Quando você vai ver, está tudo interligado.

E aí você já quis montar banda, tocar?
Eu queria tocar Black Sabbath, mas como andava com os punks não podia falar que gostava de Ozzy, AC/DC. Só que eu gostava muito. Depois de um puta tempo, fiquei sabendo que os punks que andavam comigo também gostavam de Sabbath, só que ninguém falava. Nessa época não podia, senão você era execrado (risos).

E de bandas nacionais, o que você curtia?
Ratos de Porão foi uma puta referência pra mim, Olho Seco, Desordeiros, Fogo Cruzado. Sabe o que foi legal do punk? Foi a primeira galera que eu vi fazer sem ter condição nenhuma. Todo mundo pode fazer o que quiser, basta querer!

Teve um período em que você se afastou um pouco da cena. Algum motivo em especial?
Não foi nada com relação à minha arte, foram problemas pessoais. Nem gosto muito de falar disso. Fui embora porque me decepcionei com muita gente, mas quero deixar claro que não foi nada em relação à minha arte e ao skate. Foi um lance muito foda, de traição mesmo. Não que eu tenha raiva de alguém hoje, mas algumas pessoas não precisavam ter feito o que fizeram. Mas acho que o mais legal de tudo é que eu dei a volta por cima e hoje acredito nas pessoas como acreditava antes. Acho que a verdade prevalece sempre. Eu fechei a Highgraff, mandei todo mundo embora, vendi meu apartamento e fui pro interior. Fiquei numa fazenda, junto com os peões, trabalhando, dormindo cedo, acordando de madrugada. Apartava o gado, levava pro leilão, ia comprar alfafa no Paraná... Mudei completamente de vida. Continuei desenhando, só que para aquele mercado: fiz logotipo de Haras, fiz logotipo da Rádio Cultura de Dois Córregos, que é o mesmo até hoje, fiz o logotipo da prefeitura.

E Floripa, foi depois disso?
Isso, quando nasceu meu segundo filho. Eu já estava de volta, trabalhando com várias marcas de novo – Billabong, Stanley. O pessoal da Stanley estava em Floripa e eu ia lá duas vezes por ano. Aí meu casamento não deu certo. Já tinha nascido o segundo filho, eu tinha um apartamento, estava estruturado de novo. Fiz uma mala de roupa e fui pra lá dar um tempo. Acabei ficando quase 5 anos.

Você acompanhava o que estava rolando por aqui?
Não. Não que tenha esquecido, é difícil esquecer a origem. E eu tinha um patrimônio, minha mãe sempre morou aqui e cuidou das minhas coisas. Tenho originais guardados, fotolitos, letrasets, até xerox. Procurei sempre ser correto, não tenho vergonha de nada que fiz. Meu espaço já estava conquistado, não tinha que provar nada pra ninguém, sacou? Então eu pensei, “as próximas gerações vão escrever a história delas”. Agora eu voltei porque conheci o Farofa, Danielone, você, Pexão.

A Transfer, por sinal, foi uma das maiores, senão a maior mostra de arte urbana no Brasil até hoje. Você teve uma forte participação nela. Fale um pouco a respeito.
Ali havia pessoas que vivenciaram aquela época, mas do outro lado. Achei legal a oportunidade de poder mostrar o lado de quem produziu, e a razão disso. Não fui com o intuito de vender um produto a mais para um moleque, porque a melhor fase da minha juventude foi fazendo tudo aquilo. Hoje, eu me sinto novamente na melhor fase da minha vida. Estou com dois filhos crescidos, meu! Um está com 23, outro com 16, e eles estão na rua. Isso é tudo fruto do quê? De um sonho de criança.

Eu, que comecei a andar de skate em 85, 86, fui profundamente impactado pela sua arte e pela estética de skate que você ajudou a moldar. Antes de presenciar isso na Transfer, você tinha noção da força das coisas que tinha criado e do impacto que isso teve em toda uma geração?
Eu sabia que tinha, sim, exercido algum impacto. Mas não tinha noção do quanto. Na abertura da Transfer eu não conhecia ninguém, não tinha nem convite. Cheguei e falei "sou o Billy, tô entrando aí". Entrei e não dava pra andar lá dentro. Dei uma volta, vi as minhas coisas, um monte de gente olhando, apontando. Pensei, “Não é possível que essas pessoas tenham isso na história delas”. Depois encontrei o Herbert [Baglione], que veio, me abraçou e começou a me apresentar para todo mundo – para o Trampo, para o Kiko (Nunca), Tinho. Só passando por uma experiência dessas pra ter noção, me emocionou muito mesmo. Quando eu vi, estava que nem popstar, um monte de holofote, câmeras, tirando foto com artistas consagrados.

Quais outros artistas dessa nova geração você admira?
Sou fã do Sesper, Speto, Pato, Tinho, Herbert... Tem um monte de gente.

E lá fora?
Robert Williams, Rick Griffin, esses caras pra mim estão no céu. Quando eu era moleque, fiz uma viagem e voltei com um livro do Griffin. Vi aquele livro com um olho na capa e falei: “Olha só, igual ao que eu faço! Esse livro é meu!” Foi um negócio impressionante!

A receptividade que você teve na Transfer te deu um gás pra falar “agora é hora de fazer uma produção nova, cravar de vez meu nome nessa história que está rolando e crescendo?”
Nos últimos anos, experimentei bastante com novos estilos, tentei fórmulas mirabolantes, mas a real é que não posso sair do meu riscado, sabe? Estou fazendo produções novas, lógico, mas um tipo de desenho que eu sei fazer – usando novas influências, técnicas, mas tem aquela espinha dorsal. O meu estilo é o meu estilo, eu não vou mudar. Fiz umas experiências, simplifiquei, e agora voltei a criar nessa pegada mais old school mesmo, preto no branco.

Hoje, não dou tanto valor para exposição na mídia, essas coisas, mas sim para amizades verdadeiras. É muito fácil se perder, como eu já me perdi, envolto em ego, essas besteiras de querer ser melhor que os outros. Precisa tomar muito cuidado com isso, porque a fama é efêmera. O principal é a arte em si, que tem que vir da alma, ser visceral. Fazer um bonequinho qualquer, um personagem, qualquer um pode. É só um desenho.

Qual a importância do Farofa (Sesper) nessa sua nova fase?
Pô, o cara é foda! Ele me levantou de verdade na época que eu mais precisava, me fez ter coragem de sair de um emprego em que eu estava ganhando uma puta grana, mas estava infeliz. O Farofa chegou e disse: “Mano, você tá perdendo tempo!” Eu não entendia o que ele falava, mas a real é que eu estava vivendo que nem um merda. Perdi minha mulher e de repente me vi sozinho – voltei de Floripa, com dois filhos pra cuidar e completamente sem nada. Vendi minhas coisas lá, paguei as contas e vim embora. E pra aprender a ser pai? E de repente o Farofa chega do nada, falando um monte de coisas... O cara me deu uma lição de vida muito fodida, começou a me apresentar coisas, pessoas, me deu uma aula sobre a importância do meu trabalho. Foi quando eu vi que estava longe, enterrado numa firma, resignado.

Que tipo de mensagens você quer passar com a sua arte?
Não que eu seja um cara pessimista, me considero mais para realista, e eu vejo que o buraco é bem mais embaixo. O maior problema que vivemos hoje é a quantidade de gente no mundo: merda pra caramba, poluição pra caramba, não tem emprego para todo mundo, não tem comida para todo mundo. Eu não tenho nenhuma mensagem mirabolante para passar, meu berço é o punk, o inconformismo. Só os mortos não reclamam, já dizia aquela música do Lobotomia.


Saiba mais:
billyargel.com
billyargel.blogspot.com









Mon: 06-08-09

Exposição Virtual: Bruno Kurru e Renan Cruz

Bruno Kurru e Renan Cruz – Brigando com Desenhos

Por Tiago Moraes e Arthur Dantas . Fotos Fernando Martins

Antes da popularização da internet, para se ver graffitis e outras manifestações de arte urbana você não tinha opção senão ir para as ruas. Pela janela de um ônibus ou trem, andando de skate pelas ruas, aqueles enormes desenhos e letras coloridas destoam do concreto cinza da cidade e fascinam.

Com a democratização da rede mundial de computadores, as fronteiras entre cidades, países e continentes desapareceram. Se antes a arte feita na rua era apreciada por um número restrito de pessoas, agora ela poderia ser vista por pessoas no mundo inteiro.

E foi em meio a milhões de computadores interligados mundo afora que a vida de Bruno Kurru, 24 anos, e Renan Cruz, 23 anos, se cruzaram. “Lembro que queria fazer uns pôsteres e em São Bernardo ainda não tinha ninguém que fazia essas coisas. Eu tinha visto algumas coisas do Obey na internet e na seqüência comecei a descobrir outras coisas. Um dia entrei no fotolog do [coletivo] SHN e vi que ali tinha um movimento rolando. Na época tinha rolado algum evento em que o Stephan [Doitschinoff], o SHN e o próprio Renan tinham participado. Foi quando decidi mandar um e-mail no mesmo dia para os três, perguntando mais ou menos as mesmas coisas. E lembro que o Renan, já no primeiro contato, foi o mais receptivo, e a conversa evoluiu para outras idéias”, conta Kurru. “Quando eu vinha lá de Mogi das Cruzes, ou com o meu pai ou de trem [...] e via aquele monte de pichação, arte d’OSGEMEOS, Onesto... Aí eu pensava: ‘Caramba, o que que tá acontecendo aqui?’”, relembra Renan sobre seus primeiros contatos com o graffiti e a pichação.

Durante alguns meses, Kurru e Renan mantiveram sua amizade no campo virtual até que logo surgiu a primeira chance de finalmente se conhecerem e pintarem juntos pela primeira vez. A amizade e o convívio cresceram, mesmo com a distância geográfica que os separava, um em São Bernardo do Campo e o outro em Mogi das Cruzes. Renan teoriza: “Acho que o que rolou foi que a gente cresceu em lugares diferentes, mas com influências próximas e questões próximas, e juntou com o desenho, então quando a gente se encontrou meio que estávamos preparados pra poder trabalhar outras paradas”.

Quando Kurru começou a trabalhar na criação de uma marca de streetwear e, na seqüência, Renan passou a ser seu colega de trabalho, a relação dos dois se intensificou ainda mais e o convívio passou a ser diário. Renan conta um pouco sobre a época: “Foi aí que a gente se juntou mesmo. Nessa época trabalhava lá eu, o Cabelo, o Kurru e o Doze. A gente fazia uns fanzines, ficava um puxando o outro para fazer trabalhos juntos, desenhar mais, conversar um pouco mais sobre desenho”.

Curioso que o elo principal entre os dois se dê na forma como pensam e sentem o desenho, conferindo a ele uma dimensão espiritual, em que colocar o lápis ou pincel no papel se torna um ritual sagrado, de encantamento.  “Estou em um momento de tentar organizar minha produção, de decidir se eu quero direcioná-la para uma estética mais fechada, que seja uma coisa que eu vá carregar, ou se é o caso de abrir, criar sistemas pelos quais eu possa falar algumas coisas, pelos quais possa, mais do que falar, receber o desenho. Essa é uma coisa de que a gente conversa bastante, esse ‘poder’ que o desenho tem, quando você o respeita e vai o levando de maneira constante na sua vida. Muitas vezes ele te surpreende nesse sentido, ele apresenta pra você algumas coisas. Dificilmente a gente faz um desenho em um dia. É um negócio que você começa, dá uma parada, porque tem a coisa estética, você quer que aquilo faça parte de você, que você goste daquilo. Nesse processo, na maioria dos casos, eu fico uma semana angustiado, porque na hora em que volto pro desenho já é uma outra situação. É um negócio louco, mas acontece muito”, diz Kurru. Renan complementa: “São aquelas coisas que não podem ser ditas, né? São manifestações que falam como se fossem uma coisa que não é sua, o desenho cria vida e fala: ‘Olha, toma cuidado com essa situação’ ou ‘Presta atenção nisso’”. Ambos, nas palavras de Kurru, tem “vontade de enxergar o desenho como um negócio maior, conseguir enxergar o desenho com essa riqueza de vida que ele tem”.

O Desenho e Sua Expressão Plena

Uma característica forte no trabalho deles é a pesquisa e o estudo. Kurru fez faculdade de design e Renan estudou design publicitário. Ambos estudaram gravura e há mais de dois anos freqüentam as aulas de desenho do artista plástico Rubens Matuck, um personagem importante para entender a evolução de ambos. “Ele concretizou a nossa visão. Eu estudo já faz uns três anos com ele, que é pintor, artista, estudioso, cabeçudão, cientista das artes visuais. Ele leva a questão do desenho muito forte na vida dele. Então lá a gente aprendeu muito a valorizar isso também, o desenho. A gente vai tentando ver no desenho uma freqüência de vida, de encontrar pessoas, valorizar as coisas que o desenho aproxima. Eu tenho muita vontade de que o desenho se socialize. Não ter esse poder tão grande de obra de arte, do tipo ‘isso não pode ser tocado’. Não: que seja uma parada que eu aprenda com uma criança”, define Renan.

Kurru se entusiasma e fala sobre a forma como o mestre de ambos enxerga o desenho. “Ele usa o termo ‘expressão plena’. De usar o desenho completamente, uma aversão absoluta ao esquema de mercado de arte, desse esquema de pensamento de arte com marchand embutido, que é o lance que vem da Europa etc. Ele é a favor do desenho em sua essência, e não preso à estética, nem ao que se vai desenhar. Para ele, a única maneira de você conseguir a expressão plena é com o desenho de observação, que é ter essa percepção, entender o espaço. Esses nossos desenhos que vocês conhecem... ele quase não conhece nenhum. A gente mostrou para ele pouquíssimas vezes. E a gente não leva mais como uma forma de respeito mesmo.” Estranhamos essa idéia, o que faz com que Kurru nos explique que “esse tipo de desenho nosso é um negócio muito curto, não chega nele. Muito diferente de eu levar algo desenhado agora, feito rapidamente. Ele vai ver e vai falar que tem um diálogo entre espaço, entre pensamento. Uma coisa que a aula tem me ajudado muito é entender o trabalho de arte. Por exemplo, um desenho, uma pintura. Ele passa muito essa coisa de às vezes a gente ficar preso ao tema. Percebo isso hoje em dia quando vou a uma exposição, independente do tema ou da estética do trabalho, tenho interesse na composição, na cor, é uma coisa que me aproxima, que cria diálogo, e é o que busco no meu trabalho. Não ficar só preso ao tema, não ficar só preso a uma forma estética. Enxergar a arte como um todo e conseguir dialogar em cima disso”.

A juventude de ambos reflete no permanente questionamento e na experimentação evidente em suas obras. Por enquanto, ainda encaram a arte como uma estrada cheia de bifurcações, com diversas trilhas a serem seguidas. O espírito contestador faz com que ambos tenham, obviamente, uma posição paradoxal e considerações a fazer a respeito do mercado de arte. Kurru acredita que se pautar pelo mercado “leva à estagnação, porque o próprio mercado, como todos os outros mercados, tem um tempo de vida útil, ele usa você e o descarta. Se você não tiver uma produção firme, se o seu trabalho não for forte dentro de você e você deixar que o mercado ou outras pessoas te guiem, daqui a cinco, dez anos, o mercado vai procurar outro artista e o seu trabalho vai pro fosso junto com outros, e você vai ficar vazio. Minha busca é essa: me estruturar e conseguir me manter equilibrado dentro disso. O que ainda é muito difícil”.

Renan, por sua vez, acredita em um estilo de vida ascético, que pode tornar a inevitável relação com o mercado menos dolorosa. “A gente precisa saber do que precisa e viver de forma bem simples. Eu preciso de papel, caneta, alimentação, umas coisas assim. Penso em um dia viver num quarto, só papel, caneta, prancheta e um colchão. Eu trabalhei em um esquema diferente e o que eu vi era isso: se você ganha mil, vai mil. Se você ganha 2 mil, vai 2 mil. Você tem que se estruturar para dizer: ‘Eu tenho que viver com isso’. Tenho estudado permacultura, que é uma filosofia que resgata técnicas de vida sustentável. Então é isso. Acho que você pensar é a primeira das etapas. Você incorpora para depois aplicar. Eu não preciso ganhar muita grana e quero achar formas sustentáveis e simples de fazer um ambiente propício ao desenho. É o próprio modo como você mesmo lida com o seu trabalho. O externo é uma desculpa, você pode reclamar dele ou não. Mas é você que lida com ele. Você é quem fala: ‘Eu quero isso? Eu aceito?’ Não quero apresentar só uma forma física, mas também uma forma de energia, de sentimento. Uma pessoa pode falar: ‘Ah, eu quero dez quadros’. Tudo bem, vamos lidar com isso. Mas prefiro sistemas que sejam mais simples. Eu não quero ver o desenho com uma supervalorização.”

Organizando para desorganizar?

A influência da arte urbana paulistana se dá muito mais pelo meio e pela forma de encarar o trabalho do que pela estética propriamente dita. Artistas como Stephan, Onesto, Herbert Baglione e OSGEMEOS são citados como pessoas que exerceram algum tipo de influência sobre ambos. Na gramática visual de ambos podemos identificar possíveis relações com vanguardas artísticas do século XX, como o dadaísmo ou o Fluxus, dado o gosto pela assemblage, colagem e publicações. No fim de 2007, eles criaram a editora Ôrganiza (com acento mesmo), interessada no processo de experimentação e intersecção entre o design gráfico e a ilustração, em que a forma é um elemento dinâmico no processo de composição. Cada livro ou revista tem tiragem mínima de duas edições, com exceção dos “Livros dos Livros Objetos”, que são únicos. Em novembro do mesmo ano, realizaram exposição na Sala Cega, da loja Trezeta Musik, em São Paulo.

Kurru conta que o interesse por publicações começou quando trabalharam juntos em 2005 e realizavam experimentos com a máquina de xérox do trabalho. Passaram-se dois anos até que Marcelo Fusco, proprietário da Trezeta Musik, convidasse ambos para uma exposição em sua loja. “Naquela época estávamos com questionamentos sobre exposições, não curtíamos o que estávamos vendo. Era uma forma de dizer para a gente mesmo o que queríamos. O Fusco nos convidou, mas achamos que não era hora para exposição. Ficamos semanas batendo a cabeça. Um dia lá em casa rolou o papo: ‘Mano, que você acha de fazer uma editora?’”. E havia um interesse prévio de ambos pelo objeto livro – a família de Renan inclusive teve uma gráfica: “Eu sempre curti muito livro. Tem a questão artesanal de se fazer o livro, a coisa do registro”. Kurru, que havia feito um livro de artista como trabalho de conclusão na faculdade, explica que a editora era também “uma forma de desenhar de maneira mais livre, falar mais coisas. A nossa vontade era que a editora por si só fosse convidativa. Que as pessoas vissem que era um negócio amigável, que tivesse como uma das coisas principais essa coisa de deixar aberto para as pessoas”.

A exposição era mais do que um espaço expositivo – era uma extensão da vida. “A gente ficou lá dois meses, fizemos uma zona. Levamos prensa, guilhotina, papel, computador – era um espaço vivo. A exposição começou antes e rola até hoje em dia, ela tá viva”, filosofa Renan. E o nome peculiar, de onde surgiu? Kurru explica que “o nome veio de duas coisas: de organizar os desenhos e de organizar também as idéias que a gente tinha. De não fazer uma exposição. Pelo contrário: fazer uns caderninhos cheios de desenho, desglamorizar um pouco, e o acento a gente colocou como forma de dizer que a Ôrganiza não organiza no sentido de ordem, mas no de criar um instrumento que desse “órgão” para coisas que estavam mortas, desde material até idéias, desenhos. Havia desenhos nossos que estavam parados, eram originais, mas em folhas de sulfite, coisas que a gente nem queria comercializar, nem nada disso, mas que diziam alguma coisa.”

“Um bom desenho é uma boa briga”

O próximo passo de Renan Cruz e Bruno Kurru é uma exposição a se realizar entre fevereiro e março de 2009, em uma nova galeria na cidade de São Paulo. Ao que tudo indica, a exposição dará sentido e razão de ser para a produção de ambos – ontem, hoje e amanhã.

Kurru explica que pensa em criar uma estrutura visual com a qual consiga expressar pensamentos e desejos. “Um trabalho que pode ser uma coisa aparentemente abstrata, com elementos soltos. Não quero ter uma marca, não quero que alguém fale: ‘Ah, aquilo ali foi o que o Kurru fez’. E eu já tava meio que negando isso. Por outro lado, vamos supor que eu ficasse desenhando o céu até morrer. Se eu levasse isso a sério, podia ser um trabalho cabuloso, porque tem uma poética muito forte nesse sentido da liberdade, do movimento, de uma coisa que nunca é igual e que é uma força por si só. O momento dessa exposição é isso: o início de tentar expandir para uma coisa mais ampla, uma coisa que não seja fechada, pode até ser um trabalho feio para os outros. Mas eu não me preocupo com isso.”

Faz parte da visão de Renan de crer em uma interação total entre artista e desenho e ver seu ofício como “uma desculpa para viver a vida, para conhecer pessoas, assim como pintar na rua é uma desculpa para andar por aí”. Renan acredita em um período de inflexão e crescimento: “Durante muito tempo, rolou um fluxo grande de produção, sem uma certa consciência, e hoje em dia sinto que tenho um pouco mais de controle. Essa exposição tem a ver com a minha vida, como eu estou mudando. Hoje em dia, o que importa para mim é como me apresentar, como me valorizar como artista. Aquele lance do Homem-Aranha, de que ‘grandes poderes trazem grandes responsabilidades’. Penso no Aldemir Martins – ele foi premiado na Bienal de Veneza. É meio isso, uma meta: ser o campeão mundial de desenho (risos). Posso conseguir isso e ver que tudo não passou de uma cenoura na frente do coelho, só para fazer ele correr. Posso descobrir ao me tornar campeão mundial que vencer é desenhar todo dia a minha filha. É isso: eu quero ser campeão mundial de desenho. Um bom desenho é uma boa briga”.

Kurru acredita que, pelo desenho, é possível encontrar problemas a serem resolvidos por toda uma vida e isso o estimula a produzir. “Esse turbilhão que percebo hoje em dia é valioso. Eu tento ficar tranqüilo dentro dele, sentir o que tá acontecendo. Por isso eu acho que a gente não está muito apegado à estética, porque acaba limitando esse tipo de vivência, que é o que mais interessa para nós.”

Serviço:

Chaves e Portas – Exposição de Bruno Kurru e Renan Cruz
De 26 de Maio a 11 de Julho de 2009
Abertura 26 de Maio das 19 às 23h
Pocket-show com Projeto Nave
Apoio Cultural: Pintar!

Espaço +Soma
Rua Fidalga, 98 – Vila Madalena – São Paulo – SP
De terça a quinta-feira das 12 às 20h, sexta e sábado das 12 às 22hs
Informações: 11 3034-0515
www.maissoma.com