O revival da música produzida na década de 1990 é provavelmente a “previsão” mais sopa no mel que poderia ser proposta a respeito da vida cultural ocidental nos anos 10 – qualquer zé mané pode se gabar de estar por dentro da “regra dos 20 anos” que dita os ciclos dos revivals musicais e que seria responsável por todas as belezas e atrocidades cometidas em nome dos anos 80 durante a primeira década do século XXI. Derivado das teorias que regem o universo da moda, talvez o axioma não se sustente mais com tanta certeza, uma vez que os mesmos anos 00 que reavivaram os 80 também trouxeram o MP3, que legou ao consumidor a escolha de seu revival favorito, ao alcance de qualquer bom programa de partilha de arquivos. Por outro lado, é certo que não faltam esforços para reabilitar a década do grunge no imaginário coletivo, e bandas “menores” no panteão do indie rock do final dos 00 – numa lista que vai do The Pains of Being Pure At Heart ao Deerhunter – fizeram a sua parte nessa cruzada, ajudados especialmente pelas dezenas de reformas de grupos responsáveis por inúmeros clássicos noventistas.
Apesar desse contexto, o álbum de estreia do Yuck ainda é uma agradável surpresa, um passeio musical que mais parece uma fita VHS velha com uma edição perdida do Lado B (programa da MTV Brasil dedicado ao indie rock) gravada em 1997. Se o que chama a atenção do ouvinte no primeiro momento é a habilidade do grupo britânico em ser um Black Crowes da geração X, emulando luminares como Superchunk, Teenage Fanclub, Yo La Tengo e Elliott Smith, é o que eles fazem com essas referências que faz a audição do disco seguir até o fim e se repetir infinitamente. As características mais caras ao indie rock da época – a produção lo-fi, a ironia, a obsessão pela guitarra – poderiam ser reproduzidas facilmente por qualquer outro grupo, mas o Yuck consegue se sobressair e afirmar sua identidade apesar das referências aos 90, resgatando aquela fantasmagórica capacidade de evocação emocional que marca os melhores trabalhos de grupos como Guided By Voices e Buffalo Tom.
Ouvir as melhores faixas do grupo – da sujeira de “Get Away” à fofura de “Sunday” – é ser transportado diretamente para aquele estado semibeatífico da adolescência em que nada estava bem, mas também nada estava tão mal, até porque tudo estava para acontecer e o tempo ainda não havia passado, o equivalente sonoro de acordar de um sonho em uma tarde de quarta-feira, matando aula em algum banco de praça com uma cerveja na mão sob o sol de um outono qualquer.
Por Amauri Stamboroski Jr.