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Fri: 06-17-11

Koudlam . O mundo não é o bastante

Koudlam . O MUNDO NÃO É O BASTANTE

Por Michaël Patin, de Paris. Tradução de Ana Ferreira Adão. Fotos por Alice Knight e Cyprien Gaillard


Com sabor de eletrônico mundial, Koudlam instaura sua visão monumental do techno world no coração da nossa ofegante civilização pós-milênio. Após o inesgotável Goodbye (2009, relançado em formato digital este ano) e antes de um novo EP chamado Alcoholic's Hymns, previsto para maio, tentamos compreender por que sua música nos faz fantasiar tanto. Uma obra de origem marginal também pode encontrar formidável repercussão em sua época. A obra de Koudlam cultiva há já cinco anos essa capacidade. Apaixonado por paisagens, monumentos, culturas, ritos, a alteridade sob todas as formas, ele perscruta nossa pós-modernidade cansada de si mesma e impõe sua grande visão do eletrônico neste mundo de mensagens tão vazias. E faz isso com ares de conquistador e xamã; de herói, enfim. Emergido das ruínas, projeta sobre elas os fantasmas contemporâneos que o ultrapassam.

Intimado a encarná-los, quiçá preencher ele mesmo essas lacunas, Koudlam esforçou-se para guardar um certo mistério sobre si mesmo – uma forma de mostrar que ainda não está pronto para levar sua arte à altura do homem, o que incomoda, fascina e impõe respeito. É por isso que sentimos uma certa pressão antes de encontrá-lo pela primeira vez. O sentimento é de que nada conseguiremos tirar desse encontro. Atitude exagerada, humor violento, silêncio sepulcral? Por já termos nos deparado com sua silhueta passiva-agressiva nas casas de show, temíamos nos chocar contra uma armadura de cinismo na superfície do gênio. Por sorte, bastava ouvir sua música novamente – que além do citado inclui Nowhere (2006) e Live At Teotihuacán (2008) – para que a vontade de confrontá-lo voltasse. Tentamos, então, elaborar o interrogatório da melhor forma possível, a fim de revelar um pouco de íris por debaixo dos óculos escuros.

“Não me considero um artista parisiense, nem mesmo francês. Trabalho em Paris há alguns anos, mas meu coração e minha cultura não são daqui. Eu me sinto mais em casa na África Ocidental, no México ou nos Alpes Franceses que em Paris, ainda que eu goste muito desta cidade.”

Descemos ao segundo subsolo de um prédio do décimo-primeiro arrondissement de Paris, um labirinto de portas idênticas que davam para os porões. Avistamos Arthur, jovial patrão da gravadora Pan European Recording. “Você não teve problemas para nos achar? Tem que tomar cuidado, tem um clube SM hardcore logo ali em cima.” Ele não estava brincando. No estúdio, um forte cheiro de maconha toma conta da atmosfera, indicando que chegamos ao nosso destino. É aqui que Koudlam prepara seu novo EP, assim como seu terceiro álbum. Logo no início da conversa, as nossas antigas apostas caem por terra: palavras generosas e calmas de um jovem homem abraçando plenamente a vida de artista.

Sem piadas internas para os descolados, sem literatura de slogan, mas atitudes e engajamentos que confirmam seu papel de desbravador.    A trajetória de Koudlam não poderia ser convencional. Depois de uma passagem forçada pelo conservatório durante a infância, montou grupos de rock e foi rapidamente iniciado por seu irmão mais velho no manejo de instrumentos eletrônicos. Ao ingressar no mundo das raves hardcore, despejou sua “música de guerra” por quase dez anos, antes de ser acometido pelo cansaço (“muitas drogas, muitos babacas violentos”).

Daquele período, ele conservou o apelido (Koudlam é uma corruptela de “coup de lame”, ou “golpe de lâmina”) e o gosto pelos sons que atacam o cérebro das multidões. Nowhere, seu primeiro sinal de vida, foi criado como questão de urgência. “Produzi o Nowhere sozinho, porque as músicas estavam se acumulando e eu queria passar pra outra coisa. Pra dizer a verdade, eu temia na época que o mundo estivesse completamente fodido e que ninguém se interessasse pela minha música.” Nesse álbum, sua música já estava poderosamente formulada: um tecnho world entre transe, raiva, caos e iluminação.“Esse álbum é um massacre”, reconhece hoje.



Mas o estalo viria de outro lugar, de uma galáxia aparentemente distante: a arte contemporânea. Em uma temporada no Vietnã, encontrou-se com o artista plástico Cyprien Gaillard, que lhe abriu portas para novas e extraordinárias perspectivas. Uma forte e recíproca admiração entre dois artistas, então desconhecidos, que pensam grande. “Nós trabalhamos juntos no Desniansky Raion, um vídeo para o qual eu compus uma trilha sonora de trinta minutos e que levei meses e meses para criar. Teve também o Crazy Horse, que fala dos índios e de suas montanhas dinamitadas por um escultor polonês. Eu fiz essas performances em lugares que correspondiam à nossa estética, quando era possível e quando nos proporcionavam os meios. Terraços de prédios, topos de guindastes, pirâmides, florestas, teatros italianos, ruínas e precipícios pelo mundo inteiro.”

Enquanto seu sócio entrava no rol dos grandes (prêmio Marcel Duchamp em 2010, com vendas chegando aos cem mil euros), Koudlam executava seu número de ginasta com uma desenvoltura desconcertante. “Eu não via isso como um desvio muito grande. Na época, estava convencido de que a minha carreira artística funcionaria melhor na pintura. Mas me dei conta de que, sem dúvidas, eu era melhor nas melodias e no canto, que eu devia fazer só isso.” Como Serge Gainsbourg já havia feito antes, Koudlam deixou de lado os pincéis para abraçar uma “arte menor”.

“Quando comecei fazer música eletrônica, comprei um monte de máquinas enormes – samplers, sintetizadores, mesas de mixagem… Quando vieram os plug-ins e o PC se tornou um home-studio por si só, eu nem hesitei em vender meu antigo material. Eu perdia na qualidade do som, mas ganhava na liberdade de movimentos, o que, pra mim, é o mais importante.”

O talento da composição, que ele evoca modestamente, conta muito para o sucesso de seu diálogo com imagens e paisagens, talvez ainda mais que a performance dos instrumentos eletrônicos que usa. Seu desejo, atualmente, é ser ouvido pelo máximo possível de pessoas e de abrir novos horizontes a todos, uma ilusão que ele endossa com espírito cavalheiresco. “A dimensão monumental me agrada, mas acho que a minha música é de fácil acesso. Muitas das minhas canções são bastante universais, leves e envolventes.” Goodbye, seu disco mais bem finalizado até hoje, prova que ele tem razão: de amplitude e clareza raras, ouvimos esse disco como se estivéssemos sonhando com um mundo outro, que devemos (re)povoar juntos.  

Live At Teotihuacan  

Um segundo momento fundador é seu encontro com Arthur Peschaud, um ano antes da criação da Pan European Recording. Fiel a sua primeira intuição, Peschaud publica o ep-vinil Live At Teotihuacan como primeira referência da gravadora lançada em 2008. No mesmo ano, os violinos sintéticos ansiosos de See You All encontram um lugar digno na trilha original do filme Un Prophète (2009), obra-prima de Jacques Audiard, que recebeu muitas premiações.



Koudlam continua, no entanto, a cultivar sua singularidade, alheio aos efeitos de modas e clãs, escapando de todos os atalhos estéticos ou geográficos. “Não me considero um artista parisiense, nem mesmo francês. Trabalho em Paris há alguns anos, mas meu coração e minha cultura não são daqui. Eu me sinto mais em casa na África Ocidental, no México ou nos Alpes Franceses que em Paris, ainda que eu goste muito desta cidade.”

“Estou em guerra contra o desaparecimento da cultura e das línguas, a decadência da nossa civilização, contra o bom pensamento, que está em todo lugar. Acho que devemos defender a sociedade, mas enfim, eu sou só um músico.”  

Esse nomadismo materializado é a chave para entender o impacto de suas criações. Se ele se furta de exibir uma atitude reacionária em vista da tecnologia (não há culto ao sintetizador vintage, o que faz dele uma exceção até mesmo em sua gravadora), furta-se também de chafurdar nas facilidades permitidas por ela. “Quando comecei a fazer música eletrônica, comprei um monte de máquinas enormes – samplers, sintetizadores, mesas de mixagem… Quando vieram os plug-ins e o PC se tornou um home-studio por si só, eu nem hesitei em vender meu antigo material. Eu perdia na qualidade do som, mas ganhava na liberdade de movimentos, o que, pra mim, é o mais importante.”



Tirando o melhor do nomadismo em sua acepção tradicional (gosto pela aventura, antissedentarismo) e pós-moderna (essas tecnologias que, paradoxalmente, permitem que as pessoas fiquem imóveis diante da tela do computador), ele repõe o risco no centro de sua abordagem, evidenciando esse paradoxo contemporâneo. Nos tempos atuais, o artista deve ser móvel; ele se reapropria do território para combater a ilusão de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. “Estou em guerra contra o desaparecimento da cultura e das línguas, a decadência da nossa civilização, contra o bom pensamento, que está em todo lugar. Acho que devemos defender a sociedade, mas enfim, eu sou só um músico.”   

Esse último traço de modéstia nos espanta; ele, que ainda recentemente imaginávamos um megalômano descomplexado. “A verdade é que eu tenho, ao mesmo tempo, a maior e a mais miserável autoestima. Um grande clássico.” Franqueza e lucidez em vez de autoficção e autofelicitação. E o controle drástico que ele parece impor a sua imagem? Nada mais que a expressão de uma necessidade de independência. “Se você deixa os outros fazerem as coisas por você, pode acabar cheio de plumas enfiadas no rabo, vestido de Hugo Boss. Sempre tem uns diretores artísticos, uns estilistas cujo estilo você odeia. Eu tento evitar isso, mesmo que o meu agente não fique muito feliz. Também procuro conservar uma opacidade para deixar a minha música viver, não limitar a sua extensão dando explicações. A música supera o artista, ela provém de estados mentais que lhe escapam.”



Ele persevera nessa posição a cada dia que Deus, o Diabo, ou a Serpente Cósmica, lhe oferecem, sem se preocupar com as fronteiras físicas ou midiáticas. “Eu terminei há pouco uma trilha original para um documentário gravado no Senegal, dirigido por dois austríacos. Quase terminei o EP que sai em maio e estou avançando no meu próximo álbum, previsto para fim de novembro. Depois da minha temporada na Bolívia e de algumas idas a Londres, suspendi todos os meus shows, porque quero preparar um novo live, em que certamente estarei acompanhado. Também tenho em vista um projeto de vídeo experimental que vai se passar nas montanhas com o Frederik Jacobi, que era alpinista. Sou apaixonado por alpinismo e fiz com que ele voltasse ao seu antigo ambiente… A mulher dele deve me detestar.”

“Procuro conservar uma opacidade para deixar a minha música viver, não limitar sua extensão dando explicações. A música supera o artista, ela provém de estados mentais que lhe escapam.”

Uma última e breve gargalhada e ele enfim nos convida a ouvir suas novas demos. Na sua cabine de espaçonauta, o som é imenso. As chuvas de melancolia arpoam nosso peito, os prédios se desmoronam em ondas, uma alegria pegajosa se instala. Aliviados dos fantasmas redutores que concernem ao homem, é tempo de declarar nosso amor incondicional ao artista Koudlam. Pelo que ele cumpre e quer cumprir, seus combates e suas visões, por todas as majestosas vertigens – musicais e ontológicas – que ele oferece ao homem do terceiro milênio. Um gosto doloroso de paraíso no coração do nosso inferno.

Saiba mais:

www.koudlam.com