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Wed: 06-01-11

As Relíquias de Luísa Ritter

Por Marina Mantovanini

Com um conhecimento matemático sobre suas pinceladas, Luísa Ritter consegue revelar suas obras em detalhes sem nos fazer perder o encanto por seus quadros impressionistas e nostálgicos. Figuras e cores, ambas ofuscadas por tinta acrílica e outros materiais como lápis grafite, aparecem repetidamente em suas telas e formam uma cena familiar com cheiro de algo antigo, que já ficou para trás.

Sem se intimidar com as agruras de viver de arte no Brasil, a artista plástica gaúcha mudou-se para São Paulo em 2008. Desde então, divide um apartamento no bairro de Pinheiros com mais dois artistas de seu estado natal, Carla Barth e Luciano Scherer – amigos importantes para o amadurecimento artístico de Luísa. “Foi em São Paulo que comecei a me preocupar com o meu portfólio. Isso aconteceu quando larguei a publicidade e resolvi me dedicar ao meu trabalho. Eu queria ter alguma coisa autoral para apresentar e até então tinha um banco de dados de vários estudos, uma produção intensa de muitas coisas, mas nada pronto”, conta.

Durante o período de produção e de organização do portfolio, Luísa foi conquistando espaço no acanhado circuito artístico brasileiro, e hoje tem suas obras representadas pela galeria paulistana Emma Thomas. “Tudo começou a mudar depois de participar de uma revista de arte e moda, a Gudi. Uma das curadoras, a Juliana Freire, era uma das sócias da Galeria Emma Thomas. Foi aí que recebi o convite para participar de duas exposições no final de 2009, no antigo espaço da Galeria”, relembra. Hoje ela segue em direção ao reconhecimento pelo seu trabalho autoral, em que o diferencial fica por conta do modo como representa o que vê e transforma suas histórias pessoais em relíquias do passado.

Você sempre desenhou?

A minha infância foi privilegiada, era repleta de natureza, sensações de estar livre para se divertir. Meus irmãos e primos sempre estavam juntos na casa do meu avô materno. Passávamos boa parte do tempo no pátio, íamos descobrindo por todo canto algo para se divertir. Criávamos um mundo que ia se abrindo conforme descobertas eram feitas – livros, objetos e fotos guardados despertavam a curiosidade de saber a história que estava por trás dessas memórias. Sempre via meu irmão mais velho desenhando, e sempre o acompanhava para ajudar. Mesmo que ele fosse até o telhado desenhar, eu ia atrás. Via também meu pai desenhar umas casas de campo em papéis quadriculados, isso me chamava muito a atenção. Junto com as milhares de tralhas que meu pai ia acumulando lá em casa, se criou um universo muito rico de materiais. Foram os meus primeiros contatos com a arte, de uma forma básica e espontânea, sem a menor pretensão. Além ter na escola a arte como uma das únicas matérias em que me interessava. Sempre me via desenhando no caderno.

Você disse que a faculdade abriu novos caminhos na sua arte, e que a Cláudia Barbisan (artista plástica gaúcha) foi a figura central. Em que pontos ela é referência em suas telas?

Comecei a frequentar um curso semanal de desenho, orientado pela Cláudia, que passou a me dar dicas e a me orientar informalmente. Algumas vezes ia visitar o ateliê dela e pegava emprestado algum livro de arte. A Cláudia chegava a cada aula trazendo uma mala repleta de livros, uma seleção de apresentações de formas de criar, que foi evoluindo junto com o curso de desenho que ela dava. A influência sempre vai existir. Ela deixou presença em espaços que estão ainda estavam sendo construídos. Era o olhar de alguém que levantava questões, alternativas para encaminhar o seu trabalho. Sempre vejo pequenos detalhes na minha pintura –existem encontros de pinceladas feitas com movimentos intensos, como nas pinturas da Cláudia. É uma coisa feita involuntariamente.



Como você cria?

Na verdade, meu processo de criação nunca é pré-definido, tudo depende do que for acontecendo, de como estará o dia, a minha disposição e o nível de concentração. Meu trabalho começa primeiro na busca de referências, na soma de motivação, estímulos e inspiração, que surgem a partir da pesquisa diária em livros, na internet, no convívio com outros artistas, no compartilhamento de conhecimentos, desde pintura até música. Já pintei doze horas seguidas, mas percebi que era necessário sair para ver o que estava fazendo, observar mais. Hoje tento acordar cedo sempre, e usar a luz do dia, pintando de quatro a sete horas. É sempre difícil, é preciso estar presente diariamente para poder evoluir. É uma obrigação que me dou, e que segue pelo convívio diário com os outros artistas com quem divido o ateliê, um empurra o outro.

Um ponto forte do seu trabalho é a reflexão subjetiva do seu mundo interior na reutilização de fotos antigas de família. É a partir delas que você recria imagens deformadas da realidade.

Foi procurando em minhas referências que encontrei um mundo muito rico de imagens, fotos e filmes em Super 8 produzidos ao longo da vida pela minha família. Vejo o tempo passado como relíquias. Hoje são poucas as coisas que resistem ao tempo. Essas raridades do passado me fascinam. Não tanto como algo saudosista, mas para poder reutilizar de uma nova forma, mais criativa, resgatar um lado mais orgânico. Levo [as antigas fotografias] como inspiração para criar, fotografando e filmando de forma experimental, com câmeras analógicas e em Super 8. Resgato essas lembranças que vejo nas fotos de uma forma quase cronológica. É uma experiência de resgatar o passado. Quem dera poder voltar no tempo com toda essa bagagem já vivida. Certamente, iríamos deixar mais lembranças de momentos bem vividos, registrando os mesmos passos para serem vistos no futuro.

Ao mesmo tempo que têm características expressionistas, as suas pinceladas retomam também o Impressionismo – tanto na textura como na composição de cores. Como é essa relação com as duas escolas artísticas?

Para mim é impossível não ter visionários como eles entre minhas principais referências, assim como os pré-rafaelitas e os pós-impressionistas. Os expressionistas manifestavam-se ao mostrar subjetivamente a natureza e o ser humano, priorizando os sentimentos. Com uma visão metafísica que defendia uma liberdade individual, deformando a realidade, uma abertura ao mundo interior. Foi naturalmente que encontrei essas duas escolas. A cultura que veio dos primeiros imigrantes alemães permaneceu com o tempo nos costumes e hábitos de toda uma região do Sul do Brasil, que trouxe na bagagem acontecimentos históricos vividos na Europa. À medida que fui desenvolvendo e avançando o meu desenho, cada vez mais acentuava os traços dessa herança cultural.

Você sempre fala sobre a importância de sua herança cultural e do convívio com a natureza em Montenegro (cidade próxima a Porto Alegre) na concepção de suas telas.

Eu cresci sabendo a história do meu estado. Era algo muito vivo nas famílias, nas escolas, aprender a cantar o hino rio-grandense e a história do Rio Grande do Sul fazia parte da educação. Nasci e cresci numa cidade com forte influência alemã, com pequenas colônias de imigrantes no interior, onde minha família viveu. Até os oito anos de idade o meu avô paterno só falava alemão. Era comum nos dois lados da família ouvir pequenas palavras do dialeto, tanto no Ritter como no Zimmer. Os imigrantes europeus deram uma importante contribuição à formação do gaúcho. A ética do trabalho, o cultivo da terra, os vários pratos da nossa culinária, cucas (pão/bolo doce) com schimier (doce de frutas) e nata, e na salada com maionese que acompanha um verdadeiro churrasco gaúcho, com costela de gado e uma bela ovelha. É uma educação que se tem junto à natureza, à terra, nos seus devidos valores. Não tem como se desvincular disso.

Os seus desenhos já foram parar em um clipe da musica “Antes de Você”, dos Titãs. Como foi essa experiência?

Uma amiga de Porto Alegre que mora aqui em São Paulo lembrou de mim quando estava trabalhando na produção. Ela perguntou se eu estava a fim de pintar uns sacos de papel para um trabalho. No primeiro momento, confesso que achei estranho e disse que não. Em seguida ela me contou que era para o clipe dos Titãs. Foi algo bem informal mesmo, as pessoas que estavam fazendo os outros desenhos eram da própria equipe da produtora. No mesmo dia em que recebi o convite, comecei a produzir com uma pequena ajuda de custo para os materiais. A reação deles foi bem positiva. Não imagino o que eles esperavam, se algo mais simples de canetão, mas a pintura em camadas, bem expressiva, eu sabia que iria se destacar. Queria tirar aquele padrão de saco de papel. Fiz bem tranquila, não tinha ideia de como estaria inserido no clipe, e o quanto iria repercutir a minha pequena participação na produção.



Como você enxerga os trabalhos mais comerciais?

É importante ter liberdade de escolha, fazer tudo em seu estilo. Levei o meu trabalho a sites na internet desde que entrei na faculdade e comecei a desenhar. Ia salvando no Flickr, o primeiro passo para publicar em revistas e ilustrar jornais. É um passo para começar a se movimentar pelo mundo, um portal para referências e contatos, para aprender e evoluir. Passei a criar a partir de briefing em São Paulo, quando as oportunidades foram surgindo. Aos poucos produzia minhas telas e ao mesmo tempo ilustrava para revistas e jornais. A reação de quem vai receber a minha arte faz parte da decisão de fazer ou não um trabalho, mas sei que de alguma maneira sou retribuída, tendo oportunidades posteriores, convites para entrevistas e exposições. É preciso saber a importância do trabalho, se vale a pena unir a sua imagem com a marca em questão. A melhor forma de enxergar essas oportunidades é ver o trabalho como um desafio, uma chance de ser reconhecia. Atualmente tenho o apoio da agência Müve para trabalhos comerciais. Lá tenho a chance de querer ou não, e o contato com o cliente fica intermediado por eles, solucionando várias questões burocráticas em que não preciso me envolver.

Defina o seu trabalho.

Acredito estar sempre evoluindo, modificando a forma de me expressar e fazendo com que vários pontos aleatórios se unam. Mostro algo realista mas obscuro, sem entregar totalmente a imagem, deixando somente rastros e lembranças que fazem sentido combinados com outras formas.

Saiba Mais:
www.flickr.com/photos/luisaritter