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Wed: 05-04-11

Operação França: HYPO + PILÖT


Por Michaël Patin, de Paris. Tradução de Ana Ferreira Adão. Fotos por Fernando Martins Ferreira

Quando a Soma me propôs apresentar dois grupos ou músicos franceses da atualidade, senti que tinha uma missão em mãos. Eu tinha consciência da afeição dos brasileiros pela cultura francesa, e dos fetiches que essa afeição é capaz de criar. Impelido por uma inesperada posição diplomática, cheguei à exaustão, imerso em pensamentos sem fim e perfeitamente ridículos. Privilegiar artistas de língua francesa para conservar um exotismo atrativo? Falar sobre os restos do French Touch, o último movimento musical francês com uma verdadeira dimensão internacional? Evidenciar os valores ascendentes do indie pop, obcecado pelos anos 80, assim como seus similares ingleses ou americanos?

Certa manhã, porém, eu estava ouvindo a lista de álbuns que me encantaram em 2010 e decidi sair pela tangente. Já que a revista me dava carta branca, eu poderia dar espaço às “bestas selvagens” que escapam do particularismo local e resistem às categorizações oficiais. Artistas que vêm de outro lugar ou de lugar algum, injustamente ignorados, ainda sem reconhecimento. Artistas inclassificáveis, que não nos fazem perder a esperança na “pátria dos direitos do homem” neste momento de expulsões e tendências fascistas. Uma escolha política para os ouvidos exigentes dos leitores da Soma.

HYPO, O ELETRÔNICO FORA DE CIRCUITO

Dez anos de carreira e quase tantos discos quanto anos nas costas: Antony Keyeux, mais conhecido como Hypo, está longe de ser um iniciante, mas ainda evolui nos recantos mais sombrios do underground. Sua última criação, no entanto, Coco Douleur, foi a melhor coisa que aconteceu à música eletrônica francesa em 2010. Nada de intelectualismo enfadonho ou de hedonismo beato, mas uma música lúdica e perigosa, que oscila entre pesadelo pop e melancolia sintética. Um encontro com um laboratorista intratável, que sabe o preço de sua liberdade.

Pra começar, como você se sente “representando” a França em uma revista brasileira?

Fico lisonjeado, claro. Você poderia ter pegado qualquer um do Ed Banger no meu lugar… Mas, enfim, estou pouco me lixando pra minha origem francesa. Quando comecei, a música até podia ser projetada em termos de polos geográficos, mas agora, com a internet, houve uma explosão. Me interessa saber de onde vêm as pessoas, mas isso não chega a ser um critério. Em Coco Douleur, tive a colaboração de australianos, americanos que moram no Japão, japoneses que moram em Berlim… Da próxima vez, por que não fazer alguma coisa com brasileiros?



Como você descreveria a sua música pra uma tia velha durante um almoço de família?

Eu diria que é pop. Pop eletrônico. Que passa por coisas estranhas. Hoje em dia, a maior parte das minhas músicas é cantada, mas esse formato está começando a me cansar. Talvez eu volte a fazer coisas mais instrumentais. A música eletrônica dita “experimental” evoluiu, mas também se exauriu de certa forma. O minimalismo, o trabalho de freqüências, a estética do erro, tudo isso está muito esgotado. Por outro lado, ouve-se muito pop eletrônico com canto. Eu adoraria sair dessa, encontrar outros caminhos.

A impressão que se tem é a de que é importante pra você ter uma postura definida com relação à produção musical atual.

Sim, mas é difícil, porque isso pode acabar sendo visto como uma atitude reacionária. Ao mesmo tempo, estamos em uma época em que se tem direito a ser um pouco reacionário. Reclamar faz bem, é saudável. Tento permanentemente manter um equilíbrio entre o meu entusiasmo e meu lado “velho ranzinza”.

Infelizmente, você continua pouco conhecido na França.

Sim, isso é claro. Se eu fosse conhecido, venderia mais discos! (Risos) Sou mais conhecido no Japão, na Alemanha e na Suécia do que na França. Pro "Coco Douleur", só consegui distribuição na França e no Japão, então os ventos não têm sido muito bons pra mim.

Você nunca tentou compor um hit pra poder financiar seus discos?

Me sinto incapaz de fazer isso. Essa coisa do “exercício de estilo” me desestimula. Mas eu adoraria que isso acontecesse.

Mas, ao mesmo tempo, você assumiu o partido da gratuidade, disponibilizando o download da maior parte dos seus discos no seu site…

Menos os últimos, porque não quero sabotar a minha gravadora [Tsunami Addiction], que luta pra sobreviver. Mas tenho vontade de manter esse aspecto. No dia em que propuserem um formato digital de boa qualidade, sem perdas, vou entender que vendam música dessa forma. Ainda é o discurso do velho ranzinza. (Risos) Quando compro um disco, também o coloco em mp3 no meu computador, é mais pratico. Só acho estranho valorizarem uma forma inferior às anteriores. Hoje em dia, os sistemas de escuta e mastering são adaptados pra compensar a mediocridade do mp3. Não é algo que se possa chamar de progresso.

E você já pensou em soluções pra se posicionar diante da crise do disco?

Acho que o desmoronamento da indústria do disco foi merecido. Infelizmente, isso vem acompanhado de uma mudança no status do artista. Hoje em dia, todo mundo pode fazer música e torná-la acessível, há uma renovação permanente que torna as coisas cada vez mais descartáveis. Todos os critérios de avaliação são turvos. Aos poucos, vai haver uma espécie de faxina. Sempre vai existir gente pra comprar discos e gravadoras pra defender estéticas diferenciadas.


“Estou pouco me lixando pra minha origem francesa. Quando comecei, a música até podia ser projetada em termos de polos geográficos, mas agora, com a internet, houve uma explosão. Me interessa saber de onde vêm as pessoas, mas isso não chega a ser um critério.”

Quais são suas técnicas de criação?

Principalmente programação, colagem e sampling. Eu sequer tenho um estúdio pra gravar as vozes das pessoas que participam dos meus discos. As colaborações não se limitam ao canto. Geralmente envio uma base aos convidados, eles fazem propostas e depois eu faço uma seleção. É mais um trabalho de agenciamento e de escolhas.

Como você concebe os seus shows?

Não tenho uma relação de paixão com apresentações ao vivo, sou apaixonado pela musica de estúdio. Neste momento, tem acontecido uma revalorização dos shows, de um caráter rock’n’roll com o qual eu não me sinto muito à vontade. Mesmo assim, o fato de ter integrado um baterista no palco me abriu novas perspectivas. No final de 2009, fomos convidados pra fazer três shows de música improvisada no Centre Pompidou, com diversos convidados, e foi muito prazeroso para mim. Quero desenvolver esse aspecto, mas sem cair na paródia do “verdadeiro músico”. O problema, agora, é que a gente ouve muitos bons músicos, mas poucas músicas boas.

A sua discografia já é notável, em especial seus quatro álbuns solo. Você poderia nos falar um pouco de cada um deles?

O primeiro, "Kotva", surgiu com a microgravadora inglesa Spymania, que lançou os primeiros EPs do Squarepusher e o primeiro álbum do Jamie Lidell. Eu tinha descoberto a cena Rephlex/Warp, que me impressionou bastante, por volta de 1994. Depois, descobri a gravadora alemã Tomlab e toda a escola do sampling: Stock, Hausen And Walkman, People Like Us, V/Vm… Misturei todas essas influências do meu jeito, de maneira um pouco ingênua. Um disco tão lo-fi não poderia ser lançado hoje. Mesmo assim, ele ainda está no Warpmart (loja de música online), apesar de nós só termos vendido quatro exemplares! (Risos) A partir do segundo álbum, "Karaoke A Capella", comecei a ter muitas colaborações. Eu dava um curso de iniciação à musica eletrônica a estudantes de artes plásticas, estava numa de Barthes, na morte do autor, esse tipo de teoria. Queria criar uma certa confusão, multiplicar as direções e incluir elementos que não eram de minha autoria. Minha gravadora na época [Active Suspension] ainda era nova e não defendeu muito o álbum. Como eu estava contrariado, engatei em um disco mais difícil, o Random Veneziano, que é pomposo e barato ao mesmo tempo. As opiniões divergem: há quem diga que esse é o meu melhor disco e os que pensam que ele foi feito de sacanagem.



Durante algum tempo, tive dificuldade pra pensar numa continuação. Meu álbum com o EDH ["The Correct Use of Pets"] deu início à minha volta aos trilhos. Precisei de um tempo até conseguir chegar com um disco coerente, que celebrasse sua época e a criticasse, que contivesse ao mesmo tempo leveza e pathos. "Coco Douleur" foi tido como uma espécie de best of do que eu tinha feito de melhor, mas não consigo concordar com isso. A crítica que mais me entristeceu foi a seguinte: “um excelente disco, que nos faz ter vontade de ouvir os antigos”. Que merda! Acho que esse disco abre novos horizontes, mesmo que tenha uma dimensão nostálgica.

Quais são os seus projetos para um futuro próximo?

Conheci recentemente um VJ com quem tenho vontade de trabalhar. Normalmente eu detesto os VJs, porque eles servem de paliativo: “vocês vão entediar os seus ouvidos, então nós vamos ocupar os seus olhos”. Esse VJ parece fazer as coisas de outro jeito. Ele não usa um telão, mas projeta cores diretamente nos músicos. E ele improvisa tudo, o que nos permite dialogar. Fizemos um show juntos em uma galeria de arte e vamos reproduzir a experiência em breve em um hospital psiquiátrico. Não faço ideia de como o público vai reagir… É fácil fazer loucuras num show, mas e quando você está entre loucos de verdade, faz o quê?

PILÖT, O ROCK EM TRANSE

O Pilöt esperou quase um ano até que uma gravadora enfim lançasse seu primeiro álbum, apesar de dois EPs autoproduzidos e shows cada vez mais devastadores. Foi o que aconteceu com Mother, em que o quarteto parisiense revitaliza o noise rock dos anos 90, com ajuda de melodias multicores, ritmos tribais e samples iluminados. Nós nos encontramos com o instrumentista Antoine e a vocalista Alex para falar da estreia do grupo na corte dos grandes.

Como vocês formaram o Pilöt?

ANTOINE . Eu conheço o Victor (outro instrumentista da banda) há um bom tempo. Começamos a trabalhar juntos e queríamos montar um grupo com uma verdadeira voz rock feminina. Colocamos um anúncio e Alex respondeu, simples assim. Tocamos juntos algumas vezes, depois nos separamos por um ano… Problemas de personalidade forte, sem dúvida. Não sabíamos bem o que queríamos na época, procurávamos uma Missy Elliot com a voz de uma Kim Gordon, era um pouco demais!
ALEX . Eles não estavam prontos, nem eu. Eu ainda tinha muitos problemas de ritmo.



Mas vocês acabaram se reencontrando. Bela história…

AN . Um dia fizemos uma análise de todas as vocalistas que tínhamos encontrado e percebemos que Alex era a de personalidade mais forte. E ela nos faz pagar por essa decisão desde então… (Risos)
AL . Da primeira vez, eles me demitiram por telefone! Não sou a princesinha do grupo, sou um menino que deu errado. Sou a mais insolente, não tenho compromisso, ninguém mexe comigo!
AN . Você é a mais viril! (Risos)

Que artistas inspiram vocês?

AL . Sonic Youth, PJ Harvey, Sloy, Shellac…
AN . The Beastie Boys.
AL . Eu também ouvi muito Girls Against Boys quando era menina. (Risos)
AN . Eu adoro as músicas que o Nino Rota compôs pra Casanova, o filme do Fellini. Se colocar um bumbo e uma caixa, elas viram excelentes instrumentais de hip-hop.
AL . Nós também fomos muito influenciados por filmes e livros. A minha heroína é a Tank Girl.


“Eu adoraria cantar em francês, mas não tenho certeza de que vão me entender melhor. Desde pequenininha, sou apaixonada pelos sotaques, então criei a minha própria maneira de pronunciar as coisas. Lamento se isso incomoda os puristas.”


Uma das particularidades e forças do Pilöt é a sua voz, Alex. Esse jeito de torturar o inglês é proposital?

AL . Não, nada é calculado. Algumas pessoas me entendem bem, outras não entendem nada. Talvez isso esteja ligado às minhas origens, uma mistura de Bretanha (região da França à beira do Canal da Mancha), de Bélgica e de Grã-Bretanha. No início, eu não queria me fazer entender. Hoje em dia, trabalho mais na simplicidade, ficaria feliz se ouvissem meus textos.

Existe esse clichê que diz que muitos grupos franceses escolhem o inglês por facilidade, porque assim se pode cantar qualquer coisa…

AL . Não é o nosso caso. Na verdade, isso só incomoda aos franceses, os estrangeiros nem se importam com isso. Eu adoraria cantar em francês, mas não tenho certeza de que vão me entender melhor. Desde pequenininha, sou apaixonada pelos sotaques, então criei a minha própria maneira de pronunciar as coisas. Lamento se isso incomoda os puristas.

E esse é um pouco o paradoxo do Pilöt: vocês querem fazer uma música complexa e acessível, perturbada e pop.

AL . É no palco que a gente consegue se doar de verdade. Não ficamos prostrados diante dos nossos amplificadores, nós tocamos com um espírito de troca.
AN . Nós amamos o lado acessível do pop, mas quando ouvimos um riff que parece já existir na música de outra pessoa não nos interessamos. No final das contas, é bom ficar em cima do muro, tentar aliar pesquisa e belas melodias.



Por falar em show, vocês escreveram no Myspace que gostariam de “morrer e renascer” pro público. É uma expectativa ambiciosa.

AL . Eu nem sei direito de onde isso veio… Se eu canto, é pra passar ao público uma certa intensidade em nível emocional. Esse é o lado místico do Pilöt. Nós queremos criar um transe, uma forma de catarse.
AN . Às vezes a gente consegue, mas ainda há muito trabalho a ser feito pra atingir nosso ideal.

Saiba mais:
www.hypomusic.net
myspace.com/00pilot