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Fri: 05-27-11

Polêmica do show cancelado do Elma no Studio SP levanta questões na cena independente


Show cancelado não é algo tão incomum na música independente paulistana, mas poucas vezes algo que pode parecer corriqueiro ganhou tamanha repercussão quanto o cancelamento de última hora da apresentação do grupo de metal instrumental Elma no Studio SP na última terça-feira (24). O show não realizado se transformou em uma celeuma virtual entre o grupo paulistano, a casa de shows, o coletivo Fora do Eixo (que produz a programação das terças em parceria com o Studio SP) e o Mombojó, banda que tocaria no espaço na mesma noite.

Bernardo Pacheco, guitarrista do Elma, publicou em sua página do Facebook na manhã desta quarta (25) um longo texto explicando os motivos do cancelamento da apresentação (clique aqui para ler). Segundo Bernardo, o show do Elma foi agendado em março pela produção do Studio SP, como parte da programação do projeto Cedo & Sentado, que traz shows gratuitos antes das apresentações principais da noite. A data, inicialmente programada para o dia 17 de maio, foi alterada a pedido da casa para o dia 24, com o consentimento do grupo.

Para a mesma data, o Fora do Eixo, que faz a curadoria das atrações da casa às terças-feiras, agendou posteriormente uma apresentação do Mombojó. O show do grupo pernambucano faria parte das comemorações de cinco anos de existência do coletivo, e também foi divulgado como aniversário dos dez anos da banda.

Sem abertura

Os desentendimentos começaram quando o Mombojó informou que, devido a problemas passados com o Studio SP, não se apresentaria na casa com bandas de abertura. “Uma exata semana antes do show ficamos sabendo que a banda que faria a segunda parte da noite seria o Mombojó, como parte da Noite Fora do Eixo SP, tocando com entrada paga (o que não interfere no horário grátis da casa, das 21h à 0h)”, explica Bernardo no seu comunicado. “Junto com essa notícia da escalação, veio outra um pouco mais estranha: estavam perguntando se a gente toparia mudar nossa data novamente”.

A apenas uma semana do show, que já vinha sendo divulgado, o Elma se recusou a reagendar a apresentação. Segundo Bernardo, o quarteto paulistano começou a trabalhar em uma solução para o impasse que mantivesse o Elma como banda de abertura, sem prejuízo ao seu público, que chegaria à casa mais cedo. O guitarrista frisa que, além de evitar que o público da banda aguardasse todo o show do Mombojó para ver o Elma (contando ainda com os atrasos comuns em eventos do tipo no Brasil), a manutenção da programação original permitiria ao seu público voltar cedo para casa, usando o transporte público.

A preocupação do Mombojó era com a montagem do palco. Segundo Kátia Cesana, empresária dos pernambucanos, o grupo havia sofrido um “trauma” após uma apresentação no Studio SP em novembro de 2010. “Foi uma situação parecida, ficamos sabendo da banda de abertura uma hora antes de a casa abrir e foi um pesadelo – o Mombojó só subiu ao palco às 4h, meu técnico de som brigou feio com a equipe do Studio”, lembra Kátia.

Vai ou não vai?

O show do Mombojó realizado na terça foi resultado de uma negociação entre a banda e o Fora do Eixo, que compraria quatro datas do grupo em troca de uma apresentação na qual apenas os custos de produção seriam pagos, explica Felipe Altefender, produtor do Fora do Eixo, em comunicado divulgado nesta quinta-feira (26) no Facebook (clique aqui para ler). Segundo Felipe, o show do Mombojó no Studio foi marcado no dia 26 de abril, e apenas no dia 2 de maio ele soube que o grupo não aceitaria nenhum artista de abertura.

Felipe diz que contatou Kátia por telefone, explicando que essa posição significaria o cancelamento da apresentação do Mombojó. Tentando contornar a situação, Kátia teria solicitado que “fossem enviados por email a formação das outras bandas para que a equipe técnica e os integrantes do Mombojó pudessem analisá-las e se programar para dividir o palco”, conta o produtor. No dia 5 de maio, o coletivo enviou as informações solicitadas.

Falando por telefone com a Soma na quarta-feira, Kátia afirma que não aceitaria nenhuma banda abrindo para o Mombojó – “é o meu trabalho como empresária, quero defender os meus artistas” – e que chegou a levantar a possibilidade de cancelar o show do grupo pernambucano. “’Deixa os meninos do Elma tocarem’, eu disse, a gente tinha outras datas em aberto, poderia ser qualquer terça”, conta a empresária.

Segundo o comunicado do Fora do Eixo, até o dia 13 a produção do Mombojó não havia se posicionado. O pedido de Kátia, na interpretação de Felipe, sinalizava uma abertura para a realização do evento no formato original, e devido à proximidade do evento o coletivo resolveu a divulgar a apresentação das duas bandas. Dias depois, Felipe receberia finalmente a resposta de que o Mombojó não aceitaria tocar após nenhuma banda.

Mombojó primeiro

“Foi nessa hora que tomei, em nome do Fora Do Eixo, a decisão que tentei levar o mais longe possível. Não usaria de um pequeno poder de programador da noite para cancelar o show do Elma”, diz Felipe no comunicado. A solução encontrada pelo produtor foi transformar a noite em uma festa gratuita, e colocar o Mombojó para abrir os trabalhos.

Desta vez, porém, foi o Elma quem não aceitou a condição. “O ‘segundo horário’ seria após o show do Mombojó, que COMEÇARIA à meia-noite (apesar de programado para as 21h), ou seja, queriam na verdade empurrar nosso show pras duas da manhã, no mínimo. Pro pessoal já poder esperar o metrô das 4h15”, ironiza Bernardo. Felipe e Pablo Capilé defendem que, dada a gravidade da situação, garantiriam que o Mombojó tocaria às 21h, o que viabilizaria a apresentação do Elma em horário bem próximo do desejado pela banda.

Bernardo conta que ainda entrou em contato direto com os membros do grupo pernambucano, e chegou a receber uma promessa de diálogo por parte do vocalista Felipe S. Já Kátia afirma que os integrantes do Mombojó “nem estavam sabendo da situação”. “Eu havia recebido um e-mail do Maurício (Garcia, produtor do Studio SP) na sexta-feira (20) confirmando que o Mombojó se apresentaria sozinho”, afirma a empresária.

É neste ponto que a situação se complica ainda mais.  “O Fred (Finelli, da produtora Norópolis, responsável por grupos como Hurtmold, São Paulo Underground , Afasia e Elma, entre outros),  já na madrugada de segunda pra terça, recebia do Studio SP um telefonema e um email comunicando nada mais nada menos que o cancelamento do show do Elma”, conta Bernardo. “O Fred se posicionou dizendo que não aceitaríamos a situação.”

O Fora do Eixo, por sua vez, não toca em nenhum momento nesse primeiro cancelamento. Segundo Pablo Capilé, um dos coordenadores do coletivo, “a ideia sempre foi negociar, mediar o diálogo entre as bandas e chegar a um denominador comum”. Isso significava inclusive uma reunião de última hora entre os integrantes dos dois grupos, que acabou não ocorrendo porque, segundo Felipe, “a equipe do Mombojó decidiu que os músicos não iriam ao Studio SP até a hora do show”. “Nós já tínhamos abrido mão de qualquer lucro com a noite”, diz Capilé. “Chegamos a um ponto em que o mais importante era manter a programação e resolver o conflito da melhor forma possível, ainda que para nosso prejuízo.”

“A preferência é pelo público”

Sem resolução do impasse, a produção do evento decidiu pela apresentação do Elma após o Mombojó, ou pelo cancelamento do show da banda paulistana. Segundo Capilé, a decisão foi tomada em favor do público. “A partir do momento que você divulga um show de graça, a preferência é do público. Integrantes do Fora do Eixo passaram na fila recolhendo e-mails das pessoas e perguntando qual show elas queriam assistir. A maioria das pessoas havia vindo para ver o Mombojó”, explica.

“Eu entendo que o Bernardo esteja puto com a situação, eu já passei por isso”, diz Kátia. “Porém, tenho que defender o interesse dos meus artistas. Para mim parece que se tentou empurrar a situação até o último momento, tentando forçar uma solução. Mas comigo não tem isso de ‘jeitinho’. Trabalho com artistas como Otto, Nação Zumbi, e tudo é muito organizado com a gente, a produção tem que ser impecável”, afirma.

Felipe, por sua vez, lamenta. “O show do  Elma foi definitivamente cancelado, a banda carregou os equipamentos e dividiu com a nossa equipe o papel de explicar às pessoas que estavam lá para o show deles que isso não aconteceria, e é a elas que sinceramente peço desculpas. Não poderia deixar de assumir nosso erro aqui. A falha foi não cancelar um dos dois shows ainda nos primeiros dias de divulgação”.

“Pois bem, nosso show foi cancelado na nossa cara. Fazer o que? Arrumar briga? Ia resolver muita coisa”, resume Bernardo, com ironia: “a propósito: a Terra é plana”.

No final das contas, por enquanto o episódio se resume à troca de acusações e nenhuma solução concreta. Do Elma, restam as críticas à atuação da produção do Mombojó, que teria feito um jogo duro desnecessário e megalomaníaco, aos integrantes da banda, acessíveis no primeiro momento mas omissos na conclusão da questão, e ao Fora do Eixo e Studio SP, que teriam aceitado a situação sem muita resistência. O Fora do Eixo afirma que tentou negociar até o último minuto, mas esbarrou na intransigência dos dois lados da questão – especialmente do Mombojó, que além de demonstrar intransigência desde o começo teria comprometido definitivamente a situação ao mandar sinais trocados, se pronunciando com clareza apenas quando era tarde demais. Já a empresária do grupo pernambucano diz que sua posição sempre foi clara – ninguém toca antes do Mombojó no Studio SP, e ponto –, e que apenas fez o seu trabalho: proteger os interesses do seu cliente. A casa noturna, por sua vez, se resumiu a um vago comunicado distribuído na noite de quarta-feira. De concreto, existe apenas um pedido de desculpas do Fora do Eixo ao público do Elma, e o reconhecimento pelo erro em não ter cancelado uma das apresentações quando era possível. Qualquer afirmação além disso é puramente especulatória e não vem ao caso aqui.

Cena ‘madura’?
 
Mas o que pode aparentar ser apenas uma picuinha corriqueira entre produtores da noite traz à tona algumas constatações e questões importantes sobre a música independente de São Paulo e do Brasil. Algumas delas foram bem levantadas pela jornalista e produtora Kátia Abreu em seu blog (clique aqui para ler), como a precariedade técnica das casas de shows da cidade que é o centro econômico do país. É difícil saber até onde as limitações do Studio SP foram realmente decisivas na postura do Mombojó, mas essa situação é bastante conhecida de bandas e produtores, e não é exclusividade do Studio – em qualquer conversa informal com músicos da cidade não vão faltar relatos de situações estressantes e outras “roubadas” relacionadas à falta de qualidade das casas locais.
 
Outro ponto importante parece ser a necessidade de profissionalização nas relações de trabalho nesse circuito. Com o crescimento da cena e o amadurecimento dos artistas de produtores, é natural que as exigências aumentem, na mesma proporção em que diminua a margem para negociação e aceitação de soluções improvisadas. Obviamente, o que se espera de artistas e produtores que se pretendam independentes e defendam valores nobres, acima dos puramente comerciais, é alguma flexibilidade e ação conjunta para atingirem objetivos comuns e acima dos próprios interesses. Mas, como mostra a longa experiência humana em relações de trabalho, situações construídas sem muita clareza entre as partes (como parece ser o caso deste e de tantos outros contratos dentro da cena) invariavelmente acabam se convertendo em um jogo de forças selvagem, que prejudica sempre a parte mais fraca. Isso sem dúvida testemunha contra a suposta maturidade da cena paulistana. Será que já temos grupos e casas grandes o bastante para que os contratos deixem de ser telefonemas e e-mails informais e passem a ser documentos assinados?
 
Um terceiro ponto diz respeito a um hábito da noite paulistana, que pode não ser consenso por parte do público, mas se tornou corriqueiro: os únicos locais de shows que conseguem começar os shows na hora marcada são as unidades do SESC. A preocupação do Elma em tocar depois do Mombojó é plenamente justificada: por mais que se afirme que os pernambucanos começaram o show realmente cedo, é difícil contar com pontualidade quando se fala da noite independente de SP.
 
Talvez o Elma pudesse ter se arriscado a confiar na promessa de pontualidade dos produtores e feito o seu show, mas é compreensível que, após tantas indas e vindas, a banda tenha ficado irredutível com mais uma mudança de última hora. E, de qualquer forma, o relato do Bernardo que deu origem a essa polêmica de textos gigantes não deixa de ter sido fundamental. Da mesma forma, o Mombojó provavelmente não perderia por ser mais flexível e proativo no tratamento da questão. Mas a questão, em última análise, parece evidenciar deficiências sobretudo na condução do contrato entre casa, produção do evento e artistas. Em que pese a boa intenção do Fora do Eixo na solução do problema, de forma inclusiva a artistas e público até o último momento (mesmo em vista de um prejuízo financeiro), é inegável que uma atuação mais presente e decisiva nos primeiros momentos teria evitado maiores conflitos entre as partes. Tais deficiências foram assumidas pelo próprio Fora do Eixo, em uma postura louvável – o que infelizmente não se pode dizer em relação ao Studio SP.
 
Situações desse tipo, como falamos, não são exatamente raras em festivais e shows do circuito independente. O que ainda se está por ver é um passo significativo para evitar que elas continuem se repetindo. Esse passo inclui certamente a boa vontade dos envolvidos, tendo em vista a construção de um projeto que faz parte dos sonhos de adolescência de todos. O Black Flag não preicsava necessariamente gostar do Beat Happening para aceitar um convite de tocar em Olympia: bastava a vontade de construir um circuito e o cumprimento de acordos. Mas, no estágio em que se encontra o circuito independente brasileiro, esse passo ainda inclui, na mesma medida, um aprimoramento profissional geral, que passa por horários de shows mais confiáveis, aparelhamento técnico satisfatório das casas, condução madura de processos e mais clareza contratual - entre outros elementos que pessoas mais envolvidas do que nós no dia-a-dia da correria têm muito mais propriedade para listar. Esse passo, com certeza, não será dado sem alguma polêmica.

Por Amauri Stamboroski Jr. e Mateus Potumati


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