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Mon: 05-23-11

Metal, sangue e nanquim: Vberkvlt, o obscuro


Por Thiago Vakka . Fotos acervo do artista

Justin Bartlett, ou Vberkvlt, é um artista com traço particular e facilmente reconhecível. Além de ter produzido ilustrações para bandas como Sunn O))), Boris, Moss e Trap Them, entre toneladas de outras, tem no portfólio coisas como o rótulo de um vinho e um comercial para a marca de roupas Anti Sweden. E exposições, inúmeras delas. Na entrevista a seguir, Bartlett fala sobre assuntos diversos como seu processo criativo, briefings comerciais, materiais que usa, o dilema arte digital x arte manual, sua relação com o guitarrista Stephen O´Malley e outros designers que admira. Tudo com um puta bom humor. Ah, sim: ele também fala sobre metal. Pra caralho.

Qual foi seu primeiro trampo pra uma banda? Como aconteceu?

O primeiro trabalho de verdade foram a capa/layout dum disco do Cadaver Inc., chamado "Discipline", de 2001, saiu pela Earache e tal. Antes disso, tinha feito alguns outros trampos pra eles, mas esse foi o primeiro álbum completo que fiz para um selo e que me rendeu pagamento. Dei um jeito de entrar em contato com o Anders Odden, meio que o chefão do Cadaver, lá pelos idos de 98, quando soube que a banda estava voltando. A primeira vez que ouvi o Cadaver foi naquela compilação "Grindcrusher" e depois em "Hallucinating Anxient" e "In Pains", muitos anos antes, e eles me impressionaram pra cacete, por serem diferentes da maioria de seus contemporâneos. De qualquer forma, Anders tocava no Apoptygma Berzerk e no Magenta e sentiu uma necessidade de tocar metal de novo. Aí, junto com o Lasse [Johansen], do Disgusting, mais o Agressor e o Apollyon, do Aura Noir, ressucitaram o Cadaver como Cadaver Inc. e lançaram uma puta demo dum death metal ultra-rápido/voivodiano/grindeiro chamada "Primal". Fiz toda a arte dela e do morbidamente bem-humorado cadaverinc.com, que era um site de mentira promovendo um serviço de limpeza de cenas de crime e remoção de cadáveres. A polícia norueguesa conduziu uma investigação sobre isso e caiu até no MTV2 News! Como você pode imaginar, fiquei do lado dos caras e fiz a arte do debut deles, "Discipline", bem como uma porrada de camisas, coisas pra web e também o outro disco, "Necrosis", que é um negócio do além!

Em uma outra entrevista sua que li, você afirmava que não desenhava fazia tempo, que costumava criar aleatoriamente, apesar de seu trabalho ser muito detalhado. Algum dia você imaginou que poderia vender essas artes?

Eu desenhava demais quando era moleque e também fiz parte dos “artistas” responsáveis pelo anuário do 2º grau por uns dois anos. Larguei tudo no último ano, porque os caras eram uns cretinos arrogantes. Além disso, também estudei na classe mais avançada de artes da minha escola (que era uma piada). Nunca levei muito a sério o que fazia. Uns anos depois, mudei da faculdade de biologia pra design gráfico e senti aquela vontade de desenhar de novo. Construir ilustrações digitais através de outros materiais ou fazer colagens meio que deixava a desejar, em termos de criatividade. Acabei fazendo um curso de desenho, que era requerimento para me formar. Após retomar o contato com artes, foi natural voltar a desenhar. Houve um lapso de tempo enorme, coisa de uns 13 anos, entre desenhar nos tempos de escola e o que faço atualmente, o que já dura uns cinco ou seis anos. Nunca desenvolvi um estilo ou aprimorei minhas habilidades, tudo simplesmente fluiu assim. Também não levei em consideração a parte de “negócios” do meu trabalho ou sequer pensava em vendê-lo até recentemente, o que é bacana. Meio que vivo das minhas ilustrações e ainda faturo um extra vendendo os originais.


“Após a ingestão de uma mistura de sangue podre de porco e veneno fermentado de cobra, medito sob um eclipse de lua cheia. As imagens surgem do vácuo negro da minha mente. Transmutando-se através de barreiras físicas de carne, o sangue negro putrescente de bodes pretos emana das pontas de minhas canetas, feitas de bicos de corvos e passadas a papel colhido de pinheiros transilvanos de 666 anos de idade. Não há forma de expressar a duração de meus projetos através de convenções humanas como espaço e tempo.”







Você recebe algum briefing ou tem liberdade total pra criar?

Em pouquíssimas vezes houve um briefing criativo, digamos, oficial. Um deles foi pra marca de jeans Anti Sweden, outro foi para o rótulo dos vinhos Wongraven (sim, do vocalista do Satyricon). Ainda assim, era tudo bem livre. Quando se é um ilustrador relativamente conhecido, os clientes vêm até você por conta do seu estilo e já têm uma ideia pré-estabelecida do que você fará – ao menos em termos de técnica. Eu diria que planejo o direcionamento visual na maioria dos trampos que faço. Tudo baseado nas letras de música, no nome do disco ou na temática envolvida, mas são minhas interpretações da ideia de terceiros. Como vou fazer é domínio exclusivo meu. Alguém me pede pra desenhar um bode, mas não aceito instruções específicas a menos que estejam me pagando e tratando tudo num nível estritamente profissional, o que dificilmente acontece quando você lida com o mundo da música.

Você poderia nos falar um pouco do seu processo de trabalho? Normalmente, quanto tempo se passa entre seu primeiro contato com o cliente e a entrega da arte?

Após a ingestão de uma saudável mistura de sangue podre de porco e veneno fermentado de cobra, medito sob um eclipse de lua cheia. As imagens surgem do vácuo negro do centro de minha mente. Transmutando-se através de barreiras físicas de carne, o sangue negro putrescente de bodes pretos emana das pontas de minhas canetas, feitas de bicos de corvos e passadas a papel colhido de pinheiros transilvanos de 666 anos de idade. Não há forma de expressar a duração de meus projetos através de convenções humanas como espaço e tempo.

Vi alguns rascunhos no seu blog e deu pra sacar que você usa bastante nanquim. Poderia falar um pouco mais do seu “arsenal”?

Nanquim? Nunca ouvi falar de tal coisa. Em conjunto com os bicos de corvo, tinta de sangue de bode e papel ancião, costumo usar lápis com pontas de chumbo minadas das mais profundas e obscuras tumbas abaixo do Gólgota.

Boa parte do seu trabalho tem alguma relação com Stephen O’Malley (Sunn O))), Burning Witch) e vice-versa. E todos sabemos que o rapaz, além de músico, também é um artista com várias grandes criações em seu portifólio. Como foi trabalhar com ele? Ficou preocupado em receber alguma crítica negativa?

Conheço o Stephen há uns doze anos e somos amigos – não melhores-amigos-desde-a-infância, mas saímos juntos quando nossos caminhos se cruzam. Nos falamos muito pela internet, trocando alguns dos trabalhos em progresso e mp3, coisa e tal. Quando voltei a desenhar, mandei pra ele uns desenhos que tinha feito e ele me pediu pra fazer a capa do EP "La Mort Noir", do Sunn O))). Nada mal para um primeiro projeto. Já conhecia o Stephen fazia algum tempo, então não foi nada de outro mundo, como se um deus do design/drone me resgatasse das profundezas da internet. Muita da suposta “aura” ao redor de várias bandas e músicos foi desmistificada comigo. Então nem me preocupei com qualquer forma de crítica negativa que poderia receber dele. O rapaz conhecia o meu trabalho, e eu quase sempre faço tudo certinho. Somente uma vez desenhei algo que nós dois decidimos não usar. Sempre faço um rascunho preliminar das minhas ideias e passo pros clientes.

Ainda sobre sua parceria com o SOMA (nome artístico de O’Malley), muito do que você faz se relaciona com doom/drone. São gêneros que você escuta? O que você acha de ligarem seu trampo a isso?

Sim, há uma parte do meu trabalho que tem a ver com drone, como Sunn O))) e outros como Gravetemple, Pentemple, Locrian e Detritivore (devo estar esquecendo de alguma coisa, então me perdoe se você ler isso), mas também trabalhei com vários outros gêneros. Mas parece mesmo que meu trabalho se fixa em drone e também “hardcore metálico” (seja lá o que isso for!). Curiosamente, não escuto nenhum dois com frequência. Através dos anos, explorei (creio) quase tudo que é forma de música underground que você possa imaginar: eletrônico, noise, punk. Em termos de metal extremo, tudo começou com death metal. Aparentemente, retornei às minhas raízes musicais. Apesar de curtir muito black metal, algo de drone, hardcore, punk e noise, eu AMO death metal.

Não essas bandas mega punheteiras lixo moshcore ou death metal ultrabrutal. Falo dos sons da velha guarda, death sueco (mais pra Estocolmo e não Gotemburgo!), death/black bárbaro feito por homens das cavernas, qualquer coisa que soe como ou faça referência a Incantation, Autopsy, Carcass, Morbid Angel, Cadaver, Bolt Thrower, Repulsion, VON, Entombed... E também Discharge, Motörhead, Sodom, Voivod, Mercyful Fate e Slayer.

Do outro lado do espectro musical, pós-punk e eletrônico como The Cure, Joy Division, Depeche Mode, Death In June, Swans... São esses os dois “reinos” de música que mais aprecio.

Sobre relacionarem minha arte ao drone? Não me incomoda, é melhor do que ser associado ao nu-metal ou emo ou brutal death metal super retardado com partes mosh louconas e vocais de porquinho e breakdowns. Acho que, como o estilo e mesmo a fluidez da música é meio vaporosa e difícil de definir, combina com minhas criações. Pelo jeito, meu trabalho transcende vários gêneros, enquanto os artistas que conheço trabalham apenas em um tipo de música (o que é ok, aliás). Tenho um projeto bem old-school vindo por aí, na veia do metal que escuto... Tô bem empolgado com isso.


“Sinceramente, a questão é artistas bons x artistas ruins. Computadores e pincéis são apenas ferramentas – se você é ruim, cria merda independentemente do que está usando. Tem uma tonelada de discos que usa artwork tradicional e fica um lixo horrendo (cópias de Mark Riddick, por exemplo) e por outro lado existem discos com maior uso de software que são foda (Seldon Hunt, Travis Smith, Stephen O’Malley, Kevin Yuen, Broken Press).”


Hoje em dia, boa parte do processo relacionado à produção do artwork de bandas é feito digitalmente. Você gosta de trabalhar dessa forma? Em algum momento o processo digital te atrapalha ou incomoda?

Há arte digital boa e arte digital ruim. Todo artwork atual é digitalizado em algum grau. Sim, sei que algumas bandas continuam fazendo tudo 100% analógico e kvlt, com xerox, colagens em fitas k-7, mas creio que seja uma porcentagem muito, muito pequena. Até coisas old-school são, em algum momento, escaneadas e manipuladas através de software e transformadas em PDF. Trabalho digital bom tem sua origem em formato analógico. Fotos escaneadas, pinturas, desenhos, texturas alteradas e fodidas no Photoshop – ainda assim com origem no mundo real. Arte digital ruim é normalmente criada em algum renderizador 3D com muito brilho, efeitos cromados e fogo (risos).

Sinceramente, a questão é artistas bons x artistas ruins. Computadores e pincéis são apenas ferramentas – se você é ruim, cria merda independentemente do que está usando. Tem uma tonelada de discos que usa artwork tradicional e fica um lixo horrendo (cópias de Mark Riddick, por exemplo) e por outro lado existem discos com maior uso de software que são foda (Seldon Hunt, Travis Smith, Stephen O’Malley, Kevin Yuen, Broken Press). Ainda assim, se encontram porcarias como umas capas do Monstrosity e do OV HELL, ugh!

E sobre o vinho lá do Satyr, como foi o processo criativo? Vocês já se conheciam? Você provou o vinho?

Não sei ao certo quanto tempo e esforço foram necessários antes do meu envolvimento com esse lance do vinho. Só fui chamado para desenhar o rótulo, quase no final. Martin Kvamme, o designer norueguês responsável pelos logos, texto e embalagem teve meio que um bloqueio na hora de fazer a ilustração. Aí ele mostrou uma lista com vários ilustradores pro Sigurd (Wongraven, nome de batismo de Satyr) e acabei sendo escolhido pra desenhar o bestial mascote. Foi tudo bem direto, o Sigurd queria um sátiro, basicamente, não muito malvado ou metal, mas algo entre fantástico e assustador. Claro que há alguma referência a Labirinto do Fauno, mas não creio que seja tão derivativo assim. Se você prestar atenção, pode ver o S do Satyricon ali, num pingente de colar, por trás dos braços e cabelo... Foi ideia minha! E não, não provei o vinho.

Há alguma banda que você acredita casar com sua arte e com a qual você gostaria de trabalhar, mas ainda não teve a oportunidade?

Voivod ou Rudimentary Peni? (risos) Não pensei muito nisso, mas sempre tive esse projeto, que planejo há anos e ainda vai demorar pra cacete pra acontecer mesmo, então não vejo por que diabos não falar sobre ele agora... Recentemente, o Darkthrone lançou um concurso para que os fãs refizessem a arte do relançamento de "Goatlord" (demo de 1991 lançada em 1997). É um dos meus discos favoritos e já penso há um tempo em criar um desenho pra cada faixa do disco e lançar como uma espécie de tributo. O que caga tudo é que mal tenho tempo pro meu trabalho de fato e ainda nem consegui mandar nenhum desenho pro concurso, entende? Bem, talvez daqui um ano eu consiga terminar minha pequena homenagem a "Goatlord".

Há algum trabalho seu que você considera um favorito e outro que não curta tanto?

Não fico ruminando sobre o que eu gosto mais ou não. Na real, eu penso nas coisas que mais gosto e tento desenvolver essas ideias. Digamos que, quando você trabalha como designer ou ilustrador em período integral (no meu caso, não é um extra ou coisa do tipo), tem que aceitar projetos com os quais não vai se empolgar muito. Sabe como é, contas, aluguel e comida te fazem trabalhar só pelo dinheiro mesmo. Tento dar meu melhor, ainda assim.


“Não tenho frescura em admitir que baixaria um CD ou daria um jeito de ouvi-lo online antes de decidir comprar. Tem muita música por aí hoje em dia, e o acesso é cada vez mais fácil. Cá entre nós, 80% do que é lançado é uma bosta ou completamente redundante. Até metal! Existem bandas demais. Prefiro música country/pop a metal ruim, sério!”


Posso dizer que sou leitor assíduo do seu blog, e você parece ter muitos vinis, alguns inclusive à venda no eBay. Você se considera um colecionador? Há algum disco que você não passaria pra frente de forma alguma?

Acho que sou um colecionador, sim, talvez não tão ávido quanto antes. Não tenho frescura em admitir que baixaria um CD ou daria um jeito de ouvi-lo online antes de decidir comprar.

Tem muita música por aí hoje em dia, e o acesso é cada vez mais fácil. Cá entre nós, 80% do que é lançado é uma bosta ou completamente redundante. Até metal! Existem bandas demais. Prefiro música country/pop a metal ruim, sério! Caralho, a maioria dos filmes, programas de TV, artes e até pessoas são lixo.

Durante os anos, juntei uma quantidade razoável de discos, EPs e CDs e acabei chegando à conclusão de que o que importa é qualidade e não quantidade. Quero uma vida mais simples e com menos cacarecos, então algumas coisas tiveram que ir. Tem um monte desses mesmos cacarecos que eu não vendo de forma alguma, a não ser que seja um caso de vida ou morte. Vendi meu boxset do Burzum há uns seis anos pra poder pagar o aluguel, depois de ter voltado a estudar e estar desempregado por uns meses. Não que eu fique chorando toda noite porque não posso ouvir o "Filosofem" em vinil, mas seria bom ainda tê-lo na minha coleção. E por falar nisso, vendi meu "Black Earth" do Bohren und der Club of Gore e uns Assück e Autopsy que preciso readquirir! (risos)

Uma curiosidade, ainda sobre o seu blog: um tempo atrás, o seu gato Dio participou de uma espécie de concurso, e, como também tenho gatos, votei nele (risos). Como terminou a votação?

(Risos) Não sei, nunca recebi nenhum e-mail ou aviso sobre qualquer coisa, mas pra mim ele sempre será um campeão. (risos)

Justin, agradeço pelo seu tempo, agora o espaço o final é seu pra dizer o que bem entender pra quem estiver lendo esta entrevista.

Bem, valeu por me entrevistar… Só queria mandar aquele alô pra Jesus Cristo, porque sem ele nada disso seria possível!

Saiba Mais:
vberkvlt.com