Nesta sexta (6) o Mattson 2, duo dos gêmeos californianos Jared e Jonathan Mattson, toca aqui no Espaço Soma. Com três álbuns na carreira – incluindo um em colaboração com Ray Barbee – e uma lista de colaboradores que inclui Tommy Guerrero, John McEntire (Tortoise, The Sea and The Cake) e Money Mark, a dupla apresentou seu elegante som instrumental no Brasil pela primeira vez em janeiro de 2009. A Soma aproveitou para conversar com o baterista Jonathan por e-mail, falando sobre surf music, literatura japonesa, skate na Califórnia e música brasileira. Confira o papo abaixo.
Muitos músicos dizem que ter uma banda é como estar casado. Como é lidar com o fato de estar em um duo com o seu irmão? Vocês não querem matar um ao outro em algum momento?
(Risos) Sim, há momentos em que a tensão é grande. Eu acho que em qualquer banda, quanto mais você trabalha junto com seus colegas, mais as diferenças e rusgas aparecem. Mas, quando a banda é composta por irmãos, essas diferenças ficam ainda mais evidentes. Você precisa encontrar um equilíbrio - às vezes nós temos que parar de compor ou tocar juntos por uns dias para esfriar os ânimos e poder retomar depois.
Eu estava olhando o seu MySpace e percebi que vocês listam algumas referências literárias. Como vocês traduzem elas para a música instrumental?
Eu gosto muito do escritor japonês Haruki Murakami. Ele escreve livros maravilhosos, que envolvem pessoas cujas atividades cotidianas são tocadas por momentos de fantasia: sapos, ovelhas, sombras falantes. Murakami também constrói personagens que ouvem muita música, e escreve sobre discos de música clássica, jazz e rock que o influenciaram. Eu acho que seus livros não influenciam diretamente a nossa música, mas a estética nostálgica deles sim.
"[O público brasileiro] é provavelmente um dos mais loucos para o qual já tocamos. Foi a única vez que fizemos um show em que as pessoas literalmente começaram a pogar!"
A surf music sempre pareceu um universo fechado, com códigos e estilos próprios. O Mattson 2 parece pegar isso e utilizar de maneira completamente diferente. Vocês escolheram retrabalhar esses aspectos da surf music ou estão fazendo a sua própria música, sem se preocupar com gêneros?
É engraçado você falar isso. Costumamos ouvir bastante esse tipo de coisa: “a música de vocês parece surf music”. Mas nunca foi a nossa intenção criar um híbrido da surf music, nós nem ouvimos o gênero – acho que o mais perto que chegamos é ouvir os Beach Boys e os High Llamas. Muitos fãs devem achar que somos altamente influenciados pela surf music, por causa do uso que fazemos da melodia. Como nossas músicas não têm vocais, tentamos compor melodias como se fossem melodias vocais. Boa parte da surf music também era instrumental, e muitos artistas tentavam fazer a mesma coisa: escrever uma melodia lírica com um instrumento, em vez de usar a voz. Acho que essas ambiguidades surgiram pelo tipo de música que resolvemos tocar. No fim nós só tentamos compor músicas que soem bem para nossos ouvidos, e o resultado é percebido de maneiras diferentes pelas pessoas.
Vocês cresceram na Califórnia, uma região onde esportes como skate e surfe são bastante difundidos. Vocês já praticaram / praticam algum esporte?
Sim, tanto eu quanto o Jared começamos a andar de skate quando estávamos no ginásio. Nós andamos de skate durante a maior parte da nossa adolescência e eu ainda ando um pouco hoje em dia. Acho que isso tem a ver com a influência do nosso irmão Micah Mattson, que foi membro do Zero Team por um tempo. Nós começamos a surfar depois de terminarmos o ensino médio. Se você mora na costa da Califórnia, é quase forçado a surfar, como se isso fosse um tipo de habilidade social.
Vocês têm um visual especial para seus shows, com ternos feitos sob medida e tudo. Qual é a diferença entre os Mattson no palco e fora dele?
Minha namorada diz que eu não sorrio muito quando estou tocando. Eu acho que tem a ver com a minha concentração em tocar. Eu levo nossa música muito a sério.
"Eu amo MUITO a música brasileira! Lô Borges é um dos meus músicos favoritos, ao lado de Beto Guedes, Arthur Verocai e Milton"
Existe um fã-clube bem grande do duo no Japão. Como é ter tantos fãs em um país estrangeiro? Você já se perguntou por que gostam tanto de vocês lá?
É uma honra ser aceito de forma tão carinhosa no Japão, mas eu não faço a mínima ideia sobre por que eles gostam tanto da gente. Adoramos tocar lá porque a plateia ouve os shows com muita atenção. Mas cada país é diferente. Eu adorei o público brasileiro – tocamos aí em janeiro de 2009 –, vocês são provavelmente um dos públicos mais loucos para os quais já tocamos. Foi a única vez que fizemos um show em que as pessoas literalmente começaram a pogar!
Eu vi um Milton Nascimento na sua lista de influências, e algumas músicas suas têm um aspecto elegante, que lembra bossa nova. Qual é a relação de vocês com a música brasileira?
Eu amo MUITO a música brasileira! Lô Borges é um dos meus músicos favoritos, ao lado de Beto Guedes, Arthur Verocai e Milton. Eu também adoro as bandas do pós-punk paulistano, como As Mercenárias, Akira S & As Garotas Que Erraram e Fellini.
Mattson 2 no Espaço Soma
Quando: Sexta-feira (6), a partir das 21h
Onde: Espaço Soma – Rua Fidalga, 98
Quanto: R$ 25,00
Informações: info@maissoma.com / 11 3034.0515