É estranho ouvir falar de gêneros como bedroom pop em 2011, uma época em que música gravada em casa é algo totalmente comum. Ainda assim, a aura lo-fi de projetos como o ótimo Shuriken – dupla paulistana de eletrônica caseira – trocam a ilusão experimental por uma estranha familiaridade, como se fosse o tipo de som que o seu irmão mais novo faria se tivesse algum talento e perdesse menos tempo jogando Age of Empires em rede com os amigos. Se o novo grupo herda a abrasividade do Península Fernandes (projeto de Daniel Monteiro, uma das metades do Shuriken), ganha melodia com a guitarra processada e a voz de Stan Molina, d’Os Telepatas. Leisure Memories, EP de estreia da dupla, soa ao mesmo tempo como trilha de videogame pós-apocalíptico (em “Narshe Under Siege”) e como pop fantasmagórico (em “O Futuro É Só Certeza”). Algumas estratégias usadas no Península Fernandes se repetem, como é o caso da incorporação em “Sagres” do discurso do almirante português Fernando de Melo Gomes feito no Dia da Marinha de 2010, em defesa da aquisição de novos submarinos por parte das forças armadas lusitanas. Melhor ainda do que o disco é o single virtual “Não É De Se Espantar”, uma canção que flutua da melodia doce e etérea aos tiques hipnagógicos de um despertador que toca dentro de um sonho.
POR AMAURI STAMBOROSKI JR.