(Wntrevista publicado na +Soma 22/Fev-Mar 2011. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Guga Ferraz . Cidadão do Rio
Por Beatriz Lemos . Fotos por Fotonauta
A viagem começa na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Guga, ainda nos anos 1980, descobre o skate, se torna um dos precursores do street carioca e faz da rua sua casa. Para os praticantes do esporte, o espaço público é algo íntimo. A convivência direta com a cidade faz o skatista querer ser arquiteto: é a oportunidade de poder construir prédios curvilíneos com rampas nas laterais e pistas longas.
Do curso de Arquitetura, Guga vai para a Escola de Belas Artes da UFRJ, transformando-se em um dos protagonistas de uma geração de artistas instigados pelos códigos e pelo visual do Rio de Janeiro. Participa do coletivo Atrocidades Maravilhosas e realiza, com outros artistas, os eventos Zona Franca e Alfândega, ocorridos no início dos anos 2000 e fundamentais para o entendimento da dinâmica coletiva de trabalho de parte da cena carioca.
De lá para cá, Guga Ferraz vem produzindo uma obra essencialmente pensada para o espaço público. Denúncias visuais anônimas e ao mesmo tempo autorais, pertencentes a uma memória urbana comum a qualquer cidade. E abarrotadas de duras sinceridades.
Sua formação vem primeiro do skate, depois passa pela Arquitetura e chega à Escola de Belas Artes. Essas influências são muito perceptíveis em suas obras. Como você define essa intimidade com os códigos e cotidiano da rua, os protagonistas e coadjuvantes da cidade?
Acho que tem a ver com o jeito como eu andava de skate, com a minha infância na Tijuca. Tem a ver com o fato de tomar a rua um lugar seu. No skate você se apropria do espaço urbano. O skatista vê a calçada ou um corrimão de forma diferente, de uma forma que um pedestre normal não vê. Tudo está relacionado com o skate e com a minha vida mesmo, não tem como dissociar uma coisa da outra. Se falo de violência é porque estou envolvido com ela. Se coloco uma coisa na rua é porque a rua é realmente um lugar em que eu me sinto à vontade.
“Eu tento chamar a atenção para uma coisa que não deve ser natural. Não é natural uma pessoa dormir na rua! Algumas pessoas só vão perceber isso quando virem um beliche de oito andares, no meio da rua, com pessoas dormindo ali.”
O sarcasmo está muito presente em seu trabalho e isso já incomodou muita gente, porque você lida bem com os códigos visuais. Você é da opinião de que as pessoas só atentam para um determinado fato ou assunto quando são surpreendidas ou incomodadas por eles?
Acho interessante a questão de ser surpreendido pelo trabalho, que passa a fazer parte do cotidiano daquela pessoa. Por isso penso bem na mensagen, para que pareça o mais institucional possível. Em No Caso de Assalto, tentei fazer um texto simples, usando os mesmos códigos usados pelas empresas de ônibus. Tanto que tem gente que vê o meu trabalho e acha que já viu em algum outro lugar. Mas não, viu a imagem do adesivo em um ônibus – a mensagem padrão, sem a arma. Não tem outro jeito de falar isso, entende? E reações das empresas são naturais: a Fetranspor (federação de empresas de transportes coletivos do Rio de Janeiro) colocou uma nota no jornal dizendo que isso não ajudava em nada a debelar o problema da violência e ainda aumentava a insegurança dos passageiros e de quem está ali trabalhando. Mas o presidente da Fetranspor não anda de ônibus! Nos ônibus em que experimentei colocar esse trabalho e conversar com os motoristas, com os trocadores e com os passageiros, eles falam o mesmo: “Isso tem que ser assim, está certo. Que campanha legal você está fazendo!” Porque uma troca de tiro dentro de um ônibus é um absurdo! Quando você fala de interferir no cotidiano das pessoas, é isso aí. É o cara que está indo pegar o ônibus e vê ali a imagem do ônibus incendiado, e para pra pensar.
Mas também acontece de reagirem contra o trabalho?
Também acontece. No caso do Dormindo, as pessoas se importam mais com o que aquilo significa do que com o cara dormindo na rua. Alguém vai lá e arranca o cartaz, que é apenas a imagem daquilo, mas não tira o cara que está dormindo na rua. Venho colando a imagem de um índio armado em pontos de ônibus. Quero ver alguém queimar um índio armado, entendeu? Mas em Belém essa série Galdino já tem outra história. Comecei lá o trabalho, e no primeiro dia já tinham arrancado a cara de alguns deles. Só a cara. Como se tivessem raiva daquela identidade indígena da região.
E as pessoas ainda acham que você faz apologia à violência...
Isso aconteceu com o trabalho do Ônibus Incendiado. O chefe de polícia civil da época insinuou que eu poderia ter envolvimento com o crime. Hoje, o endereço desse chefe de polícia é o Complexo Penitenciário de Bangu! O Ônibus Incendiado nada mais é do que uma crônica. É uma imagem forte porque significa algo que está acontecendo na realidade. Não tem como se distanciar disso. Pegou fogo em um ônibus da linha 410, em 2003, e morreu uma senhora de sessenta e poucos anos. Foi em Botafogo, em um ônibus que eu sempre pego. Poderia ser minha mãe indo visitar minha irmã! O mesmo se dá no caso da Cidade Dormitório: uma vez um crítico citou o trabalho como a participação da arte dentro do que se entende como o problema da cidade. Eu tento chamar a atenção para uma coisa que não deve ser natural. Não é natural uma pessoa dormir na rua! Algumas pessoas só vão perceber isso quando virem um beliche de oito andares, no meio da rua, com pessoas dormindo ali.
“Fiz o desenho da antiga Praia de Santa Luzia, aos pés da igreja que leva o mesmo nome, com uma tonelada de sal grosso. Era como se o mar tivesse acabado de recuar, deixando sua marca de sal no asfalto. Gosto sempre de pensar na idade das cidades por onde passo. Nas camadas de arquitetura e tempo.”
Suas ações são frequentemente divulgadas pela imprensa carioca. Essa repercussão na mídia é tão potente para o trabalho que se torna parte dele, ou você encara apenas como uma estratégia para a mensagem circular?
Para mim a coisa acontece no lance de reverberar a imagem. Em uma tiragem do jornal Extra, por exemplo, a imagem sai milhões de vezes. Quando um jornal como esse – que é muito popular – fala sobre a Cidade Dormitório, que é um trabalho de arte contemporânea, com meia página debatendo sobre a obra, é interessante perceber como se pode atingir um número de pessoas que não estariam envolvidas naquela questão e o que a abordagem de certos assuntos pode vir a reverberar.
É bem verdade que a polêmica surge por tocar em assuntos delicados para a sociedade, como a violência. Contudo, seu trabalho também aborda outras questões sobre cidades. Mais poéticas, poderíamos dizer? Até Onde o Mar Vinha, Até Onde o Rio Ia foi uma grande ação que se desdobrou em fotografias e vídeo. Como foi realizar esse trabalho?
Esse é um projeto em que eu já venho trabalhando há alguns anos, com pesquisa de fotos e mapas antigos. A primeira vez que ele foi realizado foi numa interferência sonora no Morro da Conceição, na extinta enseada, onde fica a Pedra do Sal. Foram instaladas caixas de som trazendo de volta àquela região o ruído do mar, que foi afastado por obras de remodelação urbanística no centro da cidade. Depois, numa segunda fase do projeto, fiz o desenho da antiga Praia de Santa Luzia, aos pés da igreja que leva o mesmo nome, com uma tonelada de sal grosso. Era como se o mar tivesse acabado de recuar, deixando sua marca de sal no asfalto. Gosto sempre de pensar na idade das cidades por onde passo. Nas camadas de arquitetura e tempo. E esse projeto fala sobre isso. Porém, fala também sobre a manipulação do homem sobre a natureza dos lugares, sobre os desdobramentos. Eu documento praticamente todas as minhas ações em fotos e vídeos. Em alguns casos, o registro se torna também uma obra.
E agora, a realização da Pipa Avuada, no Arpoador. Verãozão carioca e 500 pipas coloridas no ar! É um trabalho que traz beleza (e leveza), e que depende da interação de muitas pessoas para que aconteça. Coisas novas para você?
Essa ação eu já realizei algumas vezes em lugares como as barcas de Niterói, o Rio da Prata, em Buenos Aires, e o morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, mas nunca com essa quantidade de pipas e pessoas envolvidas. É um trabalho que depende das condições climáticas e da participação do público, que são as pessoas que estão na praia. Sempre achei lindo o movimento da pipa sendo levada pelo vento, quando a linha é cortada, e o valor de uma pipa avuada para as crianças que brincam nas ruas, e se arriscam para conseguir esse troféu de papel e bambu. São coisas simples, mas que, se vistas com carinho, rendem imagens preciosas!
Saiba mais:
gugaferraz.blogspot.com