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Tue: 04-26-11
Criolo . Nó na Orelha . Independente . 2011
Cantora da nova MPB falando sobre sua geração: “O legal é que agora todo mundo tá se amando”. Corte para álbum de um rapper, se valendo de diversos gêneros, com sanha e tino de auteur raro, mandando uma pedrada soul à la Cassiano cujo refrão é “Não existe amor em SP”. Esse cara é o Criolo (ex-Doido), mestre do rap paulistano, chutando bundas acomodadas em seu álbum Nó Na Orelha, com produção de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral. Trata-se de uma obra com gosto e vocação para falar de seu tempo, exercendo o que seria caro ao formato canção (o mesmo que perdera razão de ser com o advento do rap, segundo Chico Buarque), exatamente o que a tal da nova MPB da primeira frase mais evita. Criolo se expõe, conversa ao pé do ouvido, denuncia, chora, tudo ao mesmo tempo, vertiginoso.
O álbum é prenhe de palavra, de força de interpretação, mas acolhe escorregadelas como o excesso de maneirismo que começa na primeira faixa, o afrobeat “Bogotá” e finaliza com o sambão “Linha de Frente”. Paradoxalmente, é em bolero tomado de referências bregas, radiofônicas, que Criolo brilha, assim como nas faixas por ora já paradigmáticas, como “Grajauex”, “Subirusdoitiozin” e “Não Existe Amor em SP”, todas previamente divulgadas. Afora sua voz forte, dicção cortante, carregada de interpretação a cada fonema, Criolo traz, ao domínio da música popular, a sintaxe, objetividade e virulência do mais curtido rap nacional – aquele que, se excluindo a atmosfera FM eleita por Criolo, foi amplamente ignorado/execrado pela audiência classe média que deve lotar seus shows.
Assim como Brown colocou o gangsta na casa dos bacanas através das ondas do rádio, Criolo coloca parte constituinte do imaginário rap brasileiro em condições de brigar com a MPB mais deslumbrada Brasil afora. Parece que a primeira frase dita pelo cantor no álbum baliza a negociação que ele inflige à audiência: “fique atento, irmão, quando te oferecem o caminho mais curto”. A epifania vem, mais em uma latente educação pela pedra – e poucos discos, sendo assim, representam tão fielmente nosso tempo, seja pelo vigor de sentimento, pela falta de desfaçatez (em “Sucrilhos”: “cantar rap nunca foi pra homem fraco / saber a hora pra parar é coisa de homem sábio”), pela fragmentação à moda de uma mixtape. A mais pura Força Bruta.
Por Velot Wamba
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