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Mon: 04-11-11

Patti Smith . Só Garotos . Cia das Letras . 2010


“Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois.” A foto em questão é o retrato de Patti Smith para uma das capas mais lindas da história do rock, a do disco "Horses". A imagem foi clicada pelo artista e fotógrafo Robert Mapplethorpe – primeiro amor e grande amigo de Patti. Para ele, antes de morrer, ela prometeu contar a história dos dois. Uma história de amor fraterno e intenso, sem a visão maniqueísta e dualística desse sentimento comumente dividido entre certo ou errado, bom ou ruim. Assim, Patti conseguiu ficar anos luz de clichês e pieguices recorrentes em muitos romances autobiográficos, mesmo detalhando todo o seu relacionamento até a morte de Mapplethorpe, em 1989. O diferencial também fica por conta da narrativa leve e pela ambientação minuciosa da Nova York dos anos 60 e 70. Ao usar sua veia poética para contar suas histórias com Andy Warhol e sua Factory, o tempo em que morou no Hotel Chelsea, a amizade com William Borroughs e Janis Joplin, shows memoráveis e aspectos políticos e culturais das duas décadas, ela mostra os dotes literários cultivados desde a adolescência, época em que não almejava ser uma estrela do rock, mas sim escritora. As referências de autores da geração beatnik como Jack Kerouac e Allen Gingersberg e clássicos como William Blake, Baudelaire e Nietzsche a ajudaram a construir uma relação íntima com a escrita. Poucos livros me fizeram chorar por sentir a emoção do escritor e a franqueza daquelas linhas. Patti conseguiu, ao imortalizar por meio de letras o que Robert já havia imortalizado através de suas fotos: o amor incondicional.

Por Marina Mantovanini