Para John Cage, aprender a ouvir é um dos pilares da criação musical. Em uma entrevista, Cage explica que, ao longo de seu aprendizado, o músico embute um silêncio falso, esforço mental para ignorar todos os sons ao seu redor. O silêncio total seria um engano, e a performance musical deve absorver o que para muitos é ruído ou imperceptível. Um bom exemplo disso é este disco de Rob Mazurek. Sem dúvida nenhuma, é o trabalho mais livre do compositor e trompetista de Chicago.
Não se trata de um disco de música improvisada, pelo contrário: é bastante rigoroso em termos de composição, e as nove peças registradas ao longo do CD têm coerência narrativa. Os compassos iniciais de “Mula sem Cabeça”, com pratos, sinos e pandeiros se misturando às melodias de poucas notas do trompete de Mazurek e da rabeca de Thomas Roher dão uma ideia precisa dessa criação que se apropria do som do ambiente sem se desapegar da composição. Na mesma linha estão a belíssima "The Passion of Yang Kwei-Fe", na qual a presença do aparentemente aleatório se combina com uma melodia lindíssima da flauta de Nicole Mitchell.
Esse apego às melodias parece outra característica marcante do trabalho de Mazurek. Mesmo em “Car Chase” e “Three Reasons Not to Blow Up the World”, elas são regra. “Purple Sunrise” faz aproximação curiosa do baião e do maxixe, que de maneira involuntária soa como os trabalhos do guitarrista Fred Frith – não por acaso, outro admirador da música brasileira. Mazurek trabalha em uma chave de liberdade e abertura, dele mesmo e de quem o escuta. Nada pode ser mais importante.
Por Lauro Mesquita