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Wed: 03-30-11

Entrevista: Vincent Moon

Vincent Moon . Um nômade do olhar

 

 

 

Por Amauri Stamboroski Jr. Fotos por Fernando Martins Ferreira

De olhos arregalados, Vincent Moon segura a câmera com firmeza enquanto passeia por uma chuva de verão em um quintal com piscina no Alto de Pinheiros, em São Paulo. A casa está lotada de convidados para a gravação do "Take Away Show" com o grupo paulistano Holger – a churrasqueira funciona sem parar, as mesas estão cheias de garrafas de cachaça, vinho e latas de cerveja. De barba e boina, usando uma gravata meio torta sobre a camisa, Moon é um tipo franzino que não esconde a origem francesa. Seu sapato está furado e encharcado, então ele faz todo o trabalho descalço, acompanhado de uma minúscula equipe formada por alunos de uma oficina que ele deu na cidade. “Cara, isso está uma loucura, que bagunça”, ele desabafa em um inglês carregado. É o nosso terceiro encontro, depois de uma entrevista em uma lanchonete na região da Avenida Paulista e uma sessão de fotos na Casa do Mancha, na Vila Madalena, durante uma exibição de seus vídeos.





Com 31 anos, Mathieu Saura se tornou famoso na internet a partir de seus "Take Away Shows", vídeos gravados em um take nas ruas de Paris com artistas como Mojave 3, The Ex, Xiu Xiu, Vampire Weekend, Vic Chesnutt, Animal Collective, Stephen Malkmus e outra centena de nomes. O sucesso rendeu convites para filmar longas de grupos como R.E.M., Arcade Fire, Beirut e Efterklang, além de viagens para os EUA, o Egito, o Sudeste Asiático, a Argentina e, agora, o Brasil. Ele aportou em São Paulo no final de novembro e seguiu viajando pelo país até março, quando foi para a Colômbia. Passando por Porto Alegre, Rio de Janeiro, Paraty, Ouro Preto, Salvador, Brasília, Recife, São Luís e Belém, fez vídeos de funk carioca e tecnobrega, filmou Dona Iná, Tom Zé, Elza Soares, Lulina, Jards Macalé, Naná Vasconcelos, Orquestra Imperial e mais outra dezena de artistas.
Nas suas contas, apenas em 2010 ele visitou 16 países e fez mais de 50 vídeos. Nômade por opção, já começa a planejar uma viagem para a Indonésia. “Eu não recomendo essa vida para os outros”, ele brinca durante a entrevista. Falando sobre viver sem dinheiro, suas inspirações situacionistas, tradições orais e o segredo para conseguir um som perfeito, ele faz seu trabalho parecer fácil – mas é só botar os olhos em um de seus vídeos para saber que nada é assim tão simples.


Como começou o seu trabalho? Quando você pegou pela primeira vez numa câmera?

Comecei a mexer com cinema depois de terminar a escola, tinha uns 18 anos. Fui parar na Cinemascope, uma universidade de cinema, meio que por acidente. Não sabia nada sobre cinema, nunca tinha encostado em uma câmera. Um ano depois eu estava tirando fotos na rua, aprendendo a olhar de outro jeito para as coisas – é como se estivessem nos ensinando a viver. Tínhamos fotógrafos incríveis nos ensinando, e isso me influenciou muito. A filosofia que eu sigo é “você faz e depois você cria” (“you make and then you fake”). Você não escreve dezenas de páginas de roteiro e fica tentando captar dinheiro, enrolando. Primeiro filme alguma coisa, e depois descubra o que você fez e como seu filme pode crescer a partir daquilo.
Quando eu tinha 19 ou 20 anos, comecei a ler os situacionistas. E aquilo era uma filosofia de vida, a arte como um processo do cotidiano. Adoro essa expressão, “a revolução nos ombros da vida cotidiana”. Acordo todo dia e penso: “Qual será a minha revolução hoje?”. É como eu entendo o processo criativo. Não ligo para projetos gigantes, “grandes filmes”, quero trabalhar todo dia com algo novo. Para mim, fazer filmes não é mais importante do que tomar uma cerveja com você. É algo pequeno, simples, e todo mundo deveria fazer. Não filmes, mas algo, criar algo. Tenho amigos que fazem música, outros filmam, outros tiram fotos, e isso é ótimo. Não pelo resultado, mas pelo processo. Mas eu estou me desviando do assunto – qual era a pergunta mesmo?

Quando você pegou numa câmera pela primeira vez?

Foi complicado, comecei bem tarde, aos 20 anos – eu não sabia nada até então. Comecei também a me interessar por música, ia a muitos shows, tive muita sorte por morar em Paris. Então comecei a pesquisar a relação entre cinema e música, querendo descobrir quais foram os documentários mais loucos sobre o tema. Passei a ter novas ideias, com uma forte crença no cinema experimental. Comecei fazendo vídeos bem lo-fi, para amigos, grupos pequenos como o The National.



Qual foi a primeira banda que você filmou?

Acho que foi o National, tudo começou ali. Você conhece?

Sim, eu estava vendo "A Skin, A Night" (documentário dirigido por Moon com as gravações do álbum "Boxer", de 2007) ontem, me preparando para a entrevista.

Isso é embaraçoso. Não consigo ver esse filme hoje – talvez daqui a uns cinco anos. Acho horrível. Eu não estava preparado para fazer um longa. Se fosse hoje nunca teria feito daquele jeito. Mas enfim, tudo começou com o National. Eu não me interessava muito por clipes. Conhecia outras coisas, ouvia outras coisas, e achava que poderia haver uma relação diferente entre um músico e um cineasta. Então o criador do site Blogothéque estava com um projeto de criar vídeos de música na internet e me chamou. Desde o início havia essa ideia de fazer tudo com um take, uma câmera só, e foi assim, começou há cinco anos.

A qualidade do som desses vídeos é incrível. Como você faz para mantê-la?

Já fiz filmes suficientes para saber exatamente do que preciso para conseguir um bom som. Um som de boa qualidade é a espinha dorsal do vídeo. Se você tem o som, pode fazer qualquer coisa com a câmera, pode girá-la em cima do tripé, e sempre pode ficar interessante. Mas se o som for ruim nada do que você fizer com a câmera vai funcionar. Se alguém quiser saber que equipamento eu uso pode entrar no meu site, a lista está toda lá. É simples, às vezes eu mesmo faço o som e cuido da câmera sozinho.

Você se reúne com os artistas que vai filmar, cria roteiros?

Às vezes sim, mas muitas vezes tudo é improvisado. Tinha que ser assim no começo em Paris, porque as bandas ficavam na cidade apenas por um dia, não havia tempo para nos reunirmos antes. Hoje estou perdendo um pouco disso – os artistas têm mais tempo para mim, antes não tinham. Acabei de tomar um café com o Holger para falar sobre o vídeo deles. Talvez eu já esteja pensando demais. Não quero transformar isso num clipe, quero manter essa improvisação. É complexo manter esse equilíbrio entre planejamento e improviso.



As bandas não se preocupam em ensaiar, deixar tudo redondinho?

Não, o que importa é o momento. No começo eu convidava as bandas para tocar na rua, e muitas vezes era algo que elas nunca haviam feito. Fiz um vídeo com os Shins uma vez, e foi ótimo, eles eram bons pra caralho, todos em sintonia. Tem uma diferença crucial entre as bandas americanas e, sei lá, as francesas. Os americanos são muito ensaiados, é sempre perfeito. Foi “1, 2, 3, 4, BAM!”, e eles destruíram. Depois fui conversar com o James Mercer (líder do grupo) e falei: “Nossa, foi ótimo. Vocês sempre fazem isso?”. E ele: “Não, é a primeira vez. Ficou bom?” (risos). Bons músicos sempre podem fazer isso.

Li no seu blog um post com um vídeo do (artista cambojano) Kong Nay, em que você dizia que estava começando a repensar a forma de filmar artistas tradicionais e que queria abrir um selo. Qual é a diferença entre filmar uma banda de rock e um músico tradicional?

A diferença é que o artista tradicional normalmente não fala a minha língua. E não sabe quem eu sou. E não faz a mínima ideia de que eu quero fazer um filme. E ele não se importa. Só se importa em ganhar algum dinheiro. Existe essa ideia totalmente ingênua – que eu descobri que era besteira quando visitei o Egito pela primeira vez – de que esses músicos ficam tocando o tempo todo, que faz parte do cotidiano das pessoas. Isso até é verdade, mas ganhar dinheiro é mais importante ainda. Nunca encontrei na Europa ou nos EUA algum músico que, no fim de uma gravação, me perguntasse: “E então, quanto eu vou receber?”. No Egito era impossível achar algum músico que concordasse em ser filmado sem ser pago. É por isso que eu quero criar um selo, para encontrar uma maneira de pagar esses músicos tradicionais.
Tenho me interessado muito por gravações de campo, todas aquelas coisas do Alan Lomax, e também por cinema etnográfico, Jean Rouch, sou um grande fã dele. Ele levantou a grande pergunta logo no início disso tudo. A questão é: qual é o tipo de relacionamentos que nós criamos com nossos pesquisados quando os filmamos? Ele estava vivendo na África na época, e se via como parte da ação, não estava lá documentando de uma maneira totalmente objetiva. Isso é algo que eu defendo muito. Acho que o século XX foi o século em que as coisas foram arquivadas, foram criados arquivos dessas culturas que estavam desaparecendo. O trabalho do Alan Lomax é incrível, mas acho que chegamos a um novo paradigma. Já arquivamos demais. Eu deveria arquivar essas performances e colocá-las em uma porra de museu ou tentar mexer com elas, fazer algo novo? Então meu dilema agora é como filmar de uma maneira objetiva colocando a minha subjetividade nisso, tentando manter essas culturas vivas sem respeitá-las, experimentando com elas. Quando estive no Cairo não consegui fazer isso, não tinha tempo suficiente. Filmei momentos de música ritual, que é uma música incrível, bizarra. E, mesmo sendo parte da cerimônia, afinal eles estavam dançando para mim, acho que não consegui transformar aquilo em algo novo. Quero fazer algo híbrido, que é o que tento fazer também nos "Take Away Shows", algo que fica entre o cinema e a música. Quero fugir dos gêneros. Assim que você coloca as coisas em gêneros, você acaba com elas.

Talvez nós não precisemos arquivar tudo, “salvar” essas tradições orais. Antes da invenção do fonógrafo muitas culturas nasceram e morreram e ficaram sem registro. Por que não deixar essas culturas contemporâneas seguirem seu rumo natural, desaparecendo também?

Eu concordo com essa ideia de morte, de que as coisas desaparecem. Vivemos numa cultura que tenta manter tudo vivo, mas nada mais está vivo. Nada mais desaparece, mas também nada mais é criado. É um paradoxo terrível. Eu faço o meu melhor para tentar superá-lo.

E o que te trouxe ao Brasil?

Eu vim para cá para dar essa oficina, e devo ficar alguns meses. Quero explorar o país. Estou em um ótimo momento da minha vida, tenho tempo, não tenho pressão nenhuma. Fico impressionado com essa cultura extremamente diversa que vocês têm, e o momento é ótimo, com muitas coisas acontecendo. De certa forma estou voltando às raízes daquilo que faço. Na minha oficina eu estava falando para os alunos: filmes não são nada, são inúteis. A arte é inútil. É um pretexto para fazer outra coisa. Para mim é um pretexto para viajar, conhecer outras pessoas.

Você se definiu como um nômade – quando decidiu isso?

Como a maior parte das decisões da minha vida, foi um acidente. Há cinco anos, quando comecei a ver os novos equipamentos e os novos computadores, eu pensei: “Meu Deus, talvez um dia um cara possa viajar por todo o mundo fazendo filmes. Isso vai ser maravilhoso, e eu vou querer ver o que esse cara vai fazer!” (risos). Bom, eu estava cada vez mais na estrada, sempre viajando, e um dia pensei: “Bem que eu poderia viver na estrada”. É cansativo, é difícil, mas é incrível.

E como você consegue captar dinheiro para os seus projetos?

É uma questão interessante, porque eu não penso muito nisso. Nós começamos os "Take Away Shows" sem dinheiro algum. E foi uma ótima ideia. Não havia nenhum dinheiro envolvido, então também não havia nenhum contrato. Podíamos fazer o que quiséssemos com os filmes. Às vezes um empresário ligava: “Que porra é essa? Por que meu artista está nesse vídeo?”. E a gente respondia: “Bicho, cala a boca. Quanto dinheiro você colocou nisso?”. O projeto cresceu cada vez mais, e tive a chance de fazer coisas maiores, mais longas – como os filmes do Arcade Fire, do R.E.M. – ali havia dinheiro envolvido. Algumas empresas começaram a me convidar para projetos patrocinados. Eu aceitei um e foi um desastre. Então só faço o que eu quero agora, sem dinheiro, só pelo prazer. De onde eu tiro dinheiro? Fazendo palestras, participando de conferências, oficinas. E isso me dá uma liberdade incrível. Quero experimentar o máximo possível, um cinema faça-você-mesmo, lo-fi, feito na estrada. Gosto de ver a câmera apenas como uma ferramenta, uma coisinha que fica entre mim e você. Não tenho dinheiro, mas também não tenho muitas despesas. Se estou com fome alguém acaba marcando uma entrevista e paga o meu almoço (risos). Mas eu tenho muita sorte, não recomendo essa vida para os outros.

Saiba mais:
vincentmoon.com
vimeo.com/channels/takeawayshows

www.blogotheque.net