Harvey Pekar foi um desses gênios ofuscados por suas diatribes e seus companheiros de percurso. E não era pra menos: quem o “descobriu” e o lançou no mercado de quadrinhos foi ninguém menos que Robert Crumb – o maior artista vivo das HQs no planeta. Reconhecido muito mais por sua excentricidade do que pelo seu vibrante talento para constituir narrativas baseadas em experiências pessoais sem cair no piegas, na autocomiseração e na autoadulação egoica, Pekar construiu uma obra que o coloca como um dos maiores contadores de histórias de nosso tempo. Histórias prosaicas, mundanas – o retrato fiel de um trabalhador ordinário no Ocidente –, que saíam do comum graças a seus comentários afiados. Assim, não soa nada estranho que Pekar, aliado com Paul Buhle (uma eminência parda quando o assunto é radicalidade estadunidense no século XX), que editou a obra, viesse a escrever sobre os beatniks.
O livro se divide em três grandes histórias sobre Kerouac, Ginsberg e Burroughs e outras menores sobre os demais nomes da literatura beat (Ferlinghetti, Corso, Lamantia etc.), além de aspectos ligados ao meio, como os antecedentes na literatura americana, os aspectos filosóficos que deram consistência ao movimento, a (não) participação feminina, a música da época etc. Em grande parte do álbum, a arte é de Ed Piskor, um dos maiores parceiros de Pekar e amplamente desconhecido por aqui. E, graças a uma outra deficiência do mercado editorial nacional, ainda é possível conhecer algo novo sobre essa turma, fatos ainda não tão divulgados e explorados no Brasil. Em destaque, os questionamentos um tanto quanto “travados” e típicos de Pekar sobre a misoginia e homossexualidade de Kerouac, que manteve diversas relações com homens, ou a HQ de Joyce Brabner (a esposa feminista de Pekar) sobre as mulheres no mundo beat, apresentando um lado mais barra-pesada e menos heroico dessa geração, amplamente jogado pra debaixo do tapete por seus biógrafos.
Em "Os Beats" não há muito malabarismo textual ou explosão visual. Neste livro realizado por pessoas que acima de tudo nutrem um fascínio saudável sobre o assunto, texto e arte operam as premissas mais elementares dos quadrinhos, se valendo em parte do didatismo típico dos livros biográficos para “ensinar” como é possível contar uma ótima história se atendo ao essencial da linguagem das HQs.
Por Velot Wamba