Pode parecer fácil, mas não é. Em um cenário onde a maioria das bandas de rock ousa pouco, se contentando em reproduzir ídolos mainstream da adolescência ou imitar o hype anglofônico de oito anos atrás, o Walverdes é dos poucos que conseguem soar autênticos ao mesmo tempo em que não zombam da inteligência do ouvinte – que, no caso deles, já é bem grandinho. E tudo isso fazendo um rock simples, de trio, cantado em português, devedor sim de Rocket From The Crypt, Sonics, Replicantes, Mudhoney e blablablá, mas que em 18 anos já pagou seus débitos e goza dos prazeres da vida adulta. Em "Breakdance", sexto álbum dos gaúchos, isso fica mais evidente do que nunca.
As duas primeiras, “Função” e “Spray”, já circulavam pela internet há algum tempo e dão o tom do disco: secas e agressivas, alternam densidade sonora com riffs curtos de baixo e guitarra, que acompanham um vocal quase falado, por vezes próximo de Shellac (ou seria uma referência mais explícita ao tema hip-hop da capa?). As letras punk-nonsense-budista de Gustavo Mini chegam ao auge em frases como “Meu minimalismo comprou um furgão” e o refrão “Pouca saída/ Muito espaço” (“Spray”), mas também falam habilmente de trabalho (“Minha missão/ Repetição/ Função/ A sua integração/ Não deixe a ingratidão fazer...”, em “Função”). Em “Não é Difícil”, a levada abertamente Nirvana/MC5 é pura tiração de sarro, escancarada nos versos “Criar não é difícil/ Pensar não é difícil/ É só olhar e copiar”, um primor de humor punk aliado aos clichês que Mini certamente encontra em sua carreira publicitária. “Diagonal” mantém o baixão distocido de Patrick Magalhães, mas se abre em um vocal pra sair cantando, com refrão grudento e talvez a melhor letra do álbum. Como aquele amigo hábil em resolver desavenças, primeiro Mini sugere a compreensão (“Diagonal/ Natural cometer erros/ Enfrentamentos”) para em seguida dissolver o conflito em nonsense e festa (“No Carnaval/ Tem samba-enredo”).
O mérito do disco deve ser dividido com o produtor Julio Porto, que abusou do seu background dub para dar profundidade inédita às camadas de distorção do trio, especialmente ao baixo. O disco soa moderno, mas nunca limpo e estéril, transportando as composições para um outro nível, sem perda da assinatura da banda. Sim, há vida inteligente no rock brasileiro.
Por Mateus Potumati