Deve ser difícil fazer algo assim. Não exatamente pelo lado do desenho, arte em que o quadrinista paulista Caeto tem talento e linguagem próprias, e que explora melhor a cada novo trabalho - mas na qual, seja dito, ainda tem chão a percorrer se o objetivo é dialogar com virtuoses como o francês David B, o espanhol Jaime Martin ou R. Crumb. Porém, se na arte as apostas de Caeto já são altas, elas atingem níveis astronômicos no que diz respeito ao tema. Nesta estreia em livro, o autor pôs na mesa tudo que tinha: sua vida inteira, ou o que viveu dela até aqui. Fanzineiro desde 1998, quando fundou o Sociedade Radioativa, Caeto vem produzindo HQs autobiográficas há alguns anos, com resultados surpreendentes. As memórias reunidas aqui são o ponto alto desse processo: o autor detalha minuciosamente tudo que viveu entre 2004 e 2007, com constantes digressões à sua infância e adolescência. Isso não seria particularmente atrativo ou original em termos literários, caso a vida de Caeto não fosse carregada de conflitos dramáticos profundos, que ele expõe com talento e coragem raras no Brasil.
O maior desses conflitos, a relação com o pai, é revelado aos poucos e se torna o fio condutor da narrativa. Retratado como um homem letrado, mas distante e temperamental, ele deixou a família durante a adolescência de Caeto. Só bem mais tarde o filho ficou sabendo que ele tinha trocado a mãe por um homem, que tivera vários casos homossexuais e que tinha contraído o HIV. Depois que o pai se muda para o interior, Caeto se vê obrigado a enfrentar a vida em São Paulo sozinho, se dividindo entre vender quadros na rua, ter uma banda e fazer bicos para sobreviver. Essas situações alternam o drama de alguém sem perspectivas, sempre prestes a ser engolido pelo monstro urbano de São Paulo, com um senso de humor amargo, que gera risos na mesma medida em que gera mal estar. Se os resultados em termos narrativos às vezes são irregulares - a parte da banda e da vida noturna por vezes fica repetitiva e desinteressante -, Memória de Elefante atinge algo raro em romances brasileiros contemporâneos, o que dirá de quadrinhos: a capacidade de, a partir de uma história pessoal, contar uma história relevante sobre o Brasil dos últimos anos. Não é pouco.
Por Mateus Potumati.
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