(Entrevista publicada na +Soma 21 Dez-Jan 2011. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Subjetividade Humana
Uma Entrevista com Silvana Mello
Por Marina Mantovanini . Retrato por Fernando Ferreira Martins
Muitas vezes a arte nasce da simples vontade do artista de colocar para fora e expressar sentimentos e ideias pessoais. Esses artistas, que não explicam sua arte por meio de referências de escolas artísticas ou por influências de outros, traduzem melhor suas obras quando falam sobre o caminho que percorreram até encontrar a linguagem dos seus trabalhos. A bagagem artística veio da vida, e ensinou a eles como desenvolver suas emoções pelos traços e desenhos. O conhecimento provém unicamente da experiência, da captação do mundo externo e interno pelo sentidos, por isso em seus trabalhos é possível observar uma espontaneidade natural, em que a produção (in)consciente das obras é voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia. A artista plástica gaúcha Silvana Mello se enquadra nesse perfil, e seus trabalhos em suportes como azulejo, tela, bordado e vídeo-animação refletem suas histórias pessoais e a trajetória conturbada de sua vida. Ao me deparar com ela para realizar esta entrevista, encontrei uma mulher de 42 anos muito bem resolvida, que conseguiu deixar para trás alguns fantasmas, mas que continua se reavaliando por meio de seus desenhos.
Como era o lance de ser punk em Porto Alegre?
A primeira vez que vi os punks foi em uma festa em Porto Alegre. Fiquei doida com o jeito deles, com a aparência, aquela coisa desencanada, e fiquei instigada para saber quem eram eles. Nessa época eu andava com a galera do surf, mas não me identificava com o estilo de vida das meninas e, no dia seguinte à festa, cortei o cabelo e fiz um moicano. Eu conhecia o Cachaça, que já fazia uns fanzines, e ele me levou pra conhecer a galera punk. Eu achava aquilo a coisa mais incrível do mundo, porque tinha uma ideologia, e você não era o que você tinha, não tinha essa. Lógico que tinha toda uma parte visual, mas era muito pessoal, você se montava do jeito que queria. Eu botava fogo nas minhas roupas e riscava tudo com o A de anarquia, fazia uns fanzines com os amigos, fazia umas colagens. Mas ao mesmo tempo tinha o outro lado, tinha muita droga, a gente tomava muito remédio, cola, anfetamina, ninguém tinha dinheiro pra cocaína. Eu ficava três, quatro dias acordada bebendo, usando drogas, debatendo os conceitos do punk e tendo ideias, mas depois da doideira ninguém realizava nada, porque todo mundo tava muito cansado e ia dormir.
Você já ilustrava os fanzines?
Não, eram mais umas fotos, colagens e as ideias que a gente colocava no papel. Na real, a gente fazia os fanzines pra vender e conseguir dinheiro pra beber. Tinha a ideia de mudar as coisas, mas era mais de estar junto com amigos que pensavam como você.
Foi aí que começou a sua relação a música?
Naqueles tempos, no Sul, o punk pra gente tinha a parte paralela da música, mas não era a coisa mais importante. A parte mais importante era a coisa da consciência do movimento, muito mais do que a música. A música era estar ali ouvindo um Discharge e um Exploited, uma coisa mais pra complementar, não era o principal.
O que te instigou a andar de skate?
Na minha infância eu andava de skate Bandeirante, que ganhei da minha mãe. Sempre gostei de umas coisas mais radicais, também tinha mobilete, e desde aquela época a gente já ficava o dia inteiro na rua andando de skate, aquela coisa bem anos 70 mesmo. A gente descia as ladeiras perto da minha casa, tinha uma que era conhecida como a ladeira da fábrica da Brahma, meio como a ladeira da morte aqui em São Paulo, e a gente ficava curtindo. Mas era mais coisa de criança, porque andar mesmo eu só comecei quando conheci os punks e a gente ia pros campeonatos de skate pra fazer festa e curtir. Resolvi começar a andar e montei o primeiro skate com uma amiga. O apelido dela era Cicuta. A gente passava a noite bebendo cerveja e andando de skate na avenida Osvaldo Aranha, mas era uma época bem difícil pra andar de skate, porque a polícia era muito repressora e a gente apanhava deles.
E mulher também apanhava?
Apanhava, e eles ainda passavam a mão, né? No peito, na bunda. Depois que a gente começou a ficar mais esperta tinha aquela coisa de policial homem não poder revistar a gente, mas eles apreendiam os skates e a gente tinha que ir na polícia pra resgatar.
Como era andar de skate nos anos 80 em um universo tão machista?
Sempre teve umas meninas andando de skate, mas muito pouco. Nunca senti tanto esse lance machista em Porto Alegre porque eu também tinha muitos amigos homens. Lá não tinha muita coisa pra fazer, então andar de skate era o esquema. Quando vim morar em São Paulo, gostava de andar em uma pistinha na Zona Norte, e tinha uns meninos que nem cumprimentavam, pegavam muito mal. Até nas festinhas as mulheres ficavam separadas dos homens. Mas eu acho que é muito mais uma questão de se impor. Eu não dava brecha pra ninguém, ficava na minha, andava escutando walkman e não fazia amigos - eu tava lá pra andar.
Quando rolou o Lava você ainda andava de skate, né?
Sim, mas a primeira banda em que eu cantei foi a No Violence. Era uma banda de homens e eu fazia a segunda voz. O Rui me chamou muito mais porque achava que eu tinha atitude do que pela minha voz. Fiquei uns dois anos, e aí chegou num ponto em que eu queria ter uma banda com meninas, porque via minhas amigas tocando e fiquei a fim. Aí a Eliane, do Dominatrix, a Lu, uma outra amiga e eu montamos a banda. No começo a gente fazia uns covers, porque eu achava que as bandas de minas tocavam mal, e eu gostava mesmo de hardcore. Foi só depois que eu comecei a ver as letras e a prestar mais atenção nos sons de mulheres que a gente começou a compor também.
Nessa época você já traçava uns desenhos pras capas de discos e pôsteres. Como começou a história com o desenho?
A primeira lembrança que eu tenho é de uma vizinha que desenhava uns personagens tipo Pica-Pau e Bidu e me ensinava, ia me mostrando como fazer. É louco porque ela fazia uma casinha, e até hoje eu faço uma casinha parecida com a dela. Mas, quando rolou o punk, eu desacreditei de tudo no mundo, não fazia nada, achava tudo uma merda, que não tinha futuro. Mas aí comecei a achar que a galera se drogava demais e era tudo demais, mas ninguém trabalhava e pensava no futuro. Comecei a perceber que quando você tá careta ninguém te engana, mas quando tá drogado você é usado. Eu virei straight edge, parei com tudo e vim morar em São Paulo. Quando cheguei, a primeira coisa que fiz foi procurar um curso pra estudar arte. Entrei na Escola Panamericana, e uma amiga disse que não era muito legal e realmente ela tinha razão - o curso te transformava em copista, você usava mesa de luz e copiava. Lembro que eu fazia um desenho e o professor podava. Aí larguei e fui fazer uns cursos livres, comecei a trabalhar na Bienal como montadora da Brasil +500 com o Carlos Issa e o Flip. Depois passei pra desmontagem e aí pra curadoria da Brasil +500 no Ibirapuera. Eu ficava lidando com a produção, ia nas casas desses emprestadores de arte, e comecei a ver que não era nesse lado das artes que eu queria trabalhar. Meu último trabalho fixo foi no Arte Cidade do Senac, e quando saí de lá comecei a freelar com ilustração de revista, camiseta, shape de skate, entre outras coisas.
E, quando fazia os pôsteres, você se inspirava em caras como o Frank Kozik?
Eu até vejo o estilo dele naqueles meus trabalhos, mas era uma coisa que todo mundo fazia. Por exemplo, ia rolar um show e tinha cinco, seis pôsteres e flyers diferentes, desenhados por outras pessoas. Era tudo colagem, e a inspiração vinha mais das bandas e do tema da festa. Em relação ao Kozik, eu gostava do trabalho dele muito mais pela música do que pela arte em si.
Mas desde o começo você já tinha uma linguagem retrô.
Vou te falar que até tentei abrir meus horizontes na arte, fui fazer um curso no M.U.B.E de arte abstrata, porque eu queria sair do lance de ser muito realista, mas não rolou. Acaba sempre ficando com a mesma linguagem. É isso que eu faço. E acho que essa referência vem da época em que eu morava no Sul. Lá todo mundo era meio sessentista, eu já frequentava brechó nos anos 80, sempre usava uns visus meio fantasia, e nessa época não era uma coisa de tendência. Acho também que tem muito desse conceito vendido na minha infância de american way of life: você vai conseguir, vai ser bonito, tipo propaganda de margarina, e isso me fazia sonhar com uma família mais estruturada que a minha.
E qual foi o seu primeiro trabalho com animação?
Fiz uma historinha de 45 páginas em nanquim no papel canson, baseada em uma música do Jailbreaker. Mostrei a parte de desenho pro Jimmy Leroy, que na época era diretor de arte da MTV, e eles compraram a ideia e fizeram uma animação. Aí eu pensei: "Vou viver disso". Comecei a fazer mais vinhetas, e todo mundo naquela época que era da arte fazia umas vinhetas pra MTV. Resolvi que queria aprender a animar e fui fazer um curso de flash no Senac com o Carlinhos.
Teve também o clipe em animação da música "Igloo", que você fez pro Lava.
Sim, fiz tudo em flash, fotocópia. Dava bastante trampo, mas não era tão difícil. Eu colocava um desenhinho no flash e animava aquela coisa meio durinha. Parecia stop motion.
Como você pensa no roteiro desses curtas?
Meio que surge, não é muito programado. Acho que vem sempre pela simplicidade, porque a minha intenção com arte é que todo mundo entenda. Admiro outros tipos de trabalhos, como arte conceitual, mas não é a minha cara, pra mim é mais uma coisa de vivência. Não fico mirabolando nada e também não curto pretensão. Eu faço o que quero.
Como apareceram as primeiras exposições?
Meu trabalho começou a aparecer mais e eu comecei a expor alguns trabalhos nas casas de show. O Cacá tinha uma casa nos Jardins, a 8ª DP, e rolava uma festa, a Draga, e sempre tinha banquinha com as camisetas e uns trabalhos. Aí teve um evento no Hangar e as meninas me chamaram para expor. Foi pra essa expo que fiz os primeiros bordados. Várias pessoas viram e gostaram, me deram uns toques. E aí teve a Most, e o Farofa e o Flip me convidaram para colocar umas peças lá.
O bordado é uma marca sua. Como rolou essa história?
Eu trabalhava muito com as obras do Arthur Bispo do Rosário na Bienal e resolvi bordar. Mas não pensei nele, acho que foi algo que ficou no meu inconsciente, usar um material mais artesanal. Nessa ocasião, peguei três bordados pequenos, eu nem tinha bastidor, meio que estiquei na raça e fiz.
E pintar em azulejos?
Eu fui pro México, e lá qualquer garagem tem alguma imagem sacra pintada em azulejo. Quando cheguei no Brasil, peguei um MDF, colei os azulejos e pintei. No final das contas, virou parte do meu trabalho. Nessa minha última exposição, "Mulheres e Casas", eu não fiz tanta pintura em azulejo e o pessoal cobrou isso.
Em 2006 você participou de uma exposição na Galeria Choque Cultural, e foi no mesmo ano que acabou o Lava. Foi aí que tudo mudou?
Eu perdia muito tempo com a banda. Eu adorava, mas ficava com a parte de marketing e no tempo livre fazia camiseta, adesivo, capa de disco, e era tudo na mão, tudo na caneta, uma por uma, bem underground. Eu gastava muito do meu tempo entre o trabalho fixo e o Lava. Além do que, eu tava cansada de tocar em lugar sujo, às 4h da manhã. Fomos viajar pra Curutiba, chegamos lá e era um lugar pequeno, todas as bandas foram dormir na casa de uma menina, mexeram nas minhas coisas. Era legal antes, mas eu já tava de saco cheio. Queria ficar em casa, dormir cedo, ter uma filha. Aí fiz a primeira expo na Choque, venderam algumas coisas e eu pensei: "Acho que vai dar pra viver da minha arte e pagar as contas no final do mês".
Os seus primeiros trabalhos têm muitas referências da época em que você andava de skate, do rock, mas hoje trilham por um caminho mais feminino e suave. Queria que você falasse sobre essa evolução.
Mudou bastante. Comecei a ver também a durabilidade do trabalho. Antes eu pegava um lance no lixo pra fazer umas colagens, mas hoje em dia tenho uma preocupação maior, quero que as peças durem pra sempre. Os bordados eu estou até colocando na tela. E também procurei um tecido com mais durabilidade, não chega a ser um canvas porque não é maleável pra costura, mas já é bem mais forte. São coisas que você começa a pensar, porque o seu trabalho muda e as pessoas que compram esperam esse cuidado. Tem peças minhas que vão pra colecionadores, tem que rolar mesmo esse esmero. Hoje os temas dos meus trabalhos são menos agressivos, as cores mudaram muito. Antes eu usava só preto, branco, vermelho, porque me bastava, mas hoje coloco mais e isso tem muito a ver com o nascimento da minha filha e de eu estar muito bem. Tenho uma vida mais tranquila com a minha família, e na Choque Cultural tenho o reconhecimento que queria. E também não quero mais me expor tanto na minha arte. Antes eu colocava o que estava vivendo, e agora quero me preservar mais, quero sair do meu universo.
No começo você falou sobre a agressividade. Os seus personagens são delicados, mas realmente tem esse lance mais crítico, mais subversivo.
Na segunda exposição que fiz na Choque, pintei crianças pegando fogo, porque era uma época que tava rolando muito ataque de homens bomba. Eu ficava assistindo na CNN e tava perturbada com toda essa história, queria fazer alguma coisa com esse tema. Ao mesmo tempo, li um livro religioso que falava sobre as crianças no paraíso e mostrava felicidade. Então eu fiz isso, coloquei as crianças felizes, mas pegando fogo. Era a minha mensagem.
Mexer com crianças incomoda as pessoas, né?
Teve uma exposição que eu fui convidada pra fazer junto com outros artistas, pra pintar uns objetos. Cada artista recebeu alguma coisa, e eu fiquei com uma geladeira, mas a curadora não se ligou no que eu fazia e eu pintei umas crianças em situações mais perigosas. Era agressivo, tipo a criança colocando o dedo no ventilador, e em outro desenho ela colocava a mão dentro do liquidificador. A curadora surtou, achou um horror. Mas era o que eu fazia na época, sinto muito se ela não se preocupou em pesquisar o meu trabalho antes de me convidar.
A sua arte é realmente baseada naquilo que você está vivendo no momento. Você sempre consulta suas memórias e sentimentos pra criar. Acha que isso é o que atrai tanto as mulheres pro seu trabalho?
Sim, a maioria dos colecionadores que compram as minhas peças são mulheres. A arte sempre foi uma terapia pra mim, pra botar pra fora o que eu tô sentindo naquele momento e tirar uma coisa bonita de algum sofrimento. E isso é muito feminino, acho que é uma coisa que eu tenho vontade de fazer, de falar com a mulher por meio dos meus desenhos.
Você tem trabalhos em que coloca os homens em atividades que antes eram apenas das mulheres, como lavar uma louça ou cuidar de um filho. Qual é a importância de expressar na sua arte uma mudança de padrões?
Como meu pai foi ausente, eu sempre tive que aprender a me defender, tomar conta de mim. Queria que as coisas fossem diferentes pras mulheres, mas ainda não são. Acho que a gente já evoluiu muito, já tem muita liberdade, mas ainda não é tão de igual pra igual. Quero que as mulheres sejam respeitadas, que a gente ganhe igual, que as funções da casa sejam divididas igualmente. Eu não acho que meu trabalho vai mudar o mundo, mas cutucar ajuda de uma certa forma. Na primeira vez que expus os bordados, criei os desenhos com uma estética anos 50, e era uma série que criticava o papel da mulher em casa, tipo todo o trabalho sempre sobrava pra mãe. E veio de ver minha bisa, minha avó e minha mãe passarem por isso, de a mulher sempre ter que assumir tudo. A maioria das mães das minhas amigas criaram os filhos praticamente sozinhas.
Você teve banda e sempre teve uma relação forte com a música. Qual é o papel dela hoje na sua vida? Ela influencia ou modifica o seu trabalho?
De certa forma sim, mas mais como um acompanhamento do que como uma influência. É mais um item que precisa estar junto na hora de criar. Vou pro ateliê e coloco algumas coisas de punk, claro, mas tô curtindo mais os anos 70, tipo Fletwood Mac, umas coisas mais calminhas, como Tommy Guerrero e Ray Barbee. O som me ajuda a criar, mas aprendi que o silêncio também é importante, e que tem alguns momentos em que eu prefiro o silêncio absoluto pra colocar as ideias no lugar.