(Quem Soma publicado na +Soma 21 Dez-Jan 2011. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Unconvention
Por Mateus Potumati . Foto por Fernando Martins Ferreira
Desde os 10 anos de idade, Ruth Daniel já sabia o que queria da vida: trabalhar com música. Crescer em Manchester, Inglaterra, parecia perfeito para seus objetivos. Uma das cenas mais famosas dentro de uma indústria tão desenvolvida como a britânica, a cidade tinha tudo que ela precisava. Depois de tocar em algumas bandas, Ruth montou um selo, o Fat Northerner. O trabalho se desenvolveu para fora dos limites da cidade, e ela foi tendo planos mais ambiciosos. Para avançar, tocar em festivais gigantescos como o South By Southwest, em Austin, ou no Midem, em Cannes, parecia obrigatório. Com isso em mente, ela investiu em levar bandas ao SXSW por dois anos consecutivos (o festival texano é como um grande showcase de selos e bandas, que pagam para participar na maioria dos casos). Depois da experiência, porém, Ruth parou para avaliar. Não demorou muito para ela perceber que tocar em meio a outras 3 mil bandas tinha um retorno muito pequeno, em vista do alto investimento. Conversando com colegas de outros selos e bandas, viu que a opinião era generalizada, mas que as pessoas não enxergavam outras perspectivas para quem estava começando. Foi então que ela decidiu fazer algo a respeito: "Sentia falta de um evento que fosse menos focado nos aspectos comerciais e que promovesse carreiras realmente sustentáveis", ela diz.
Um projeto assim só faria sentido se saísse completamente do convencional. E assim nasceu a Unconvention. "A minha ideia, inicialmente, era apenas reunir pessoas que procuravam algo diferente e quisessem compartilhar ideias, trabalhar em conjunto e colaborar umas com as outras. Em vez do do-it-yourself de costume, queríamos promover o do-it-together". Em 2008, ela reuniu em Salfood, cidade vizinha de Manchester, uma rede de pessoas envolvidas com "grassroots music", como ela diz (conceito por vezes traduzido como "música independente", mas que se refere mais a música embrionária, pioneira, pré-mercado): jornalistas, donos de casas noturnas, produtores, donos de selos. Entre os palestrantes convidados da primeira edição estava o renomado pesquisador musical neo-zelandês Andrew Dubber. Radicado na Universidade de Birmingham, ele edita um blog com reflexões sobre a indústria musical. "Meu blog chamou a atenção deles, e logo vi que tínhamos valores parecidos sobre os rumos da música - e habilidades complementares. Então fui chamado para fazer parte da família."
O que era para ser um evento de networking de uma única edição cresceu, ganhou o apoio do British Council e virou um festival itinerante, que já esteve na Colômbia, Índia e passou pelo Brasil (Goiânia e São Paulo) em novembro. "O Unconvention é um evento que mira especificamente na infraestrutura da música pré-mercado ao redor do mundo. A ideia é colocar pessoas juntas para trabalhar, que possam ser úteis umas às outras. Você pode levar o cara que produziu o Jay-Z, mas não sei como isso seria produtivo para a maioria das pessoas." Dubber complementa: "É um olhar para pessoas que encaram a produção musical em menor escala, que é mais fácil de controlar". Em cada lugar, o festival tem um formato diferente. Em Goiânia, dentro da programação do XVI Goiânia Noise, eles gravaram e produziram um disco com bandas locais, que está disponível em um site. Tudo foi feito em um dia, em um processo colaborativo que envolveu dezenas de pessoas. "Em todos os lugares aonde vamos, conseguimos fazer as coisas acontecerem. Isso é uma prova de como as pessoas que trabalham com grassroots music são fortes e proativas", avalia Ruth.
Em Goiânia, especificamente, os dois se surpreenderam com o trabalho dos coletivos ligados ao circuito Fora do Eixo. Dubber: "Já ouvimos coisas incríveis sobre o Brasil, a respeito de como os coletivos se organizaram, a rede que se criou. Isso é único, nunca ouvi falar de nada parecido. Estamos tirando muitas lições daqui". A postura de aprendizado constante, por sinal, é uma marca da Unconvention. "É prova de uma teoria que eu tenho há muito tempo", diz Dubber. "Quando você tenta ensinar algo a alguém, acaba aprendendo muito mais, especialmente com grupos. O festival também é uma plataforma educativa."
E as conexões estão acontecendo: a Unconvention avalia as experiências colhidas pelo mundo e quer unir os coletivos. "Algumas lições daqui seriam muito interessantes de levar para a Colômbia", diz Ruth. "Voltaremos lá em maio do ano que vem e vamos tentar unir esses coletivos." "E algumas coisas que aprendemos na Índia talvez sejam úteis por aqui", emenda Dubber. Com olhos atentos à importância dos alinhamentos periféricos no mundo contemporâneo, ele conclui: "Não pensamos de forma simplória, em simplesmente levar bandas para o Reino Unido, porque não é lá que esse tipo de ação se encontra. Queremos fazer conexões entre diferentes partes do globo." Assim, a Unconvention se posiciona para exercer um papel fundamental, que pode fortalecer em escala mundial iniciativas transformadoras, que venham a resgatar algo quase perdido na música de mercado. Como bem define o próprio Dubber: "a capacidade de fazer da música uma força culturalmente significativa para realizar coisas boas".
Saiba mais:
www.unconventionhub.org