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Thu: 01-20-11

Rafael Moralez e Rodrigo Bueno . Peixe Peludo Conrad . 2010

Não julgue um livro pela capa, é o que dizem. No caso deste Peixe Peludo, o ditado não poderia estar mais errado: título, arte e textura (a capa do livro tem pelos, literalmente) alertam com precisão para o que está por vir. E se trata de algo tão desagradável quanto a ideia de se deparar com o ser escamoso e cabeludo da capa. Não que isso seja ruim: Rafael Moralez é um especialista no desagradável. Desde seus anos de Produto do Ócio, fanzine que editava em Londrina, Moralez revela talento cirúrgico para tocar em assuntos e fazer comentários que o bom convívio em sociedade convenciona evitar. No seu livro de estreia, ele emprestou  o traço do amigo Rodrigo Bueno (que exerce um papel fundamental ao entender e traduzir suas ideias) para criar um libelo rabugento, sujo, em fluxo de consciência e sem objetivo nenhum além de causar incômodo.

O tal peixe é um saxofonista paulistano, que anda à deriva pela cidade, falando a primeira coisa que lhe vem à cabeça sobre assuntos aleatórios ou cenas que vê: o público dos teatros da Praça Roosevelt, o pai da namorada, enredo de escola de samba, mulheres grávidas, a criação do mundo. Como num improviso disléxico de saxofone - me pergunto se é essa a analogia -, as palavras são regurgitadas no papel com velocidade nauseabunda, às vezes tentando o humor, mas invariavelmente caindo em sarcasmo puro. Se a livre associação nem sempre produz bons momentos, ela às vezes rende pérolas como "o perdedor tem a função social de apaziguar qualquer espírito infeliz". E assim, ao dar vazão a seu alter-ego temporário e indigesto, Moralez fala um pouco com cada um de nós.

Por Mateus Potumati