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Thu: 01-20-11

+Matéria: Raquel Schembri, por Marina Mantovanini

(Matéria publicada na +Soma 21 Dez-Jan 2011. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)      

O Mundo Singelo e Amargo de Raquel Schembri

Por Marina Mantovanini .  Fotos Acervo da Artista

Na primeira vez que bati os olhos nos quadros da artista Raquel Schembri, senti uma estranheza oportuna e desafiadora. Na série em questão, a artista retratou a inocência das crianças, mas fugiu do senso comum ao incluir nas singelas pinturas discretos detalhes amargos, que simultaneamente embaralhavam os sentimentos e davam vazão a um imaginário cruel e ingênuo. As cores calmas e as pinceladas muito bem executadas de tinta acrílica escondiam a pouca experiência, especialmente nas telas, da jovem mineira de Belo Horizonte.

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Raquel Schembri não segue nenhum padrão. Ao contrário da maioria dos artistas que sempre tiveram propensões às artes plásticas, ela passou a adolescência sem produzir um único desenho, e chegou até a pensar em cursar biologia antes de entrar no curso de artes da Escola Guignard. "Na escola, eu adorava fazer a parte de apresentação dos trabalhos, fazia os cartazes, as capas dos trabalhos. Durante a adolescência eu tinha certeza de que ia ser médica. Minha mãe e meu avô eram médicos. Sempre admirei muito eles e, dos 16 anos até entrar no cursinho preparatório para vestibular, decidi que queria ser bióloga."

O rumo da história mudou exatamente durante o cursinho, quando fez amizade com uma menina que passava as aulas desenhando nas carteiras. "Foi aí que eu despertei novamente para o desenho. Ficávamos rabiscando as carteiras. A gente só fazia isso. E, no final das contas, ela queria fazer artes plásticas e eu biologia, mas acabou que ela fez design e eu fiz artes plásticas."

O tempo na faculdade também não foi um dos mais promissores para o desenvolvimento do trabalho artístico de Schembri. Ela ficou praticamente dois anos sem pintar e desenhar e quando o curso terminou, ainda tentou outros caminhos. "Fiz pós-graduação em ensaio de moda, trabalhei com diversas coisas diferentes. Isso foi muito importante pra mim, porque percebi o que eu não queria fazer da vida, e o que realmente me alimentava. Me dei conta de que, entre viver de arte e trabalhar para pagar as contas, eu preferia o caminho que mais me trazia felicidade. Pedi demissão e me posicionei como artista plástica."

Descobrindo o Muralismo

"Lembro que foram os stickers do Xeréu que chamaram a atenção do meu olhar para as ruas. Na minha adolescência eu via em tudo quanto é canto as carinhas dele, mas na época não tinha ideia de quem as fazia. Ficava pensando o que ele queria dizer com aquilo e por que colar os stickers." Os muros e as paredes entraram em sua vida em 2003, quando o amigo Ramon Martins a convidou para um passeio pelas galerias a céu aberto e reabriu a visão dela para o desenho. "O Ramon um dia me levou pra conhecer uma galeria. Mal sabia eu que ele estava me levando pras ruas do centro da cidade. Daí ele me mostrou uns graffitis e me contou quem eram as pessoas que faziam. Me interessei pelo processo e começamos a pintar juntos. Foi aí que tive a oportunidade de conhecer e pintar com vários grafiteiros de Belo Horizonte e comecei a encarar a parede como um suporte para o meu trabalho."

Mesmo apresentando traços simples e muitas linhas nas paredes de BH, o processo de criar no concreto desenvolveu o traço tímido, leve e contido da artista, que encontrou no spray uma chance de inovar e ganhar a autoconfiança exibida hoje nas telas. "Quando usei pela primeira vez o spray, não tinha Montana, não tinha esses sprays cheirosinhos, de válvula macia. A válvula era muito dura e eu não tinha controle, então era uma coisa muito gestual. Eu tinha que fazer um desenho do começo ao fim, era uma coisa grande, não tinha como ficar pensando demais, não tinha como desmanchar depois. Eu tinha que ter uma postura diferente, não dava pra ficar pensando demais, era livre."

Via de Mão Dupla

Outra característica das pinturas de Raquel é a dualidade: a temática dos muros é completamente diferente do que ela apresenta em canvas. Essa dupla personalidade artística é um ponto a favor, e mostra sua versatilidade e capacidade de composição ao criar imaginários distintos para cada suporte. A maneira como ela lida com os materiais também interfere muito nas obras. A relação entre a artista e as tintas motiva as diferentes construções pictóricas em seus trabalhos.

Nas paredes, é recorrente o uso de bichos (peixes, pássaros, lobos e cachorros) em muros abandonados e destruídos, que são pintados com pigmentos, tintas próprias para parede, nanquim e outros materiais variados, como guache, acrílica, spray e carvão. Os desenhos invocam os animais como seres sagrados, lembram que também somos animais e questionam o lugar a que pertencemos. "Quando pinto em paredes, prefiro escolher lugares sujos, que têm uma memória do lugar e que tenha elementos com que eu possa interagir - seja com sujeira, manchas, arquitetura ou objetos. Uma parede branca, limpa, não me atrai. Sem falar que, quando pinto em casas abandonadas ou lugares que vão ser destruídos, sei que minha pintura vai ser destruída também, então já faço com desapego e não me cobro tanto, me permito ‘errar' mais. Dessa forma, fico mais a vontade e vou evoluindo."

Nas telas, ela exibe retratos monocromáticos a partir de fotografias que tira nas ruas ou que coleta de amigos e na internet. A pincelada matemática explora um mundo como o do animador japonês Hayao Miyazaki, em que as ideias significam mais do que aparentam. Outra característica de Schembri é fugir da feminilidade e tentar criar retratos que contenham um tom mais agressivo, para não fazer parte do clichê menininha. "Só quando fui organizar meu trabalho para fazer um portfólio é que percebi que na maioria das vezes pinto animais na rua e jovens em telas. Sei que gosto de brincar com a dualidade, que está tão presente atualmente: o caos e o silêncio, o íntimo e o distante, a natureza e o concreto, o doce e o amargo, a destruição e a criação, a duplicidade dos indivíduos."

Alemanha: Mente de Principiante

Com a intenção de repensar o trabalho que vem apresentando nos últimos cinco anos, Raquel está fazendo especialização em Munique, na Akademie der Bildenden Künste München, por meio de uma bolsa que ganhou do DAAD. Por essa escola já passaram alunos como Kandinsky, Frank Von Stuck, Paul Klee e o próprio Guignard. Fora as possibilidades de estudar com artistas  bem-sucedidos no Velho Mundo como Karin Kneffel e Gerhard Richter, ela se empolga com as transformações que vão acontecer em seu trabalho daqui para a frente.

"São tantas mudanças à minha volta que é impossível não evoluir. Tenho enxergado meu trabalho de outra perspectiva, como eu nunca tinha olhado antes. Acho que tudo isso é construtivo, é muito melhor você saber que tá perdido do que achar que se encontrou e o seu trabalho ficar sempre na mesma, não tentar outros caminhos. Acredito que a arte serve também como um convite pra despertar essas novas formas de ver as coisas, seja causando estranhamento, questionamento ou admiração. Poder dar um stop na inércia, nos vícios de pensamentos. Quando trabalho penso nisso, principalmente quando pinto nas ruas, na cidade. Quando não tô trabalhando também (risos)."

As crises realmente têm vindo para o bem, e a artista tem conseguido resolver amarras relacionadas, principalmente, à maneira como lida com a suavidade de seus traços minuciosos. Começar do zero e refazer o que já existia são os novos desafios de Schembri, que está vivendo em pleno inverno alemão na cozinha de alguns amigos enquanto procura um outro lugar para morar. A solidão e a frieza experimentadas no cotidiano em Munique se refletem nos rabiscos mais duros e insólitos que ela anda fazendo - tormentas de quem tem alma de artista.

Experiência Onírica na Coreia do Sul

Os trabalhos de Raquel já percorreram galerias brasileiras e de lugares como Itália, Montevidéu, Nova York e Londres, mas foi na Coreia do Sul que a artista viveu momentos que fizeram com que ela questionasse seus trabalhos antigos, visse a importância de valorizar a cultura de cada lugar e constatasse como a beleza plástica de um momento cria situações memoráveis. "Na Coreia, participei da exposição Haenggung Dong People, em Suwon, uma cidade perto de Seul. Fiquei lá por um mês. A cidade tem um milhão de habitantes, mas fiquei numa parte que era circundada por uma muralha construída no século XVIII. Lá é um universo paralelo. É outro ritmo, bem mais tranquilo do que do lado de fora.  É um lugar mais tradicional, a arquitetura é mais típica coreana, templos, palácios, e dentro dessa área tem uma galeria de arte, a Spacenoon, e a ideia desse projeto era a criação de trabalhos que envolvessem as pessoas da região. Participaram onze artistas coreanos, uma artista meio coreana, meio australiana, eu e um alemão. Entre fotografias, telas e vídeos, eu optei por fazer pinturas nas redondezas da galeria. Foi muito legal, pois parte do projeto era pesquisar sobre o lugar, interagir com as pessoas, e eu vi como eles valorizam a cultura e a tradição. Eu sempre via apresentações na rua de dança, música e lutas. E isso é tão rico! No mundo inteiro tá acontecendo uma diluição e desvalorização da cultura de cada lugar. É foda ver como eles mantêm a deles." Um dos momentos mais significativos para Raquel foi a reação de uma menina ao ver um dos trabalhos dela nas paredes de Suwon. "Um dia eu estava pintando e vi essa menina voltando da escola. Ela olhou pra parede e, quando viu meu trabalho, fez uma cara tão boa de surpresa. Foi tão espontâneo e foi um presente pra mim, porque eu vi que posso causar esse tipo de reação em alguém. É isso que eu acho muito legal sobre trabalhar na rua - você pega as pessoas mais despreparadas e elas te dão um retorno fundamental."

 "Um dia [na Coreia] eu estava pintando e vi essa menina voltando da escola. Ela olhou pra parede e, quando viu meu trabalho, fez uma cara tão boa de surpresa. Foi tão espontâneo e foi um presente pra mim, porque eu vi que posso causar esse tipo de reação em alguém. É isso que eu acho muito legal sobre trabalhar na rua - você pega as pessoas mais despreparadas e elas te dão um retorno fundamental."

 Saiba mais:

flickr.com/photos/raquelschembri