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Mon: 08-09-10

400CONTRA1: DO COMANDO VERMELHO AO PCC

Há um ano, Bruka Lopes entrevistou o diretor de cinema Caco Pereira de Souza para a revista +Soma. O bate-papo girou em torno da produção de um dos filmes mais polêmicos lançados neste ano, "400X1: A História Do Comando Vermelho". O longa entrou em cartaz no último dia 6 e está em cartaz nos melhores cinemas do país. Confira abaixo a entrevista com Caco publicada na +Soma 13.  

400CONTRA1: DO COMANDO VERMELHO AO PCC

 Por Bruka Lopes

O diretor de cinema Caco Pereira de Souza resolveu mexer num vespeiro. Em seu primeiro longa, vai levar para as telas a origem do crime organizado no país.


A Prisão Provisória de Curitiba (PPC), presídio desativado na capital paranaense, serviu de cenário para o diretor Caco Souza filmar sua saga. E não deve ter sido fácil encarar o desafio de contar como foi o surgimento do Comando Vermelho, organização criminosa que nasceu no Instituto Penal Cândido Mendes, mais conhecido como presídio de Ilha Grande ou Caldeirão do Diabo – uma comparação com o presídio de Caiena, Guiana Francesa, localizado na Ilha do Diabo. O aparecimento do Comando marcou o inicío de uma nova era na criminalidade brasileira. A “organização” do crime aconteceu entre o final da década de 1960 e início da de 1970, quando o governo militar, com o intuito de equiparar revolucionários e inimigos do Estado – como jornalistas e intelectuais de esquerda – a criminosos comuns, resolveu misturar presos políticos com prisioneiros que cumpriam pena pelos mais variados tipos de contravenção. O tiro acabou saindo pela culatra, já que a convivência nem sempre fácil entre esses dois grupos tão distintos, e as experiências compartilhadas proporcionaram aos detentos o contato com técnicas de guerrilha, organização, hierarquia e todo um conhecimento proveniente da caserna.


O diretor não mediu esforços para se aproximar o máximo possível dos acontecimentos reais. Além da vasta pesquisa, quem serviu como principal consultor nas filmagens foi ninguém menos que o próprio Willian da Silva Lima (o Professor), conhecido assaltante de bancos que, juntamente com Rogério Lemgruber (o Bagulhão) e Paulo César Chaves (o PC), formou o núcleo responsável pelos primeiros passos do Comando Vermelho. A consultoria de Willian em nada chamaria a atenção não fosse o fato de ele estar foragido há dois anos. Depois de ter cumprido mais de 38 anos, se somadas todas as passagens pelos mais variados presídios, Willian atualmente luta por uma revisão de pena. “Ele já é um idoso com problemas neurológicos e precisa tomar remédios controlados”, conta o diretor. “A gente se falou durante os sete anos em que tudo se desenvolveu. Nosso contato se deu muito antes de começarem as filmagens. Ele sempre me passou informações preciosas, tanto sobre a maneira como eles se organizaram durante os anos de resistência na época da ditadura, como também sobre coisas do cotidiano, sobre o dia-a-dia na prisão, informações que não só serviram para o roteiro, como também para a direção de arte, figurino, além de ser um material importantíssimo para a composição dos personagens para os atores. Ele me disse que [enquanto estava no presídio] estudava a pena do homem, que tinham grupos de estudos e discutiam sobre a situação do país”, relata. O filme se encontra em fase de montagem, com lançamento previsto para abril de 2010. Caco recebeu a +Soma para um bate-papo e falou sobre as filmagens, sobre Daniel Filho e a Globo Filmes e sobre a convivência com os prisioneiros reais que fizeram parte da figuração.


O filme tem presídio, bandidos... Você não tem medo de começar a rodar os festivais internacionais e ser rotulado como mais um filme violento vindo do Brasil?
Talvez até tenha, sim. Teve uma matéria quando a gente tava filmando que saiu no “O Globo”. Aí, quando a reportagem saiu na versão online, teve vários comentários do tipo: “Putz mais um filme de violência. Brasileiro não quer mais ver isso. Tem tanta coisa bonita pra mostrar. Pra que ficar falando nesse tema de novo e tal”. Isso tudo me fez pensar que essa temática realmente está incomodando as pessoas. No dia seguinte, tinha outro comentário: “Imagina, isso é a nossa história, isso acontece no dia-a-dia, é bom a gente saber onde começou”. Eu acho que não vai ser unânime nunca, né? Sempre vai ter uma pessoa que vai achar que o filme é violência pela violência, apenas mais um filme sobre bandidos no país. E tem gente que vai achar que é uma história pertinente para entender o estado das coisas hoje. A origem está aqui, nós é que fomos deixando de lado.

Quais suas maiores dificuldades durante as filmagens? Como foi a relação com os presos? (Prisioneiros reais trabalharam como figurantes e alguns tiveram participação maior.)
Imagina, cara. Foi um tesão. Havia muita gente e também muitas meninas no set. Foi uma verdadeira lição. Acabamos virando irmãos dos caras, foi até difícil no dia em que terminaram as filmagens em Curitiba. Foi muito emocionante. Ficou todo mundo impressionado com a sensibilidade deles. Um cara de sei lá quantos anos de cadeia, 15 anos de cadeia, um que matou, outro que assaltou, todos chorando na nossa despedida. Foi uma coisa muito, muito forte para todos e para mim.

E como foi o critério de escolha? A produção do filme participou?
Não. Só a Secretaria de Ações Penitenciárias do Paraná. Eles usavam um critério assim: não tinha estuprador e não tinha pedófilo. Esses caras não saíam do presídio. Mas tinha traficante, assaltante de banco, assassino e tal. Porra, foi muito prazeroso e impactante. Problemas qualquer filmagem sempre tem. Estava até comentando com a Sara [Valar, assistente de direção], com o Bernardo [Zortea, diretor de arte] e com o Rodolfo [Sanchez, diretor de fotografia] que quando a gente rodava a câmera era um tesão, uma delícia, porque as coisas fluíam, sabe? Todos os atores, o Daniel [Oliveira], a Daniela [Escobar], a Branca Messina, que fez o “Não por Acaso”, o Fabrício Boliveira, o Jefferson [Brasil], o Lui Mendes. Pô, foi do caralho, [formamos] um grupo muito fechado e a fim de que as coisas acontecessem, sabe? E ninguém media esforços pra nada. O Daniel, no segundo dia de filmagem, estava com um galo enorme na cabeça. Bateu a cabeça em outro ator. Se é um cara fresco, que não está a fim do negócio, logo começa a dar problema.

Teve algum dia em que você achou que alguma coisa ia ser muito complicada de resolver?
Nada, nada. Com o elenco e com a equipe nunca teve nada, pelo contrário, foi muito prazeroso. Acho que o mais difícil mesmo foi a fase anterior, que é a de conseguir levantar grana pra filmar. Também a fase que nós nos encontramos agora, que é a de conseguir o resto do dinheiro pra finalizar o filme.

“O 400contra1 é como se fosse o berço desses outros filmes, do Cidade de Deus, do Tropa de Elite, do próprio Carandiru”

 Onde entra a Globo filmes? Eles apoiaram?
Eles entraram e isso foi sensacional. Acredito que muito se deva também ao fato de eu ter conversado um bom tempo com o Daniel Filho, que acompanhou todo o projeto por parte da Globo Filmes.

É ele quem aprova os projetos?
Não, eles têm uma comissão que seleciona os projetos e encaminha para os consultores, que são ele, o Guel Arraes... Enfim... E aí, no meu caso, o filme acabou indo para as mãos dele, e pra mim foi muito importante, foram muito produtivas as conversas que tivemos sobre o roteiro, sobre o filme.

 E como foi trabalhar com o Daniel?
O cara conhece muito, né? Conhece muito de cinema, de mercado. Foi uma aula pra gente.

Como você vê os filmes atuais dele? Acha que ele encontrou uma maneira de fazer blockbusters brasileiros? Um nicho ou algo assim?
Eu acho que tem filme que cai no gosto popular e tem filme que não cai. Não existe receita. Quantas comédias a gente fez até hoje? Mas quantas deram certo? Quantos filmes violentos a gente fez? E quantos deram certo? E não é certo falar que o Daniel é um cara que só faz comédia, ele faz outros filmes, como “O Primo Basílio”, que tem a ver com comédia, com drama.

“Essa noção de que as pessoas têm que ter disciplina para realizar as ações, fossem assaltar bancos ou prestar uma solidariedade ao companheiro que estava preso

Para encerrar, o que diferencia “400contra1” dos demais?
A diferença fundamental é que estamos falando de um momento histórico, da formação de um grupo. De certa forma, é um filme sobre a resistência, sobre gente que tinha informação. Não era um bando de tresloucados que pegava fuzis e saía atirando a esmo. Os caras tinham uma puta bagagem. Eles liam na cadeia. Talvez tivessem mais informação do que boa parte da classe média brasileira na época. Mais visão de mundo, uma visão global. Na passagem do Willian comigo, ele me disse que estudava a pena do homem, que [os presos] tinham grupos de estudos e discutiam a situação do país. Tinha essa marca forte de esquerda. Na verdade, se for parar para pensar, o “400contra1” é como se fosse o berço de filmes como “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”, “Carandiru”. Do próprio Sérgio Rezende, que fez o filme Salve Geral, sobre os ataques do PCC. Porque ali é o início de tudo, e é com o grupo do Willian que começa essa coisa da organização, a noção de coletivo, de que as pessoas têm que ter disciplina para realizar as ações, fossem assaltar bancos ou prestar solidariedade ao companheiro preso, à família do cara, essas ramificações. Isso fortaleceu o grupo. Essa noção é uma das diferenças fundamentais da ideia do grupo do Willian e desse filme. Não que os outros sejam melhores ou piores, não é isso que eu quero dizer, mas essa é uma diferença básica dessa história para as outras.

Veja o trailer do filme abaixo: