(Quem Soma publicado na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Por Natalia Lucki
Pablo Capilé dificilmente passa despercebido. Coordenador nacional do Circuito Fora do Eixo e vice-presidente da ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes), ele está presente nas mais acaloradas discussões sobre a música independente no país. Nascido em Cuiabá em 1979, teve uma infância incomum. Seus pais se conheceram enquanto trabalhavam no extinto MOBRAL (programa do governo para alfabetização de jovens e adultos). A mãe era assistente social e o pai, formado em História, viajava pelo interior do estado criando hortas comunitárias. “O que uniu os dois foi a vontade de construir. Não vi brigas tradicionais de pai e mãe, os conflitos eram ideológicos.” O orçamento familiar não permitia extravagâncias, mas Pablo sempre estudou nas melhores escolas da cidade.
Durante a infância, entre o ambiente familiar proletário e o mundo pequeno-burguês escolar, destacava-se por seu espírito de liderança. “Meus amigos estavam mais preocupados em ver TV e brincar do que em ler.” Mais tarde, trocou o curso de Direito pelo de Comunicação e, meses depois, se tornou líder do curso. Seu grupo foi responsável pela aproximação da universidade com o setor cultural, e logo eles chamaram outras universidades do estado para organizar uma ação coletiva. Em parceria com elas, criaram o 1º Encontro Regional de Estudantes de Comunicação, o ECOS. Além das discussões do curso, o grupo promoveu shows com bandas locais e, apesar da grande adesão, eles perceberam que só conseguiriam manter os alunos estimulados se realizassem eventos como esse mensalmente. O movimento estudantil já não era mais o mesmo. “A luta era da década de 1980. Nos anos 90, ou era oba-oba ou muito panfletária.” Era necessário criar uma base de trabalho fora da universidade.
Seguindo os moldes do ECOS, os estudantes criaram em 2001 o primeiro festival Calango, do qual participaram apenas trabalhos autorais. Para dar visibilidade à iniciativa, convidaram Tadeu Valério, executivo da Paradoxx music, então umas das maiores gravadoras do país. “Na época, a gente ainda acreditava ingenuamente que o rumo da música brasileira passava pelas grandes gravadoras”, ele revela. Mas, ao contrário do que imaginaram, Valério fez duras críticas à iniciativa, ao dizer que mesmo que as bandas tocassem músicas autorais no festival “continuariam a fazer covers em barzinhos para ganhar algum dinheiro no resto do ano”. O comentário gerou uma série de discussões, e eles perceberam que precisavam pensar maior. Das 50 pessoas que começaram o projeto, restavam somente cinco dissidentes. Todos largaram o trabalho e venderam o que tinham para se dedicar integralmente. Formaram o coletivo Cubo Mágico, que oferecia um estúdio para ensaio de bandas locais. A cena local, estagnada desde a década de 80, começou a se mexer novamente. A garagem do Estúdio Cubo virou um palco para shows – a Cubo Eventos. Para a divulgação, surgiu a Cubo Comunicação. Já para atender às bandas que queriam gravar, fundaram a Cubo Sonorização, após a fusão do estúdio de ensaio com o de gravação. Logo surgiu também a Cubo Discos e, em 2002, o coletivo atendia todas as frentes de trabalho do cenário musical.
No quinto mês de trabalho, a falta de dinheiro levou o grupo a enxugar gastos. O Cubo então se tornou um coletivo de tecnologia social e se aproximou dos ideais da economia solidária. “Nosso lance era entender o sentido antropológico de cultura”, define Pablo. Mas, ainda que o Cubo estivesse cada vez mais sólido, os artistas ainda não recebiam nada. O coletivo, então, criou um sistema de remuneração alternativa, baseado em estudos de troca solidária: o Cubo Card. As bandas que tocavam no espaço poderiam trocar o valor de seu cachê por horas de ensaio, gravação ou até ingressos para shows. No início, o Cubo Card funcionava somente para serviços internos. Com o tempo, passou a incluir mais opções e chegou à iniciativa privada. Hoje, oferece plano de saúde, auxílio-farmácia e supermercado. A expansão da moeda gerou novas parcerias, com produtores culturais de Rio Branco, Uberlândia e Londrina. Em 2005, finalmente, surgiu o Circuito Fora do Eixo, rede de coletivos que estimula a circulação de bandas, tecnologia e produtos. Atualmente, o circuito está presente em 21 estados, agrega 47 coletivos e envolve diretamente mais de 500 pessoas.
Pablo foi o primeiro da rede a sair de seu coletivo para formar a liderança nacional. Como coordenador nacional do Fora do Eixo, mora na casa Cubo, em Cuiabá, com mais duas pessoas. Nenhum dos três recebe salário, os gastos comuns são feitos em estabelecimentos parceiros, o caixa é coletivo e as atividades se dividem entre festivais, debates sobre políticas públicas e a conciliação de interesses de jornalistas, bandas e poder público. Apesar de ter uma posição de destaque no grupo, Capilé defende a renovação das lideranças, por acreditar que conquistou todos os desafios possíveis na sua gestão. “O objetivo agora é fortalecer as bases”, define. Capilé acredita já ter um grande número de lideranças capazes de assumir as discussões. Para que ele saia do papel de figura principal, o Cubo já trabalha na capacitação de pessoas e pretende forçar uma movimentação de alternância de poder, para reforçar a postura horizontal do movimento.
A mudança também envolve sua posição na ABRAFIN. Considerado o mais provável sucessor da presidência, ele não pretende se candidatar na próxima eleição, pois acredita que não há sentido em ocupar um papel de liderança em discussões sobre música, já que a partir de julho de 2011 o Fora do Eixo se concentrará em outros gêneros artísticos. “Temos que estruturar o que já foi construído. Não há mais muita coisa a ser inventada [na cena de música independente].” Apesar disso, Pablo Capilé não tem um plano definido para o futuro. A decisão, mais uma vez, caberá ao grupo. Enquanto isso, ele concentra suas forças em se especializar na gestão de pessoas e corrigir possíveis distorções da ação coletiva.
Saiba mais:
www.foradoeixo.org