(Entrevista publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Entre o Sonho e a Realidade
Por Marina Mantovanini . Foto Fernando Ferreira Martins
Arte naïf e pop são as palavras-chave para entender o trabalho da porto-alegrense Carla Barth. Apesar de seus quadros não se encaixarem categoricamente em nenhum dos dois estilos, a artista procura portas para criar uma conversa entre eles. Carla é contemporânea justamente por conseguir, de maneira erudita, trazer referências do imaginário folclórico e popular da arte naïf e misturá-las às influências de artistas oriundos do universo dos quadrinhos, como o gaúcho Jaca. Carla é uma compositora, cada pincelada sua cria cenários oníricos e ricos em cores, e a coerência em sua produção plástica faz com que ela já tenha um corpo de trabalho solidificado.
Como você se aproximou das artes plásticas?
Meu pai se formou em arte, e o forte dele era a serigrafia. A minha mãe se formou em desenho no Instituto de Artes de Porto Alegre, mas também fazia escultura, e foi quem me iniciou. Antes de a minha mãe fazer artes, fez um curso de magistério – ela tinha um jeito de professora, me incentivava, me apresentava as técnicas. Sempre fui estimulada, participava dos concurso de arte quando era criança, mas naquela época ainda não tinha base e conteúdo.
Você sempre diz que cresceu no ateliê dos seus pais. Fale um pouco sobre essa experiência.
Eles alugavam um ateliê com mais dois artistas. Era uma casa muito grande, e eu passei a minha infância lá. Cada um tinha a sua sala e fazia um tipo de trabalho. Minha mãe sempre me apresentava novas técnicas: pintura, escultura, desenho, e eu ficava observando o trabalho de cada artista. Tinha o Cabral, que pintava a óleo, era um artista bem conceituado em Porto Alegre. Mas, mesmo vivendo assim, meus pais não queriam que eu fizesse arte como profissão.
Por quê?
Eles achavam que eu tinha que estudar direito ou arquitetura e fazer cursos com artistas bons. Mas como curso superior optei por turismo. Eu sabia que não me encaixava, aí estudei dois anos, tranquei e resolvi fazer alguns cursos de arte no Atelier Livre da Prefeitura, que eram muito bons. Estudei escultura, desenho de observação e fiz história em quadrinhos no Museu de Comunicação de Porto Alegre. Aprendi luz e sombra, perspectiva, todas essas coisas me deram uma base. Aí resolvi voltar para o turismo, desencantada com a profissão, mas foi lá que eu despertei para as artes.
Foi lá que você conheceu o Guilherme Pilla, do Upgrade do Macaco?
Sim. Eu fiquei sabendo que na faculdade tinha um cara que desenhava e tinha um desenho muito forte, com uma pegada muito original, autêntico numa época que ali ninguém fazia nada. Decidi que precisava conhecê-lo, ficamos amigos e eu conheci toda a galera do Upgrade. Eles se reuniam, faziam umas colagens, uns zines, criavam uma cena em Porto Alegre, e eu queria fazer parte. Eles me apresentaram outras referências, comecei a ler sobre terrorismo poético, toda uma arte de intervenção. Foi aí que eu despertei para o mundo, e que meu trabalho começou a ganhar corpo. O Guilherme me ensinou a colocar ideias no papel, ele tinha muita disciplina, e eu passei fazer arte o dia inteiro. Quando ficava cansada ele falava: “vai desenhar, tem que desenhar”. No começo eu não desenhava nada, mas com o tempo fui ganhando profundidade.
Além do desenho, você também fazia esculturas.
Comecei a fazer esculturas porque queria fazer coisas diferentes e porque não dominava a técnica da pintura. Comecei quase na mesma época em que a surgiu toy art, mas o que eu fazia não era toy art, e sim esculturas. Eu tinha muita referência japonesa, pesquisava na internet o que os japoneses estavam fazendo, gostava muito de quadrinhos e animação, esses personagens mitológicos, e comecei a fazer as esculturas meio artesanais. Aí fiz uma exposição em 2005, na extinta Galeria Adesivo, criei uns totens de papel machê e, depois dessa mostra, no ano seguinte, fiz uma exposição na Galeria Melissa. Foi a partir daí que o meu trabalho começou a ganhar visibilidade.
Quando a pintura começou a rolar?
A Galeria Choque Cultural me abriu as portas desde que eu vim morar aqui, há dois anos. A primeira individual que apresentei na Choque eram telas feitas com canetão. Só que com o tempo temos que melhorar a qualidade tanto técnica quanto de material, e eu sei que o canetão desbota. Nesse período de profissionalização, eu comecei a investir na tinta e nas telas, mas sem abandonar o desenho. De vez em quando eu ainda crio com nanquim.
E a história do automatismo psíquico no seu processo de criação?
Foi o Guilherme que me ensinou a criar no automatismo psíquico. A criatividade nasceu quando eu comecei a desenhar e trabalhar com o meu inconsciente e soltar a minha imaginação. Era meio um estado de sonho, soltava as ideias livremente. Mas agora não tenho usado muito essa prática, porque antes eu era uma desenhista, fazia canetão na tela, podia fazer no automatismo. Hoje para pintar eu tenho que pensar no que vou fazer, porque preciso contar uma história, é muito mais difícil fazer algo mais insano. A tela é um processo demorado pra mim. Penso mais na composição, crio uma história. Hoje meu processo de criação é mais estruturado. Ainda consigo dar uma desorganizada, mas estou feliz com o meu trabalho.
O tom surrealista do seu trabalho está ligado a esse inconsciente?
Sim, com certeza. São duas coisas trabalhando: a síntese do acúmulo de conhecimento, que vai criando seu banco de dados mental – e eu consulto esse banco –, e também os meus sonhos, porque parte de mim está sempre sonhando, no mundo da imaginação. Eu não me desligo desse imaginário.
Você vê algo da arte dos seus pais nos seus quadros?
Vejo. O desenho da minha mãe, por exemplo, era muito figurativo, e eu tenho essa fixação no figurativo. Já o do meu pai era totalmente arquitetônico: usava fotos, as serigrafias eram ruas, edifícios, casas vazias, solitárias, com muitas texturas. Minha mãe também gostava muito de textura, e eram imagens um pouco surreais e bem caóticas. Eu comecei fazendo desenhos assim. Acho que tem mais coisas da minha mãe mesmo.
Como você cria esses personagens antropomórficos?
Eles vêm da síntese do conhecimento e do meu imaginário. Tudo é influência, tudo é leitura. Quando começo a ler, começo a me conhecer e me aprofundar. Li muito Gustav Jung, Joseph Campbell, pessoas que conhecem o pensamento humano, o inconsciente coletivo, e fui me aprofundando no meu inconsciente e conhecendo esses personagens. Hoje em dia, por exemplo, o cineasta Alejandro Jodorowsky é um dos caras de direção de arte que eu mais admiro, ele faz um surrealismo místico muito interessante. É mais ou menos essa linha que sigo no meu trabalho.
Você tem usado menos cores em suas telas. Por que essa transformação?
Ainda em Porto Alegre, conheci uma outra galera mais nova. Comecei a frequentar a casa do Luciano Scherer, meu namorado há dois anos, com quem eu moro em São Paulo, para desenhar junto com um pessoal – Talita Hoffman, Herman, Luisa Ritter. A gente se reunia umas duas vezes por semana, e o Luciano era disciplinado e usava poucas cores nos quadros dele. Ele pira muito mais em uma arte clássica, gótica. Foi uma outra inspiração pra mim, comecei pintar de outra maneira. Mudou tanto a composição como o uso das cores. Antes eu não tinha limites para a cor, hoje uso menos. Acho que fica mais harmônico.
Seus quadros têm traços fortes do folclore brasileiro, as texturas e cores bem características da estética naïf, no estilo do Henri Rosseau.
Eu tenho um guia sobre arte brasileira, e desde pequena meus pais me levavam em feiras de artesanato, compravam peças, valorizando a cultura nacional. Tenho muita referência, mas não acho que vou fazer uma coisa parecida, é outra pegada, não só no acabamento. Eu sou super brasileira, mas não sou arte naïf porque não consigo ser tão crua, não consigo fazer um pé de tamanho desproporcional sem ser de propósito, sem ter pensado nisso. Eu penso nas proporções. Mas, ao mesmo tempo, não faço arte conceitual, sou muito mais neo naïf. Acho que a arte, acima de tudo, tem que causar uma sensação.
Saiba mais:
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