Neste tempo de poucos (re)lançamentos históricos no país, a combalida indústria finalmente colocou no mercado um conjunto de álbuns que sintetiza o brilho de um artista que sempre esteve um passo adiante de todos os seus pares. Jorge colocou o negro em evidência como assunto pop na música brasileira, reinventou das formas mais absurdas a maneira de fazer declarações de amor, fez o samba virar rock sem trair nem um nem outro e recriou a maneira de tocar violão (“ele tem uma escola de samba inteira na mão direita” teria dito Gilberto Gil, outro mestre do instrumento).
O poder de contaminação da estética de Jorge Ben é polivalente e paradoxal, tornando-o, em um país prenhe de músicos superlativos, uma admirada e linda pedra no caminho da música popular, que, por mais estudada que seja, guarda algum segredo não revelado – tal qual os alquimistas e o misticismo inocente/criativo da sua trinca sagrada “Tábuas de Esmeraldas” (1974), “Solta o Pavão” (1975) e “África Brasil” (1976). E é bom que se diga: muitos artistas pernósticos atuais podem discorrer sobre sua própria genialidade e sua inserção na tradição e quetais, mas nunca chegarão ao arranjo estético e conceitual que os três álbuns oferecem. Isso sem falar da vocação inigualável das canções de Jorge Ben para as multidões.
Além da remasterização de todos os discos e da fidelidade canina aos projetos gráficos originais, a caixa traz todas as letras e textos breves e elucidativos da jornalista Ana Maria Bahiana para cada um dos trabalhos. Do revolucionário “Samba Esquema Novo” (1963) até o já citado “África Brasil”, são incontáveis os hits com cara de revolução musical, como “Mas Que Nada”, “Chove Chuva”, “Charles Anjo 45”, “O Telefone Tocou Novamente”, “Os Alquimistas Estão Chegando”, “Errare Hummanun Est”, “Jorge Well” (um iê iê iê psicodélico), “Comanche”, “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” – tema baseado em uma insana releitura de riffs de Chuck Berry –, e as belíssimas e menos conhecidas “Porque é Proibido Pisar na Grama”, “Toda Colorida”, “Paz e Arroz” e “Jesualda”.
Como se não bastasse, há também o incrível encontro entre Jorge Ben e Gilberto Gil de 1975 – uma apresentação descontraída e hipnótica dos dois para recepcionar o guitarrista Eric Clapton, que, boquiaberto, exigiu da gravadora a gravação de um álbum com ambos. No CD duplo de raridades e inéditas, há pérolas como o “Hino do Flamengo”(homenagem ao seu time do coração), “Cosa Nostra”, “Você Não é Maria Mas é Cheia de Graça”, “Maria Luiza” e “Mano Caetano”, gravada com Maria Bethânia. Lançamento do ano, trata-se de uma coletânea fundamental para entender o potencial de uma música popular e realmente criativa. Compre agora, sorria depois.
Por Arthur Dantas