(Seleta publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Coisas que gostamos de guardar
Especial Copa do Mundo
Por Mentalozzz “radiola com pitch acelerado”, com assistência técnica do Dr. Jacob Pinheiro Goldberg.
O formato já foi usado até pelo governo do estado de São Paulo como fonte de aumento de arrecadação (tipo nota fiscal paulista) na década de oitenta, com a “Turma do Paulistinha”. Trocava-se notas fiscais por pacotinhos de figurinhas e páginas completas por prêmios, prática hoje proibida. O álbum de figurinhas é porta de entrada do mundo do colecionismo para muitos, e que atire a primeira pedra quem nunca colecionou um e não suou a camisa para completá-lo, trocando as figurinhas repetidas ou lambendo a palma da mão em um lapso de desonestidade durante uma disputa de bafo.
Já que estamos em ano de Copa, e o álbum de figurinhas da África do Sul 2010 bombou – a ponto de roubarem um carregamento inteiro –, a Seleta resolveu falar com o desembargador e professor Moacir Andrade Peres, não porque queremos saber a pena para o crime de roubo de figurinhas, e sim porque ele é um guardador de álbuns de figurinhas de Copas do Mundo.
Colecionar álbuns é como colecionar coleções, e a coleção do Moacir é a mais bonita que já vi.
Quantos exemplares existem na sua coleção?
Em torno de 600, além dos repetidos. Eles são a melhor moeda para troca nesse mercado.
Qual foi seu primeiro álbum?
Foi o álbum esportivo “Quigol”, lançado em 1960.
Por que você começou a colecionar álbuns de futebol?
Comecei quando resolvi resgatar esse primeiro álbum de futebol que colecionei na infância. Na busca por ele acabei comprando um pequeno lote de álbuns e percebi a importância do trabalho gráfico contido nos exemplares. Hoje os álbuns são muito repetidos, mas antigamente eles mudavam tudo de uma Copa para a outra: a diagramação, as figurinhas – feitas ora de desenhos, ora de fotografias, caricaturas, charges, lances de jogo e mascotes. Os álbuns eram a única forma de a garotada ter uma identidade com os ídolos.
Você tem algum critério para organizá-los?
Minha atenção é voltada mais para o período entre 1938 e 1960, e especificamente os álbuns “Balas Futebol”, da Fábrica de Balas A Americana, porque, além de lançarem álbuns por 20 anos ininterruptos, contaram com dois grandes artistas gráficos, já falecidos – Nino Borges e Miécio Caffé –, que participaram da elaboração das capas e da diagramação dos álbuns.
De qual álbum você mais gosta?
De um de 1945, com 11 times de São Paulo e seis do Rio, que é todo em caricaturas dos jogadores feitas pelo Nino Borges. Foi ali que os mascotes dos times apareceram pela primeira vez.
Existe algum álbum ou figurinha que você cobiça mas ainda não achou?
Sim, os álbuns das “Balas Futebol” de 1957, 1938 e 1946.
Sobre os álbuns de Copa do Mundo, qual o mais importante da sua coleção?
O da Copa de 1950 é o primeiro que foi lançado aqui, e marcou a entrada do Miécio Caffé no lugar do Nino Borges na diagramação. Vale uma nota no Ebay.
Alguma história engraçada ou curiosa sobre a coleção?
Não sei precisar o ano, mas durante a década de 1920 algumas figurinhas vinham em maços de cigarro. No lugar onde hoje existem aquelas fotos assustadoras que ilustram os malefícios do tabagismo, na época vinham os grandes ídolos do esporte. Quase um incentivo ao tabagismo mirim imagine as crianças comprando maços de cigarro aos montes para ter os craques na palma da mão. Outra curiosidade é observar que as páginas que davam direito a prêmios pomposos, como uma lambreta, nunca estão completas, sempre falta uma figurinha. Suspeita-se que eram editadas em pequenas tiragens ou que nem existiam. Já as páginas que davam direito a prêmios simples, como uma bola de plástico, apesar de completas, não eram trocadas pelo brinde, porque a página seria inutilizada com um furo, o que não compensava diante da mediocridade do prêmio.
Coleciona algo mais?
Sim, o principal é ter estendido a coleção e possuir os originais dos cartazes do Miécio Caffé que eram colados nos bares e nas bancas. Era neles que o personagem Futebolino anunciava a chegada dos álbuns para a “petizada” (garotada).
Parecer do Dr. Jacob Pinheiro Goldberg:
“O colecionismo de figuras humanas, como as de jogadores de futebol, tem muito a ver com a necessidade de projeção das inúmeras personalidades que carregamos dentro de nós. Cada um de nós é uma porção de figurinhas – ou, para usar o conceito de Fernando Pessoa, somos uma série de heterônimos. A alegria de encontrar uma figurinha rara é a alegria de encontrar uma parte de si mesmo. Estamos todos em busca dessa coleção para integralizar nossos pedaços, nosso fragmentos.”
Saiba mais
Fique atento às exposições de parte do acervo do Moacir no Museu do Futebol.