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+HIGHLIGHTS
Mon: 07-26-10
+ENTREVISTA: Girls, Por Mateus Potumati
(Entrevista publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.) Por Mateus Potumati e fotos por Fernando Martins Ferreira
A história é um conto de fadas tão clássico, que eu não vou pegar mal se você preferir confirmar em outras fontes. Mas, se achar que eu mereço um voto de confiança, pode acreditar: a vida de Christopher Owens é uma espécie de remake underground de “Cinderella”. Vários lugares já a contaram em detalhes, por isso vou só resumir aqui. Abandonado pelo pai antes de nascer, Owens vagou pelo mundo (América Central, Ásia, Europa) com a mãe, adepta da seita cristã fundamentalista Children of God. Viveu miseravelmente até ter idade para deixar a mãe e voltar aos EUA. Lá, levou uma vida white trash típica: sub-empregos, destino errante, falta de perspectivas, drogas. Até que, enquanto morava no Texas, conheceu um milionário. Percebendo a inquietação artística do garoto, o homem o adotou. A amizade com o mecenas fez o talento de Owens desabrochar. Mudou-se para San Francisco, onde conheceu Chet “JR” White, um californiano bem nascido e talentoso. Os dois se tornaram unha e carne, caíram na esbórnia da cidade-berço da contracultura e montaram uma banda. No ano passado, essa banda, o Girls, lançou seu primeiro disco, “Álbum”, uma pérola lo-fi que resgatou o shoegazer de um Spiritualized com um inesperado upbeat à Beach Boys. O sucesso foi instantâneo e estrondoso, puxado pelo hit “Lust For Life” e seu clipe ultra-polêmico.
Em passagem pelo Brasil para uma série de shows em junho, Chris Owens e JR falaram com a +SOMA sobre suas músicas, histórias de vida e sobre o tal clipe, com a simplicidade e honestidade de quem não perde muito tempo se preocupando com o que os outros pensam.
Li em alguns lugares que “Laura” é uma música para uma ex-namorada. Seria a música mais ensolarada já escrita para uma ex. Por que você escreveu essa letra?
Chris . Na verdade, ela não é uma ex-namorada, é uma amiga. Nós brigamos por causa de outra pessoa, basicamente. Éramos amigos num dia e no outro não éramos mais. Compus a música pra pedir que ela voltasse a ser minha amiga. Achei que era uma ideia legal, não sei por que as pessoas pensam que ela era minha namorada.
E funcionou?
Chris . Sim, somos amigos até hoje. Funcionou muito bem. (risos)
Outra música que eu acho interessante é “Hellhole Ratrace”, que tem essa levada shoegazer e uma letra meio lamentosa, mas que não se leva muito a sério. A guitarra começa com um efeito chorus quase brega, estilo anos 1960, e no final entra uma distorção noise no talo.
Chris . Exato. Tem um momento, não na letra, mas na entonação vocal, em que eu tiro um pouco de sarro de mim mesmo. No começo da música eu falo sobre estar meio deprê, mas no refrão eu falo sobre não aceitar isso. São duas ideias na mesma música.
A música que tornou vocês famosos de verdade é “Lust For Life”, que tem a ver com amizade e encontrar as pessoas certas. A banda nasceu de uma amizade forte entre vocês dois, que têm histórias de vida bem diferentes. Vocês se conheceram em San Francisco, certo?
JR . Isso, nos conhecemos por um grupo de amigos em comum. Quando me mudei para lá, de Santa Cruz, eu não tinha nenhum amigo. O Chris, quando veio do Texas, também não. Eu fui mais ou menos assediado (risos) por um grupo de garotas muito talentosas, e elas eram loucas, as pessoas mais engraçadas que eu conheci naquela fase da minha vida. Viraram minhas melhores amigas. E com o Chris foi mais ou menos a mesma coisa! Elas tinham um olho bom pra gente interessante, sei lá (risos). Aí, começamos a andar com um mesmo grupo de seis pessoas de San Francisco. Eu e o Chris sempre trabalhamos, e eles eram de umas famílias ricas da cidade.
"Eu cheguei a pensar que estávamos desconstruindo o pop e o rock, mas só estávamos fazendo música com o que tínhamos”
Em que ano foi isso?
JR . 2005. A gente basicamente trabalhava e festava o tempo todo. E esse povo sabia tudo de San Francisco. Conseguiam entrar nas festas, sabiam qual casa tinha banheira (risos). Foram dois anos incríveis, e foi assim que eu e o Chris nos conhecemos. Conversávamos sobre música, íamos a shows, mas nunca tínhamos falado sobre fazer música até que o Chris começou a compor músicas e me pediu umas dicas sobre gravação. Eu já tinha gravado bastante coisa e tinha muito equipamento.
Você estudou música, né?
JR . Estudei engenharia de som, só. Gosto de fazer, mas não sou louco por isso. Fiz o curso porque, aos 16, pensei “Porra, não vou virar um músico famoso!”, e eu não queria fazer faculdade. Então foi meio que a faculdade do rock (risos). Aí começamos a gravar as músicas do Chris, e percebemos que as músicas eram muito legais, mas o equipamento não. Precisávamos comprar algo melhor, e aí eu achei um gravador de rolo muito legal dos anos 1980, quase de graça. Gravamos o disco inteiro nele, nos nossos quartos, na casa dos meus pais em Santa Cruz e em algumas salas de ensaio, com equipamento de outras bandas. Quebramos um monte de equipamento dos outros, fomos expulsos de vários estúdios (risos). E aqui estamos nós.
Sempre foram só vocês dois?
JR . O Garett Godard, nosso baterista atual, tocou em cinco músicas. Nós gravamos ele com uma bateria eletrônica para preencher outras faixas em que eu não estivesse confiante com o meu desempenho na bateria. E nas outras somos nós tocando bateria. Se você reparar, em algumas músicas não tem bateria, é só alguém batendo numa caixa ou chacoalhando um ganzá. Eu cheguei a pensar que estávamos desconstruindo o pop e o rock, mas só estávamos fazendo música com o que tínhamos. Também teve o Tom Marzella, um baterista incrível que tocava com o Stuart Murdoch, do Belle and Sebastian. Ele estava sempre por perto e tinha uma energia muito legal. Ele gravou “Morning Light”. San Francisco foi muito importante pra gente, porque conhecemos muitas pessoas, e já passou tanta gente pela banda que sempre temos muitos amigos por perto.
Bem ao estilo de San Francisco, quase um happening.
JR. Não diga hippie! (risos) Todo mundo gosta de dizer que as bandas de San Francisco são hippies. San Francisco é um lugar lindo, mas é caro e tem poucos lugares para tocar. Não dá pra tocar em casa, porque elas são grudadas umas nas outras, o povo reclama. E todo mundo mora de aluguel. É uma cidade difícil para ter uma banda. Nova York também é difícil, mas tem muita gente e vários lugares para tocar. San francisco é pequena, cara e ninguém tem carro. E não tem grandes clubes.
Não se ouve falar de muitas bandas indie de San Francisco.
JR . Nós somos uma banda indie só porque as pessoas nos chamam assim, e porque o Pitchfork escreveu sobre a gente. Tenho muito problema com o termo indie rock. Serve pra todas as novas bandas que saem em blogs, mas é só música nova. A maior parte é muito derivativa, e boa parte do mainstream hoje é composto por bandas de indie rock.
“Eu estava no quarto quando rolou a filmagem. Nunca tinha visto dois homens fazendo sexo antes, mas não me chocou nem um pouco. Eles parecem tão apaixonados. Todo mundo, os câmeras e tal, ficaram rindo o tempo todo”
Vocês ouvem bastante música nova, ou mais velharia?
JR . A gente ouve de tudo. Ontem, aqui no Brasil, ouvimos uma música do Lady Antebellum que é do caralho. É uma banda tosca de Nashville, mas a gente não parou de cantar a música hoje (risos). Eles já venderam 10 milhões de discos, é aquele tipo de merda que é ruim e boa ao mesmo tempo. Estou sendo bem honesto e subjetivo sobre o que gostamos. As pessoas não deveriam ser tão críticas em relação a arte e música. Se você bate o pé ouvindo, vale dar uma atenção. Acho que o problema com a música hoje é que não há equilíbrio. As rádios [dos EUA] só tocam as mesmas 5 músicas dos Beatles e um monte de Beyoncé e tal. Eu acho ótimo, mas não existe variedade.
Chris, tem aquela história incrível do milionário que te adotou, quando você ainda morava em Amarillo. Como um milionário chega em você e diz “eu quero te ajudar”?
Chris . (risos) Não é algo que acontece o tempo todo, mesmo. O nome dele é Stanley Marsh 3. Ele é aquele cara mais velho que gosta de andar com gente jovem, sabe? Mantém o interesse dele pela vida, dá energia. Ficamos amigos pessoais primeiro, o que por si só já é raro. Quantas vezes você encontra alguém que chama de melhor amigo? Ele é bem velho, mas nossas ideias batiam em vários sentidos. Daí, eu precisava de um emprego, e ele trabalhava em algo que eu poderia fazer bem.
O que era?
Chris . Ele faz vários projetos públicos de arte.
Foi aí que você decidiu ser pintor?
Chris . Isso. Era nisso que eu me interessava antes. Mas eu não me achava muito bom...
Você chegou a expor?
Chris . Sim. As pessoas gostavam, até vendi alguma coisa. Mas, pessoalmente, nunca achei que era bom. Ser pintor é ter boas ideias. Já foi algo baseado em técnica, mas aí um grupo de pessoas veio e disse “não importa a técnica, o que importa são as ideias”. E eu nunca tive ideias muito boas para pintura. Fiquei até com vergonha de continuar.
E aí você foi para a música.
Chris . Veio de um desejo de fazer algo. Tentei aquilo e não funcionou.
Você acha que ter cantado no coral do Children of God teve alguma influência na sua forma de cantar ou compor?
Chris . Não, absolutamente nenhuma. Isso é uma coisa totalmente nova, minha influência principal foi o Ariel Pink. Devo ter chupado umas ideias dele (risos). Essa coisa de rir de si mesmo e tal. Mas nosso som não tem nenhuma semelhança. E o resto é uma mistura gigante de outras pessoas. As letras são todas de experiências de vida bem recentes. Nunca sentei e compus uma música sobre a minha infância ou sobre outra época da minha vida. É a minha forma de manter um diário. Acontece algo importante e você quer escrever a respeito.
Queria falar um pouco sobre a versão explícita do clipe de “Lust for Life”. Não sei se vocês fizeram com o objetivo de provocar, mas certamente sabiam que seria provocativo. Além disso, como vocês não eram conhecidos, algumas pessoas pensaram que vocês fossem uma banda gay...
JR . Mas nós somos uma banda gay! (risos)
Por que vocês decidiram ser tão explícitos? (Uma sequência mostra cenas íntimas de um casal de namorados homossexuais)
Chris . Somos assim com tudo. Não censuramos as letras de forma alguma, não decidimos antes o que vamos falar em entrevistas. Quando fomos à Inglaterra, dissemos à imprensa que usávamos drogas e foi uma merda. As pessoas perguntavam por que tínhamos dito aquilo. A gente só sabe falar da nossa música dessa forma, contando a verdade. Com o vídeo é a mesma coisa. Pensamos: “vamos fazer um clipe que mostre nossos amigos fazendo o que quiserem”. Nós literalmente entramos na casa deles com as câmeras. É a mesma ideia. Aconteceu, nós gostamos. Se as pessoas não gostam, elas provavelmente não deveriam ouvir a nossa música.
Vocês tiveram alguma resposta em relação àquela cena específica?
JR . Acho que ninguém hoje em dia tem coragem de dizer que algo como aquilo é ruim. É uma cena tão boba, especialmente da forma como apresentamos. Nós não estavamos pensando em nada, só dissemos “façam o que quiserem”. E os dois caras fizeram aquilo porque é o jeito deles, eles são muito engraçados e abertos sexualmente.
A cena é bem natural, parecem só dois caras tirando um sarro para as câmeras.
JR . Eu estava no quarto quando rolou a filmagem. Nunca tinha visto dois homens fazendo sexo antes, mas não me chocou nem um pouco. Eles parecem tão apaixonados. Todo mundo, os câmeras e tal, ficaram rindo o tempo todo. Foi por isso que lançamos a segunda versão, não pra chamar mais atenção. Foi tipo “merda, por que não colocamos a cena na primeira? Por que deixamos a gravadora proibir?” Na verdade, a gente tomou uma decisão sem perceber que tínhamos aprovado o que eles queriam, foi um grande ruído de comunicação. Eu fiquei muito descontente que o vídeo tenha sido lançado sem a cena. Fizemos a segunda versão porque teríamos sido otários e falsos conosco mesmos e com os nossos amigos se não tivéssemos feito isso. Não quisemos tomar nenhum partido em política gay ou algo assim, mas nós pedimos para as pessoas se expressar e elas não mereciam aquilo. Alguns amigos da banda disseram que acham importante ver um homem cantar “Eu queria ter um namorado” (da letra de “Lust For Life”). Se isso é importante pra alguém, eu acho demais, mas nós não somos testa-de-ferro de causa alguma. Somos só dois caras que moram em San Francisco, e isso é muito natural. Eles são nossos amigos, pessoas que amamos, e o clipe mostra essas pessoas.
Saiba mais: myspace.com/girls truepanther.com/artists/girls
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