Ficar parado não é com os mineiros da banda Porcas Borboletas. Em dez anos de história, o grupo de Uberlândia se tornou um veterano de festivais Brasil afora. Percorreu vinte estados com sua música inventiva, que é rock mas também é Tropicália, tango, psicodelia; que tem baixo, bateria e guitarra, mas também trombone, xilofone, samples e até apito de picolé. Desde agosto do ano passado, quando lançaram o segundo (e ótimo) disco, “A Passeio”, eles já fizeram mais de sessenta shows em quinze estados diferentes. Com tanta estrada rodada, chegou a hora do Porcas partir em tour internacional. A primeira parada é Londres, onde se apresentam no Festival Brazil no dia 16 de julho, e no Festival Lovebox no dia 17. Depois seguem para Paris, para tocar no Festival L’international no dia 24 – tanto o Lovebox quanto o L’international reúnem artistas do mundo todo. “Como é nossa primeira saída do Brasil, não sabemos direito o que vamos encontrar lá. A impressão é de que vai ser muito legal”, conta o vocalista e violonista Enzo Banzo, com quem a +Soma conversou antes da viagem.
Como surgiram esses convites para se apresentar na Europa?
Começou com um produtor de Londres, Lewis Robison. Ele estava no Brasil para produzir uma coletânea com novos artistas da música brasileira. Ele viu três shows do Porcas: na Balada Literária, em São Paulo, no Goiânia Noise e em Recife. Desde o primeiro ele ficou encantado com a banda pela originalidade do som e veio conversar com a gente. Disse que se rolasse uma oportunidade, ele nos levaria para Londres. Ele tinha contato com um os organizadores do Festival Brazil e eles queriam algum artista brasileiro novo, além de Maria Bethânia, Gil, Tom Zé. Então o Lewis sugeriu o Porcas, mostrou nosso som pra eles e eles aprovaram. O Arnaldo Antunes já estava escalado para fazer uma apresentação de poesia e vai fazer uma participação no nosso show cantando “Eu” (um poema dele que musicamos e saiu no nosso primeiro disco) e duas músicas do repertório dele.
Como estão se sentindo sabendo que vão se apresentar no mesmo evento que Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé?
Eles são referência na música brasileira e referência para a gente também. Rola uma mistura de sensações. Por um lado, a gente está muito orgulhoso de representar essa nova música brasileira. Por outro lado, tem muita responsa, temos que fazer à altura. Confiamos muito no nosso trabalho, mas é um desafio.
Vocês vão ter um tempinho para fazer turismo ou vai ser só correria de um festival para outro?
Vai ter um tempo, porque a gente toca um fim de semana em Londres e o outro em Paris, então esse meio da semana vai ser livre. Queremos conhecer as cidades – ainda não sabemos quantos dias vamos ficar em Londres e quantos em Paris -, mas também fazer contatos, para que esse seja o início da nossa carreira internacional.
Vocês já rodaram o Brasil tocando em festivais. Qual a melhor e a pior parte de se tocar em festival?
A melhor parte é o alcance de público e a troca de informações com outros artistas, produtores, jornalistas. Você não só faz o show, também conversa com muita gente, abre novas portas. A pior parte é difícil de dizer, porque tocar em festival é uma coisa muito boa pra nós. Acho que talvez o cansaço, quando pegamos uma agenda de shows muito apertada. Mas a experiência é muito mais positiva.
Sobre o disco “A Passeio”: há muitas participações especiais. Me fale um pouco do por quê de chamar esses artistas para o disco.
Cada artista tem uma história. A gente nunca pensou: “Vamos chamar a Leandra Leal e depois arrumamos lugar pra ela”. As músicas é que pediram as participações. Em “Super-herói Playboy”, vimos que precisávamos de uma voz feminina, então chamamos a Leandra, que conhecemos quando fizemos uma música pra trilha do filme “Nome Próprio”. Em outra música, sentimos que deveria ter um acordeão, então convidamos o Arthur Faria. Chamamos pessoas que admiramos e quisemos fazer com que o disco fosse um passeio em que encontramos essas pessoas.
Ouvindo o disco percebi uma influência grande dos Titãs na fase inicial e uma influência enorme da Patife Band. A impressão está correta?
Está. Não que a gente tenha corrido atrás disso, mas foram coisas que a gente ouviu muito e repercutiram na nossa linguagem. São referências, tanto que musicamos um poema do Arnaldo Antunes no primeiro disco e convidamos o Paulo Barnabé para uma participação no segundo.
Quais são as outras influências do Porcas?
A gente é uma banda que vai na escola da música brasileira inventiva, que começou na Tropicália. Ouvimos muito os discos tropicalistas do Caetano, da Gal. Também ouvimos muito o pós-tropicalismo de Jards Macalé, Walter Franco, Novos Baianos. A Vanguarda Paulista, não só a Patife Band, mas Itamar Assumpção demais. E rock dos anos 80. A gente segue uma tradição de música que desafia a tradição. A gente é ligado em literatura, cinema, artes plásticas e isso repercute na música também.
Por que decidiram liberar o disco “A Passeio” para download gratuito?
Primeiro porque mesmo se a gente não liberasse, ele ia cair na rede. Depois porque acreditamos muito na liberdade, na internet ser um trânsito livre de informações. Só aumentamos a possibilidade de comunicação. Nas duas primeiras semanas foram 4quatro mil downloads. Um mês depois a gente estava tocando em Porto Velho e as pessoas já conheciam as músicas, sabiam as letras.
Pra finalizar, por que o nome Porcas Borboletas?
Tivemos que mudar o primeiro nome da banda, que era Pau de Bosta. O nome Porcas Borboletas veio dessa coisa de contraste: sujo e limpo, leve e pesado, e de ser um nome feminino para uma banda formada só por homens.
Por Raquel Setz