Full Banner Soma Topo
 
+HIGHLIGHTS


Wed: 07-14-10

+ENTREVISTA: Arnaldo Baptista, Por Mateus Potumati

(Entrevista publicada na +Soma 17/Mai-Jun 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)

A Experiência-Zero de Arnaldo Baptista

“Sentiu que toda a sua carne se dissolvia num turbilhão de luz. E sentiu-se imediatamente feliz. Feliz como se marchasse lado a lado com uma multidão amigável de numerosos camaradas. Por estranho que pareça, soube que já não era nada, ou melhor, que era simultaneamente ele próprio e os outros, unidos numa segurança, num calor e numa força coletiva.”

Stefan Wul, em O Império dos Mutantes (1958).


Por Mateus Potumati . Foto ao vivo por Acervo UH/Folha Imagem.

A história de Arnaldo Baptista tinha tudo para acabar mal. Moleque-prodígio do tropicalismo, cultuado como a própria personificação do movimento por Caetano, Gil e Tom Zé, o cérebro criativo dos Mutantes esteve perto de ter o mundo nas mãos. Mas, como em tantos outros casos da época, o desbunde da década de 60 virou badtrip nos 70. Em uma avalanche que envolveu uma dieta diária de LSD, crises com os colegas de banda e o fim de um relacionamento de oito anos com Rita Lee, Arnaldo saiu dos Mutantes direto para uma descendente de depressão e loucura. Ladeira abaixo, ainda sobrou talento para gravar “Lóki?” (1974), seu primeiro disco solo, obra tão grandiosa quanto solenemente ignorada pela crítica e pelo público ao longo de décadas. Finalmente, no réveillon de 1982, internado na ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público, em São Paulo, resolveu levar ao limite a relação entre arte e vida. Pulou do 4º andar – talvez para, como um dos personagens do livro que batizou sua antiga banda, se dissolver em luz. Acordou meses depois, milagrosamente, sob as piores previsões de recuperação possíveis.

Mas Arnaldo é um sujeito de sorte. Ao lado do leito em que estava, uma dupla de amigas fazia uma vigília heroica. Uma delas, Lucinha Barbosa, acabou se casando com ele. Mais do que isso: o adotou como missão de vida. Nas duas décadas em que o casal morou em um sítio na cidade de Juiz de Fora/MG, Arnaldo se recuperou – com sequelas, como a da fala, causada por uma traqueostomia –, desenvolveu o hábito da pintura e seguiu compondo. O mais importante, sobreviveu para ver sua importância finalmente reconhecida em âmbito mundial. A partir dos anos 1990, uma onda de revalorização da música dos Mutantes se seguiu ao interesse de Kurt Cobain pelo grupo. Na esteira, Arnaldo ganhou uma leva de novos seguidores no exterior, como Devendra Banhart, Sean Lennon, Belle and Sebastian, Circulatory System (aka Neutral Milk Hotel sem Jeff Mangum) e outros. Em 2006, na volta dos Mutantes, viu a plateia do sisudo Barbican Theatre, em Londres, quase colocar o teatro abaixo. Um ano depois, no Brasil, foi ovacionado por 80 mil pessoas no Parque da Independência, em São Paulo, de longe o maior público na história da banda. Ainda em 2007, se desligou novamente dos Mutantes e ficou de fora de “Haih ou Amortecedor”, melhor esforço do grupo desde “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”, de 1972 (último registro em estúdio com Arnaldo, seu irmão Sérgio Dias e Rita Lee, antes da fase progressiva dos Mutantes). Ano passado, teve sua vida retratada no ótimo documentário “Lóki?”, produzido pelo Canal Brasil e dirigido por Paulo Henrique Fontenelle. No filme, se referiu ao incidente no hospital em 82 como fundamental na sua vida: “fui podado, recuperado de um jeito absoluto”. Nada mais natural para um mutante.

De mudança para Belo Horizonte, o casal nos recebeu no apartamento que aluga no bairro de Funcionários, região central da cidade. Entre divagações sobre evolução humana, discos voadores, tropicalismo, rock brasileiro e a volta dos Mutantes, Arnaldo Baptista faz piada com tudo – inclusive com a própria loucura, mesmo quando é traído por ela. E, após ter quase morrido de dor, provou que o gênio meio palhaço, meio cientista maluco segue lá dentro, intocado.






Como você tá vendo, Arnaldo, eu fiz um monte de anotações pra falar com você...

Ah, mas precisa. Eu vi o teu livro (uma cópia de A Divina Comédia dos Mutantes, de Carlos Calado, com grifos e anotações), e eu fazia a mesma coisa na escola. Às vezes pensava “tô ficando louco” (risos). Fazia umas anotações meio bobas, mas que pra mim tinham significado. Na época eu estudava no Mackenzie.

Você estudou o que no Mackenzie?

Fiz o clássico (hoje chamado de ensino médio) lá, junto com o pintor Antônio Peticov (amigo e empresário dos Mutantes no começo da banda). Até que comecei a ganhar mais dinheiro com os Mutantes do que onde eu trabalhava. Aí, desisti do estudo e do trabalho.

“Dizem que a gente colocou a guitarra na música [brasileira], mas a guitarra já existia desde antes de eu nascer. Na verdade, o Mutantes colocou o contrabaixo.”

O Sérgio parou de estudar ainda antes disso, né?


Isso, na 2ª série (atual 6ª série do 1º grau). Ele ensinava guitarra, tinha uma vida diferente. Eu trabalhava, meu irmão mais velho também (Cláudio César Dias Baptista, luthier e técnico de som dos Mutantes), mas o Sérgio foi diferente desde o começo.

E aquela história dos duelos de guitarra na Pompeia, você chegou a pegar algum?

Ah, isso era coisa do Sérgio, eu não lembro se cheguei a ver algum. Ele vai saber falar melhor. Mas o Sérgio conheceu a cidade inteira assim (risos).

Quando a gente é criança, normalmente os instrumentos que mais chamam a atenção são a guitarra e a bateria. Por que você quis pegar o baixo?

Tocar bateria era complicado. Naquela época, minha mãe nunca aceitaria uma em casa, era muito barulho. Meu irmão mais velho chegou a tocar, tinha uma bateriazinha, mas minha mãe reclamava, “para com esse barulho!” (risos). Do meu lado de ver, usei o contrabaixo porque pegava mais o total da música. Me deu vazão nesse sentido de harmonia. E não existia teclado na época, nenhum conjunto tinha.

O seu negócio era o piano, né? Por causa da sua mãe (a pianista Clarisse Leite).

Exatamente.

E o piano também tem um grave forte.

Sem dúvida. Muito mais forte que a guitarra. Eu estudava num piano de cauda e não era muito bom em ler música, mas minha mãe tocava muito Debussy, Ravel, Chopin, tudo, então eu decorei todas essas músicas. Hoje em dia eu toco de ouvido graças a isso.

Falando em hoje em dia, rolaram várias coisas bem legais pra você nos últimos anos, desde o “Let it Bed” (2004) pra cá. Houve uma revalorização do seu trabalho pessoal, ao contrário do que houve nos anos 1990, que foi uma coisa mais em cima dos Mutantes. Como vai a vida pra você hoje?

A vida tá boa. Eu fico aqui meio ilhado, em função de não poder tocar bateria, porque é um apartamento. Quando eu vou [para o sítio de Juiz de Fora], fico uma semana e ataco minhas músicas de outra maneira, com baixo, guitarra, bateria, tudo. Aqui é mais violão. Mas vai dando certo, antigamente era muito mais difícil. Ter gravador de dois canais em casa já era muito difícil, hoje é normal ter um de 12 canais. Então fico entre o apartamento e o sítio, que é onde tenho meu estúdio. Tenho pintado bastante, escrevi este livro (mostra “Rebelde Entre os Rebeldes”, lançado pela Rocco em 2008) e sempre componho.

“Em vez de usar o sol ou o vento pra produzir energia, ainda somos piromaníacos. Mas atingimos atingiu uma etapa em que devemos tomar consciência do que estamos fazendo com o nosso lar, a Terra.”

Voltando àquela época: uma coisa que eu queria entender sobre o envolvimento de vocês com a Tropicália...

(interrompendo) É uma ótima pergunta, porque eu mesmo não sei o quanto nosso envolvimento foi importante (risos). Eram culturas diversas, o Caetano altamente formado, sabia de Filosofia, o Gil bem numa de raízes, o Tom Zé hilariante sempre, extrovertido... Aquela coisa toda, e a gente contra Elis Regina, Geraldo Vandré, Zimbo Trio (à época, a ala nacionalista da MPB, que se opunha ao tropicalismo)... Tinha também aquele problema político, e o papai era secretário do [ex-prefeito e governador de São Paulo] Adhemar de Barros – andava com carro de chapa branca com sirene, rádio, tudo. A gente ficava um pouco isolado dessa coisa de revolta. Eu nunca entendi muito bem essa coisa da França, o Caetano estudou mais.





Aliás, já sugeriram que vocês nunca foram pra cadeia justamente porque seu pai era amigo do Adhemar de Barros.

Ah, isso é bem provável! (risos) De certa forma, eles tinham respeito pela gente.

Vocês e seus amigos eram bem do rock, tanto que o Raphael Vilardi (amigo de infância e parceiro de Arnaldo antes dos Mutantes) pulou fora da banda quando vocês apareceram com o Gil.

Ah, isso tem a ver tanto com a cultura de cada um... Ele usou até o meu apelido, “Cray, isso não é rock’n’roll!” (risos).

Como era o apelido?

Cray! Quando eu era criança, gostava muito de uma dobradinha [enlatada] da marca CRAI, então minha mãe me deu esse apelido e pegou (risos gerais). Mas o Gil era mais complexo que o iê-iê-iê, né? Na harmonia dele tinha sétima, sétima diminuta, quarta. E eu tinha um lado clássico, que a turma do iê-iê-iê puro não tinha. Então tentei misturar as duas coisas, com uma força extrema do Rogério Duprat. Ele transformava meu modo de encarar o som – se eu falava de violino em pizzicato, ele entendia, colocava na pauta e as coisas apareciam.

O que diferenciava a tua formação da do Raphael e dos seus outros amigos roqueiros pra você dizer “é legal fazer isso”?

Mamãe e papai eram artistas, né? Papai era tenor, poeta, escreveu quatro livros. E mamãe, dizem que foi a primeira mulher a escrever um concerto para piano e orquestra no mundo. Então a gente teve uma formação erudita. O Raphael ouvia disco dos Ventures e outros conjuntos, mas eles não iam muito além disso. Eu também tinha um conhecimento de teclado, só que no nosso cojunto não tinha teclado – eu era o baixista, meu irmão era um guitarra e o Raphael também era guitarra.

Era o Six Sided Rockers?

Isso, e antes teve o Wooden Faces – os caras-de-pau (risos). O Six Sided foi quando já entraram a Rita [Lee], a Mogguy (Maria Olga Malheiros, colega de Rita Lee no colégio no começo dos anos 1960) e a Suely [Chagas]. O Raphael fazia música de forma diferente, mas a gente se entendia também, entre idas e vindas.

Além de verem o rock de forma diferente dos amigos, você, o Sérgio e a Rita também nunca foram na onda dos roqueiros de mais sucesso no Brasil na época, que importavam muita coisa do pop italiano..
.

Talvez tenha origem nesse lado de o Sérgio fazer duelos com guitarristas, ter tocado com todo mundo, conhecido vários estilos. A gente também tinha esse lado de orquestra, que era diferente dos outros roqueiros, e além disso tinha menina no conjunto, o que pra eles era uma coisa bem esquisita (risos). Nosso vocal era apoiado em The Mamas and The Papas, Single Singers. Era bem aprimorado. E tem outra coisa: dizem que a gente colocou a guitarra na música [brasileira], mas a guitarra já existia desde antes de eu nascer. Na verdade o Mutantes colocou o contrabaixo. Algumas orquestras já tinham guitarra. A gente fica rebelde às vezes e não sabe até onde, né? O Caetano também, tanta gente... (risos)

“Se eu fosse um ET e visse a Terra como ela é hoje, tão careta e religiosa, hesitaria antes de entrar em contato com gente que poderia me julgar Deus. Imagina, eu fazendo telecinese por eletroímãs e o povo achando que era milagre? (risos)”

Por quê?

Eles fizeram uma rebeldia que virou “comunismo”, a gente virou guitarra na música, estilo também. Tropicalismo virou rock’n’roll pra gente depois de um tempo.

A partir de a A Divina Comédia.

É isso, pode crer. (risos)

O tropicalismo foi um movimento com data pra acabar, né? Estava até programado o “enterro” do movimento no “Divino, Maravilhoso”, mas o programa acabou sendo cancelado antes.

Nunca fiquei sabendo desse aspecto... Eu tinha pouca convivência com o Caetano. Com o Gil tinha mais. Mas nunca foi tão filosófico a ponto de ele me dizer que tinha uma tendência a acabar. O Caetano tinha mais controle sobre o tropicalismo, ele era a ponte com produtores, televisão, empresários. Ele tinha uma visão mais completa.

O primeiro disco dos Mutantes é bem tropicalista, com muitas parcerias, orquestração, diversidade. O segundo é um pouco menos, mais focado na parceria com o Tom Zé e em vocês três. O terceiro já tem bem menos Duprat e nada dos outros tropicalistas. O tropicalismo pros Mutantes foi só um momento daqueles dois primeiros discos mesmo, ou vocês levaram alguma coisa com vocês depois?

Foi uma coisa dos primeiros discos, concordo. Hoje não me atinge tanto, mas no exterior as pessoas são muito conectadas à Tropicália. Mas tem tantas coisas profundas na vida além de estilos, né? A diferença entre o Mutantes e eu atualmente, por exemplo. Virou uma banda sem amplificador valvulado, sem instrumento Gibson... Muitas guitarras, sintetizadores. Virou um lado orquestral sem orquestra. Tá bem próximo a Yes, Genesis e distante de Cream etc. Tem essa diferença de estilos, hoje.

Como você avalia o som dos Mutantes hoje?

Eu acho que tá mais... gay (risos gerais). É um papel carbono dos Mutantes de antigamente, sem orquestra e com sintetizador. O Sérgio nunca foi de estudar, sempre foi meio rebelde, mas ultimamente, nos ensaios, ele vinha tentando dar uma de professor. Fica dando ordem, bronca, parece uma escola de música, não mais um conjunto. Eu cansei de convidá-lo pra vir até a minha casa, mas ele nunca foi. A humildade pra ele é muito difícil de entender. Mas isso já passou.





Esse jeito do Sérgio influenciou na guinada progressiva dos Mutantes a partir de 1972, ou foi uma coisa de vocês dois juntos?

Naquela época foi bem junto. A gente tinha momentos fantásticos de criação, ele fazia uma frase na guitarra (imita uma levada na guitarra) e aquilo dava asas à nossa imaginação. Eu também vinha com a minha composição, no estilo da “Balada do Louco”, a Rita também contribuía muito. A gente se combinava, era bem interessante.

Na fase inicial vocês eram um contraponto tropicalista aos Beatles, mas depois foram pra esse lado. Como você avalia essa mudança?

Acho que teve muito a ver com o fato de a gente ter ouvido Yes, pelo “Yes Álbum”. Eu, que até aquele momento não tinha me apaixonado por nenhum tecladista, passei a adorar o Tony Kaye. Gostei do som que ele fazia, e enveredamos por esse lado, com todos os prós e contras. O Liminha comprou um baixo igual ao do Chris Squire (baixista do Yes), um Rickenbacker, que eu não gosto – acho muito fraco, sem saída, muito agudo, estereofônico. Fica muito tipo orquestra sinfônica. Tipo Yes, né? Isso acabou me fazendo concentrar minha composição mais no teclado do que no baixo, como era no começo. E [o teclado] ampliou mais minha forma de ver as coisas.

Hoje, quando você pensa nos Mutantes, que fase você lembra mais?

Interessante essa pergunta, é uma etapa tão importante da minha vida. Tenho impressão que a parte que mais me atingiu foi o “Tecnicolor” (disco gravado em 1970 e lançado apenas em 2000), foi o lado mais total nosso. Gravamos em Paris, fomos mixar no estúdio dos Beatles. Ampliou o nosso conhecimento, nossos horizontes musicais. Eu tive a consciência da música do Mutantes para o mundo, não só para o Brasil. Teve também o “Baurets” (Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, disco de 1972), que expandiu bastante nossa música aqui no Brasil. Esse disco foi importante não só pela “Balada do Louco”, mas como um todo para os Mutantes.

Depois da sua saída dos Mutantes, você ficou bem concentrado no trabalho com o piano. Seu vocal também saiu um pouco do rock pra uma coisa mais soul, Otis Redding, Tim Maia etc.

É, às vezes eu tento me julgar cantor (risos). É difícil, tem que impostar mais a voz, saber usar o microfone. O Tim Maia falou pra mim uma vez: “Arnaldo, a gente imposta a voz, mas canta nesses [microfones direcionais da marca] Shure, que só pegam a boca. O único microfone que serve pra cantar mesmo é aquele AKG quadradinho D12, que pega o nariz e a boca”. Ele cantava impostado e me aconselhou a usar, é um preto-e-branco, muito bom, e ainda fica bonito no piano (risos). Quando eu estava gravando o “Let It Bed” em casa, me trouxeram um outro microfone que eu nunca tinha visto. Era um AKG também, mas com duas válvulas, uma de cada lado. Eu falei “mas o que que é isso?” (risos). Era um pré-amplificador interno de válvula. E o microfone custava 2 mil dólares! Depois, no estúdio, me mostraram a diferença: colocaram um Neumann, que é o melhor microfone que existe, e compararam com o AKG valvulado. E era completamente diferente, parecia que o AKG tinha mais espírito. O Neumann é famoso pela fidelidade, mas o AKG é bem mais soul. Eu sou audiófilo, né. É um termo fundamental pra mim. Uma vez fui até Nova York comprar um amplificador valvulado, pra ouvir música na minha vitrola. Fui até uma loja chamada Manny’s, a maior de lá, e o vendedor disse “aqui só tem amplificador velho, Marshall, Fender, tudo porcaria. Vai naquela loja ali da frente”. Nessa outra loja, na Rua 45, tinha um amplificador novo, da marca Audio Research, que tem uma válvula de eletrodo, igual à que o Jimi Hendrix usava no Marshall. Comprei um pra mim, a diferença é tangível.

Aliás, você e seus irmãos não apenas foram sempre ligados nessa coisa de áudio, mas em ciência de forma geral. O Cláudio César foi do clube de astronomia quando criança, e depois montou a CCDB, fez vários instrumentos pra vocês, pedais de efeitos, sistemas de som etc. E a carreira inteira dos Mutantes foi influenciada por ficção científica. Você ainda lê alguma coisa do gênero?

Me lembro muito do Ray Bradbury, do Stefan Wul, que escreveu “O Planeta dos Mutantes” (de onde, segundo o biógrafo Carlos Calado, o jornalista Alberto Helena Jr. teria sugerido o nome da banda a Ronnie Von, que batizou os Mutantes). Hoje em dia eu não leio tanto, eu mais escrevo... Tô escrevendo outro livro, pintando camisetas, quadros.

“Aquela foi uma época de testar minha resistência em tudo. Quando eu estava vivendo com a Martha, mãe do meu filho, cheguei a andar a pé até Catanduva, a 400km de São Paulo. Eu achava ela lindíssima, mas meio monótona. Então preferia andar, né? (risos gerais) Eu não tinha mais instrumentos em casa, tinha vendido tudo e estava muito sem dinheiro. Ela falava que eu queria pertencer ao sistema, mas o sistema não queria que eu pertencesse a ele.”

Antes do seu acidente você passou por uma época ruim, com problemas pessoais, a imprensa te malhando muito e depois esquecendo de você. Hoje as pessoas têm mais noção do seu valor e você faz até piada disso tudo, nas suas músicas e nos seus quadros. Como é isso pra você?

Importante você falar nisso, porque às vezes eu me sinto muito palhaço (risos). E às vezes sou meio físico, [homem das] ciências, audiófilo etc. A gente muitas vezes se deixa levar por momentos. Aquela foi uma época de testar minha resistência em tudo. Quando eu estava vivendo com a Martha, mãe do meu filho (em 1977), cheguei a andar a pé até Catanduva, a 400km de São Paulo. Eu achava ela lindíssima, mas meio monótona. Então preferia andar, né? (risos gerais) Eu não tinha mais instrumentos em casa, tinha vendido tudo e estava muito sem dinheiro. Ela falava que eu queria pertencer ao sistema, mas o sistema não queria que eu pertencesse a ele.

Mas os Mutantes chegaram a ganhar um dinheiro bom uma época, não?

Acho que nunca ganhamos pra valer, mas quando fizemos aquele anúncio da Shell (que envolveu a gravação da música “Algo Mais”, incluída no disco Mutantes, de 1969), lembro que ganhei 15 milhões (risos). Não lembro nem que moeda era, nem quanto valia. Mas fui correndo e comprei uma Corvette. Depois acabei vendendo esse carro. A gente era muito jovem. E além disso, sempre que entrava algum dinheiro, investíamos muito em equipamento. Comprei uma caixa Alesis – que pra mim foi uma aventura, mudou bastante meu som –, órgão Vox, clavinete Hohner. Depois fui vendendo tudo. Nem lembro de tudo que tive. Hoje em dia é diferente, eu tenho que ter não só teclado, mas baixo, guitarra, bateria, gravador e os amplificadores. A gente vai levando do jeito que dá.

Quando você saiu dos Mutantes, a banda estava bem progressiva, mas o “Lóki” vai pelo caminho oposto: você no piano, à Elton John, cantando com doses de amargor que remetem até a Orlando Silva, de quem vocês tiravam sarro no começo (risos). Como se deu essa mudança?  

Acho que tem a ver com isso que você falou, que fiquei muito eu e o piano. Mudei pra Serra da Cantareira – eu, que tinha trabalhado de vigia noturno da companhia telefônica (risos) –, construí uma casa e me dediquei muito ao piano. Foi um lado que teve a ver com o “Lóki”. O disco saiu disso, de criação em torno do que eu possuía na época: a casa e o piano. Mutantes foi eu com o baixo no começo, depois com o teclado e na fase solo foi o piano.

Reza a lenda que sua mãe sofria pra te ensinar.

Eu era chato, perfeccionista (risos). A gente sempre tem umas lacunas, todas as pessoas no mundo. E é isso que impede a evolução pela mutação. Hoje, por tecnologia genética, eles mexem em dados nos cromossomos. Então o lado natural da mutação – a gente poderia ter sexto dedo, três pulmões – hoje em dia é feito em laboratório.

“Sexto dedo” era pra ser o nome do segundo disco, né?

Isso. A gente fez até uma sessão de fotos (uma delas está na contracapa do LP Mutantes, de 1969). Mas é interessante isso, vamos ver até onde a mutação tecnológica pode levar a evolução humana.

O que você acha do mundo hoje?

Acho que a Terra está no apogeu da Era Ígnea. Pros ígneo-rantes, “ígneo” é relativo ao fogo, né? (risos) Em vez de usar o sol ou o vento pra produzir energia, ainda somos piromaníacos. Mas atingimos uma etapa em que devemos tomar consciência do que estamos fazendo com o nosso lar, a Terra. Poderíamos tentar nos comunicar com seres extra-terrenos pra ver se aprendemos alguma coisa. Mas se eu fosse um ET e visse a Terra como ela é hoje, tão careta e religiosa, hesitaria antes de entrar em contato com gente que poderia me julgar Deus. Imagina, eu fazendo telecinese por eletroímãs e o povo achando que era milagre? (risos) Penso também que a humanidade – mudando de palhaço pra físico, como eu te falei (risos) – aprendeu a eliminar os gauss (medida de densidade de fluxo magnético) dos ímãs, mas, pra vencer a força da gravidade, teria que eliminar os grávitons (partícula hipotética da gravidade quântica), que determina que objetos não-metálicos, como a minha mão, sejam impulsionados para baixo. Os discos voadores fazem isso. Mas o ser humano evolui, hoje em dia já se fabrica até aviões sem piloto, que atingem velocidades tão altas que uma pessoa não aguentaria. Vai saber até onde a humanidade chega... ciborgues, sei lá (risos).

Você falou de ETs e discos voadores. Você chegou a ver algum?

Foi uma coisa de momento, lá no sítio. Eu estava com uma costureira no ateliê e apareceu no céu, por uns 20 segundos. Passei a crer em um lado de ver, antes eu só pesquisava. Agora eu tento entender, embora ainda sem conseguir. Mas vou tentar entrar em contato com eles. (risos)





Saiba mais:

www.arnaldobaptista.com.br
www.osmutantes.com