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Thu: 07-01-10

+ENTREVISTA: Nekro . Por Arthur Dantas

(Entrevista publicada na +Soma 17/Mai-Jun 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)

 

 

Veneno Remédio

Por Arthur Dantas . Fotos por Daigo Oliva

“Quanto ao artista em si, ele carrega aquela dor que lhe espeta o coração, mas existe ao mesmo tempo um forte elemento inconsciente em sua arte, que é uma das principais razões de sua beleza e intensidade”. Esse trecho do mítico crítico de rock Lester Bangs, sobre o início da carreira solo de Iggy Pop, define exemplarmente Carlos Rodriguez, mais conhecido como Nekro, o maior vocalista/frontman do punk rock/hardcore latino. Enquanto Iggy Pop se mostrava patético, flagelado, o antirockstar por excelência, Nekro, com a mesma intensidade, também se fragiliza em frente a seu público, expondo emoções íntimas, chegando ao limiar da vergonha, do cafona, misturando tudo isso a temas políticos radicais, o que confunde ainda mais a audiência, assim como o velho Iggy. A entrega de ambos no palco é a mesma, uma entrega que parece definitiva, como se o mundo estivesse por acabar assim que as luzes se apagassem.

Sua música, seus livros, seus desenhos e seus fanzines transpiram felicidade e bem-estar, mas sem deixar a realidade de lado. Não há escapismo em suas letras à frente do cultuado Fun People (o grupo que lhe deu reconhecimento mundial no mundo punk) e de seu atual grupo, Boom Boom Kid, mas o artista argentino que diz ironicamente ter “mais de 30 anos” é um eterno adolescente e prefere ver o copo sempre meio cheio.  

Com as 19 canções do álbum “Art Of Romance”, de 1999, a obra-prima do punk latino gravada por Steve Albini, o Fun People esteve prestes a romper com o círculo punk rock e alcançar sucesso massivo. Turnês pelos EUA, México, Europa, Japão e toda a América Latina, muitos discos vendidos, uma legião fervorosa de fãs e um álbum invejável recém-lançado. Mas no auge, com dez anos de carreira, o grupo se desfez. “O Fun People no final era algo muito difícil, teve muita mudança de formação, decisões a tomar e opiniões diferentes. Preferi começar uma banda nova, porque não queria continuar com algo até virar uma merda, preferi deixar as coisas bem feitas e começar outro projeto. Não era só uma coisa de vender discos, fazer turnês mundiais, fazer muitos shows. Não é assim”, explicou o carismático vocalista baixinho, de longos dreads loiros, em uma pizzaria na Rua Augusta, em São Paulo, próximo ao Outs, onde aconteceria o último show do Boom Boom Kid na cidade.

Tudo o que foi dito até aqui não é suficiente para explicar o quão distinto é o trabalho de Nekro. Com versatilidade, cantando de raivosos hardcores a boleros, de punk rocks à la New York Dolls a baladas românticas, ele consegue combinar canções/militâncias sobre questões de gênero, ação direta não-violenta, direitos dos animais, desarmamento, direitos gays, e o direito ao aborto, a nostálgicas canções amorosas, músicas sobre a história esquecida de uma Argentina rebelde e temas sobre prazeres mundanos como beber água, fazer amigos, surfar, andar de skate ou jogar frisbee – brinquedo que dá nome a seu último trabalho e vem junto com ele.

Eu acho que o melhor álbum que você fez foi o “Art Of Romance”. Acho que todos seus interesses, sua maneira de fazer música e pensar o mundo estão da melhor forma ali. Hardcore é uma música que não me agrada tanto hoje em dia – não vejo mais a eletricidade no ar, um vigor, uma urgência. O que você pensa sobre o assunto?

Antes de começar o show na Pacolli estava me sentindo mal, com a garganta inflamada, febre. Quando comecei a tocar, já na segunda música, parecia recém-nascido (risos). Música é remédio para mim, é puro amor. Me faz sentir bem e traz felicidade. Sempre quis fazer isso, desde pequeno, nunca pensei o que teria que fazer na outra semana, nunca fui um adulto normal, mas também nunca quis ser o mais radical. Sempre quis fazer fanzines, escrever, andar de skate, fazer minhas músicas. É a música que me leva pra outro mundo, um lugar mais caloroso, multicolorido, onde todo mundo está bem. É meu jeito de falar “ei, man, por que você está assim, o mundo pode ser mais divertido, colorido, não precisa ver tudo cinza”. Se não puder caminhar, vou cantar; se não puder cantar, vou escrever. É ver o lado bom das coisas.



 

Você se expressa de uma forma punk rock: tem energia, tem uma agressão, uma forma rápida e direta de se comunicar. Só que você trata das coisas de um jeito muito terno, como se estivesse conversando intimamente com o ouvinte. Transforma sua própria forma de existir em uma coisa política e compartilha isso com os outros.

Eu tenho muitos problemas pessoais. Como posso dizer... Eu vivo na beira do caos todo dia. Por mais difícil que esteja, faço da música uma pílula. Quando a tomo, tudo melhora. É assim que vejo a música. Na Argentina está tudo muito estranho politicamente, muita insegurança, muito caos, muita violência. E tudo isso existe porque há muita fome, e tudo isso existe porque tem um erro na divisão de riqueza e poder, sabe? Aí temos mais polícia, mais exército. A Argentina é um país muito estúpido, parece que as pessoas não se lembram que há pouco tempo morreram mais de 30 mil pessoas [na ditadura militar], uma geração inteira morta. Uso minha música pra me comunicar, pra falar que você pode cuidar das pessoas, fazer as coisas de outro jeito. A música muitas vezes é um espelho. Eu escrevo uma música e fico feliz. Tiro toda minha merda pra fora.

Como uma catarse?


Exatamente. Tem gente que fala que minha geração é apática. Não acredito nessas coisas. Eu me sinto jovem, tenho alegria de viver, não me canso de conhecer as coisas, isso é ser jovem. Essas pessoas que sabem tudo e já viveram tudo não me interessam. Pra viver é necessário morrer e nascer várias vezes. Boom Boom Kid é como uma colagem, um crossover desde a primeira música, o primeiro fanzine. O último disco, “Frisbee”, muda o estilo de canção pra canção, não tem cinco músicas parecidas ali. Gosto de desconstruir as coisas. É punk rock? É e não é. É rockabilly? É e não é. É hardcore? É e não é.

E como surgiu a chance de gravar com o Steve Albini?

Tenho um amigo em Chicago, o Martin (ex-vocalista da lendária banda de hardcore latina Los Crudos), que falou do Fun People pra ele, que era uma banda independente etc, começou a instigá-lo, e ele falou “ok, quero conhecer esses caras”. Quando fomos gravar com o Steve Albini, no dia anterior tinham saído o Robert Plant e o Jimmy Page de lá. Quando saímos, entrou o Cheap Trick, sabe? E cobrou o mesmo valor que gastaríamos em Buenos Aires. Eu gostava do Steve Albini, do Big Black, ele gravou o Big Boys, que são coisas diferentes, e nós nunca copiamos timbre de ninguém, nunca ficamos nessa de querer entrar em alguma onda. Ele foi muito legal no estúdio, quando tudo ficava confuso ele falava “ok, dois minutos de descanso, vão comer uma pipoca, vejam [a comédia sobre uma banda de metal fictícia] “Spinal Tap” (risos). Ele foi tocar na Argentina e queria que o Boom Boom Kid abrisse pra eles, mas não estávamos lá.   




O Boom Boom Kid fala muito de infância e inocência como algo pra se defender do mundo – já no Fun People não havia muito esta ideia. Por que usar deste tipo de imagens agora?

Eu defendo a liberdade e o livre pensamento. Não quero voltar a ser criança, é como falar de julgar: eu nunca julgo nada. As crianças nascem, correm, brincam e ficam peladas... Por que nós, com mais de 30, anos não podemos fazer o mesmo, man? Que importa o que os outros pensam? Todo mundo sempre fala “não, não, não”, e eu “sim, sim, vai, vai”.

Vergonha é uma palavra que não está em seu vocabulário?

Às vezes, lamentavelmente (muitos risos).

E como a sua família enxerga o seu trabalho?

Meu avô fica muito feliz, já foi em meus shows. O pai dele tinha um armazém, e quando os anarquistas italianos chegaram à Argentina, nos anos 1930, ele os ajudava. Então ele teve contato com ideias anarquistas desde muito cedo. Depois virou socialista, mas um socialista libertário, e sempre gostou das coisas que escrevia. Ele já foi em shows e cantou canções anarquistas dos anos 30 no microfone em alguns deles. É muito louco isso.





Saiba mais:
www.myspace.com/boomboomkid
www.funpeople.com.ar