Full Banner Soma Topo
 
+HIGHLIGHTS


Tue: 06-08-10

+ENTREVISTA: Jun Matsui, Por Tiago Moraes

(Entrevista publicada na +Soma 17/Mai-Jun 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma. Assista a um trecho da entrevista com Jun Matsui aqui.)

 

DEPOIS DA TEMPESTADE

Texto por Tiago Moraes e Retratos em Cor por Bitão

Me lembro como se fosse ontem da primeira reunião de pauta da Soma. Entre outros nomes, sugeri o de Jun Matsui, a quem sempre acompanhei e admirei. E sabia que sua história renderia uma boa entrevista. Na época, Jun tinha acabado de voltar de Tóquio e começava a reconstruir sua vida em São Paulo, o que inviabilizou a matéria. Tentei mais algumas investidas nas edições seguintes, que também acabaram não se concretizando.

Eis que, três anos depois, resolvi retomar o contato e finalmente conseguimos nos encontrar. Era o momento certo para Jun, agora já completamente reestabelecido de uma crise que o levou a abandonar uma carreira de sucesso no Japão, com estúdio bombado e uma recém inaugurada loja de sua marca Life Under Zen (Luz). A entrevista rolou em duas sessões em seu misto de casa, estúdio e ateliê no bairro de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, e passou por assuntos diversos como skate, imigração, Oriente versus Ocidente, reality shows, joias, mulheres e, como não poderia deixar de ser, tatuagem.

Lembro do seu nome envolvido com o skate na década de 1980. Fale um pouco de suas lembranças da época.

Eu acho minha história com o skate muito mal resolvida. Foi uma ruptura brutal pra mim: um dia eu estava no Brasil, andando direto, fazendo demos, e no outro eu estava no Japão trabalhando numa fábrica. Lembro que na época eu usava umas pulseiras, e depois de uns três dias no Japão peguei uma tesoura e cortei todas. Foi um momento marcante, eu já sabia que eu não voltaria para algo que, sem exagero, foi uma das fases mais felizes da minha vida.

Esse background no skate influenciou de alguma forma sua formação e sua personalidade?

Completamente. Minha perspectiva das coisas ainda tem esse elemento skate muito forte. Se eu vejo uma session rolando, por exemplo, meu pé logo começa a formigar, você sabe exatamente o que o cara lá está sentindo… É uma doidera, cara!

E por que decidiu deixar o país e morar no Japão?

Foi uma fuga. Meus pais se separaram e aquilo foi brutal pra mim. Lembro que eu morava no Jaguaré e tinha uns malucos do bairro, uma japonesada, e sempre rolava um papo tipo “tal cara foi por Japão, fulano de tal também” e que era super fácil, só ir numa agência na Liberdade que os caras providenciavam tudo e te mandavam pra lá. E na real eu queria mesmo ir pra Califórnia, mas não rolava, era muito difícil conseguir visto, grana etc. Daí, com essa oportunidade de ir pro Japão, eu pensei “Porra, de qualquer jeito eu quero sair fora. Então eu vou pro Japão, trabalho, junto uma grana e vou pra Califórnia”. Foi uma questão de conveniência, uma oportunidade de ir sem gastar um tostão. E me lembro que tudo que eu tinha era uma passagem de ida e cem dólares no bolso, sendo que no aeroporto de Los Angeles eu já gastei quarenta num boné! (risos)

Que tipo de emprego você teve lá no começo?

De operário em fábrica de carros, linha de produção. (risos) Fiquei nessa uns três meses e descobri que tinha um primo meu em Tóquio na construção. Fiquei mais uns meses com ele trabalhando pesado, embaixo da terra, bueiro etc. Depois de um tempo conheci uma garota brasileira que me levou para trabalhar numa balada. Foi aí que tudo começou, comecei a olhar aquela cena e perceber algo familiar.

Como você foi recebido lá pelos locais? Rolou algum tipo de preconceito por ser dekassegui ou foi tranquilo?

Foi tranquilo, mas rolavam algumas situações complicadas. Quando eu ligava para falar com alguém e dizia meu nome completo, Jun Itie Matsui, era complicado pro cara do outro lado entender que ele estava falando com um brasileiro de Recife, que fala japonês igual a uma criança. E o povo japonês é super purista, eles se referem a um mestiço como “haf” (do inglês “half”), que significa metade, ou o que não é inteiro.

“Quando eu digo que a pessoa é mais importante que a tatuagem, quero dizer que se você tiver um espírito forte, pode fazer qualquer coisa, correr riscos, que as pessoas vão te imitar, porque você é quem você é.”

Como se deu essa sua transformação de dekassegui para um dos tatuadores mais requisitados e considerados do Japão?

Se você for pensar, o que um cara como eu, sem formação acadêmica, com 19 para 20 anos, solto no mundo poderia fazer? Não tem muita opção, saca? Esse lance da tatuagem era uma fantasia que eu nunca tinha dividido com ninguém. Lembro de ter ido a uma convenção de tatuagem em São Paulo, de ver o Marco Leone, o Hercule, e eu olhava pros caras e achava aquilo tudo muito foda. Queria fazer uma tattoo e meu pai não deixava, então sempre tive esse fascínio pela coisa. Já morava no Japão e rolou uma viagem com uma ex-namorada para Los Angeles. Conversando no avião, ela me perguntou o que eu pretendia fazer da vida, e foi aí que eu disse pela primeira vez “Acho que vou ser um tatuador”. Eu gostava muito de desenhar, curtia muito tatuagem, mas no Japão era super difícil encontrar um tatuador, você tinha que conhecer alguém que tinha se tatuado.

E como foi esse começo de carreira como tatuador?

Nessa viagem, minha ex-namorada voltou pro hotel e falou “acabei de conhecer um tatuador, fui no estúdio dele, ele me disse que vai te dar uma força, te ajudar a comprar os equipamentos”. Lembro que na hora eu fiquei meio puto, aquela coisa do orgulho masculino de querer conquistar as coisas por conta própria. Mas acabei indo lá trocar uma ideia, e o fato de morar em Tóquio fez toda a diferença, existia uma admiração natural dele pela cena e história da tatuagem no Japão. Ele me deu uma puta força, mal sabia que estava falando com um Pernambucano! (risos) Voltei para o Japão com todo o equipamento, chamei meu irmão e disse “Segura meu braço”. Ele esticou a pele, eu comecei a me tatuar e perguntei “E aí, acha que rola?”. E ele “Rola, rola…” (risos) Depois um brother falou que queria ser meu primeiro cliente. Eu conhecia dois tatuadores no Japão que também me deram uma força – ficava no estúdio deles vendo eles trabalharem. Depois juntei uma graninha e larguei meu emprego pra me dedicar somente à tatuagem. Aluguei um quartinho, ia pra lá e ficava dormindo, não rolava nada, o telefone não tocava. Ficava pensando “Fodeu!”

Acha que se tivesse começando hoje seria mais fácil?

Cara, hoje um moleque de classe média, que tem opção de estudar, pode falar “Vou ser tatuador”! Ou mesmo o graffiti, que era uma parada super transgressora, logo mais vai estar no currículo de uma FAAP da vida. Há 15 anos, você não queria ser tatuador: acabava tatuando. Era mais por falta de opção mesmo. O tatuador tinha sempre aquela imagem do cara mau humorado, fumando e bebendo sem parar. Hoje os estúdios viraram clínicas, a coisa se profissionalizou.

Qual foi o impacto dessa mudança pro Japão na sua vida?

Acho que eu virei gente de verdade no Japão. Me considero sortudo de ter parado lá em ver de ir para a Califórnia. Acho que eu seria uma pessoa completamente diferente. Porque nesse período, dos 20 aos 30, você amadurece pessoal e profissionalmente. E ter passado essa fase no Japão foi muito importante, eu sou muito grato a isso. Por mais que eu pensasse que não tinha como estar em um lugar mais alienígena na Terra, eu sempre tive um lance meio familiar ali, sempre me senti bem. E não basta você gostar da cidade, a cidade tem que gostar de você. Eu vi muito isto acontecer: pessoas que chegavam em Tóquio e queriam fazer isso e aquilo, mas a cidade mastigava e cospia os caras.

Como se deu essa transição de tatuador tradicional, que tatua o que o cliente pedir, para o tatuador autoral, que só usa tinta preta e tatua desenhos que cria?

Isso começou no Japão. Na verdade eu sempre tive essa loucura com o preto. Nunca me achei muito bom com cor, com talento para nada que não fosse essa pegada mais gráfica, mais bold, tribal. Lógico que no começo eu tatuei de tudo, Demônios da Tasmânia, Golfinhos, clássicos que eu acho que todo mundo deve ter que fazer um dia. Mas sempre tinha em mente trabalhar só com o preto. Aí eu conheci o Sabado em Nagoya, um cara que aprendeu a tatuar no Brasil e fez o caminho inverso ao meu. De vez em quando eu ia pra lá tatuar e comecei a fazer uns blocões pretos. Tinha o Gary Kosmala, que era um dos originais da chamada “Black Wave” em Los Angeles, que eu também conheci e foi uma grande influência. Foi tudo muito gradual, mas posso dizer que entre 1997 e 1999 começou a rolar uma história mais forte. E o Japão foi um terreno fértil pra isso: a galera se jogava, por isso eu sempre considerei a minha tatuagem japonesa, pelo simples fato de ter se originado e desenvolvido no Japão.

“Foi uma ruptura brutal pra mim: um dia eu estava no Brasil, andando [de skate] direto, e no outro eu estava no Japão trabalhando numa fábrica. Lembro que na época eu usava umas pulseiras, e depois de uns três dias no Japão peguei uma tesoura e cortei todas. Foi um momento marcante, eu já sabia que eu não voltaria para algo que, sem exagero, foi uma das fases mais felizes da minha vida.”

Há muita diferença na forma como um tatuador oriental e um ocidental lidam com a coisa?

Pra mim tem esse estilo americano, que é baseado num modelo de negócio mais tradicional, uma loja na rua, e o modelo Japonês, que é o cara tatuando no apartamento dele, sem placa, só com a divulgação boca-a-boca. Lógico que hoje lá tem uma galera que já adotou o formato americano. Mas se você chegar no estúdio de um cara como o Horiyoshi, por exemplo, vai até poder escolher o tema, mas não vai aprovar o desenho dele. Se você chegou ao cara, está subentendido que já passou dessa fase.

Alguns tatuadores brasileiros conseguiram montar verdadeiras grifes e chegam a ter 10 tatuadores trabalhando para eles, em um esquema de alta rotatividade.

Esse aspecto do negócio eu acho até legal, a galera tem que fazer grana mesmo. Acho que tem espaço pra todo mundo, e uma loja dessas pode ser a porta de entrada para um cara que vai fazer uma parada muito vanguarda lá na frente.

O que uma tatuagem representa para você?

Pra mim é um ornamento e acabou. É você se olhar no espelho e se sentir mais bonito, mais estiloso com a tatuagem do que sem ela. Agora, isso não quer dizer que você não possa fazer uma tattoo que tenha um significado a mais, uma homenagem póstuma ou uma brincadeira entre amigos, por exemplo.
Essa questão decorativa é a primeira de todas e sempre é ligada a uma questão de origem, de significado, identificação. E o legal é que cada pessoa tem a sua viagem. O Horiyoshi achava incrível as pessoas quererem algo que dói para caralho, é muito caro e ainda vai te deixar numa posição foda dentro da sociedade.

Li certa vez no seu site a frase “A tatuagem nunca é mais importante do que a pessoa que a está usando”. Acha que tem muita gente tatuando e sendo tatuada meramente pela estética hoje em dia?

Não sei se é uma questão meramente estética ou se é uma combinação de estresse com consumismo. Acho que tem um aspecto consumista nisso tudo, mesmo que ninguém chege e fale “olha a tatuagem que eu comprei”. E a galera quer se tatuar. Agora a qualidade, o que vai ser tatuado, o quão superficial isso pode ser ou não, é o que separa quem é quem nessa história. Então, quando eu digo que a pessoa é mais importante que a tatuagem, quero dizer que se você tiver um espírito forte, pode fazer qualquer coisa, correr riscos, que as pessoas vão te imitar, porque você é quem você é.

“Tem essa história de falarem que tatuagem é arte, graffiti é arte. Não é arte, meu, é artesanato! Sei lá, de 500 grafiteiros existam talvez três caras cujo trabalho você vai olhar e falar “Isso é muito foda!” Com a tatuagem é a mesma coisa.”Quando você decidiu voltar ao Brasil, tinha certeza de que seu trabalho seria aceito?

Na real eu estou surpreso até agora, porque quando eu decidi voltar pra cá eu não tinha a menor ideia do que iria acontecer, se eu iria trabalhar, se rolaria uma receptividade. Mesmo com o retorno do meu blog e as dezenas de comentários positivos, eu tinha essa dúvida. A cena aqui também é muito forte, tem muita gente. O Evan, por exemplo. Sou fascinado pelo trabalho do cara, pelo que ele consegue fazer aqui, a começar pelo fato de ser húngaro e tatuar a pele de brasileiros em estilo oriental, melhor que muito japonês. É louca demais essa mistura que rola aqui. E funciona, é muita doideira!

Há quanto tempo você está morando em São Paulo?

Eu estou nesse retiro há quase três anos. Parei tudo que eu estava fazendo no Japão, porque minha marca de roupas, a Life Under Zen (Luz), se tornou um reflexo do que eu estava vivendo na época, da minha personalidade e crise de identidade geral. Era muita gente envolvida e eu tinha perdido o controle da situação. Tinha acabado de abrir uma loja, investido uma puta grana, só que não tinha conteúdo, então resolvi simplesmente acabar com tudo, voltar pra cá e recomeçar. Saí de um esquema com oito pessoas trabalhando para mim, eu não fazia porra nenhuma porque sempre tinha alguém pra fazer por mim. Eu até levava a tatuagem a sério, mas não se compara com a maneira como eu abordo a coisa hoje. Então, basicamente, nestes últimos três anos estou pagando por um lifestyle que tive durante muito tempo. Fico trancado no estúdio o dia todo, preparo eu mesmo todas as minhas refeições. Vou no Ceasa toda semana, coisa que há quatro anos atrás era impensável. Eu ia no supermercado e não sabia nem o que comprar. Tive um puta crescimento aqui, algo que demorou para acontecer na minha vida.

Fala um pouco da sua vida atual e desse seu novo envolvimento com o design e produção de joias.

Acho que tudo se resume ao fato de eu querer que as coisas deem certo. Eu passei uma época tomando decisões pautadas por questões financeiras, talvez por influência do Japão, um lugar que cheira a dinheiro, entendeu? Também pelo meu histórico familiar, eu buscava estabilidade a qualquer custo. E foi um lance que eu nunca tive de verdade. Quando percebi isso, resolvi que começaria a decidir pelo que me faria mais feliz, resolvi relaxar um pouco e concluí que tudo ficaria bem. Nos últimos anos, levei uma vida super tranquila e simples, sem social, consumismo zero – não por uma questão ideológica, e sim financeira. Minha viagem foi mesmo tatuar, e eu aprendi pra caramba nesse período. O melhor de tudo é que eu não tinha a menor expectativa em relação a nada. Tem um ditado japonês que diz “Ichi Noue Mosane”. Traduzido, significa “Mais três anos em cima da pedra”. Isso tem muito a ver com novos desafios e com a história do ciclo de três anos, tempo necessário para que algo se encerre e se concretize. Eu sempre soube que estes três anos que se completaram seriam foda, que meu padrão de vida mudaria completamente e que eu teria que segurar a onda. Essa história com as joias já vem de um bom tempo, é algo que eu sempre tive vontade de fazer, mas sabia que ainda não era a hora certa. Quando tomei a decisão de parar com tudo, me matriculei numa escola de joalheria e fiquei lá, dividindo bancada com um monte de japonesinhas que ainda deviam estar no colégio. (risos) E tudo isso está se materializando agora, a primeira série de peças acabou de ficar pronta.

Qual a sua expectativa em relação a esse projeto?

Se eu for levar em consideração o que pessoas falam, estou confiante. Mas eu penso a longo prazo, e acho que vou precisar cumprir novamente esse ciclo de três anos. Ainda estou muito no começo. Continuo tatuando, fazendo as minhas coisas, mas isso é a coisa mais importante pra mim agora. E acho que, apesar de estar focado nas joias, já estou tentado a esculpir peças maiores, objetos e esculturas. Sinto que é uma questão de tempo pra isso acontecer.

Você consegue encontrar alguma relação nos dois oficios?

No Japão, o verbo que se usa para tatuar é entalhar. A tatuagem Maori também é considerada um entalhe. Acho que são ocupações similares, ambas são artesanato. Tem essa história de falarem que tatuagem é arte, graffiti é arte. Não é arte, meu, é artesanato! Sei lá, de 500 grafiteiros existam talvez três caras cujo trabalho você vai olhar e falar “Isso é muito foda!” Com a tatuagem é a mesma coisa.

Pra mim é muito claro que você está no time dos artistas já que tem um estilo próprio, bem autoral, marcante, diferente do tatuador artesão que passa o dia replicando desenhos como estrelinhas, demônios da tasmânia e índias com o cabelo esvoaçante.

Eu tenho uma índia dessas tatuada (risos). Duas, na verdade (risos gerais).

“A tatuagem tá na moda, e se essa previsão de que as pessoas vão ficar cada vez mais estressadas e deprimidas estiver certa, elas vão se tatuar ainda mais. Um cara se tatua em dois momentos: ou porque ele tá fodido, ou quando ele está sólido, confiante. A tatuagem está sempre num desses extremos, nunca no meio.”

Essas índias foram clássicas nos anos 1990, né? Voltando à pergunta, você se considera um artista?

Eu nunca me considerei um artista. Na verdade, me considero um cara de sorte pra caralho. Tenho sorte de a galera curtir esses desenhos que eu faço. É o que eu sei fazer, o melhor que eu tenho para oferecer. E tem essa coisa da moda, né? A tatuagem tá na moda, e se essa previsão de que as pessoas vão ficar cada vez mais estressadas e deprimidas estiver certa, elas vão se tatuar ainda mais. Um cara se tatua em dois momentos: ou porque ele tá fodido, ou quando ele está sólido, confiante. A tatuagem está sempre num desses extremos, nunca no meio.

Tenho algumas tatuagens feitas em épocas e com tatuadores diferentes. Mesmo hoje, 15 anos depois da primeira, ainda consigo enxergar um significado para cada uma delas. Não tenho arrependimento, pelo contrário: fazem parte da minha essência. Por outro lado, tenho amigos que me dizem que se pudessem voltar atrás não fariam nenhuma, ou fariam tudo diferente.


Imagina eu, no Japão, solto no mundo, doidão, literalmente possuído, cheio de questões e histórias na cabeça e me tatuando pra caramba, mas sempre com essa coisa meio budista de comprar amuletos – quando na verdade um amuleto tem muito mais força se você ganhar ele. Hoje eu olho pra isso e acho engraçado, sabe? Uma tatuagem sobre a qual você pesquisou, que tinha todo um significado, depois de um tempo pode não significar mais nada. E outra que você fez doidão num quarto de hotel em Amsterdam, pode ter um significado enorme depois de anos.

E esses reality shows, Miami Ink, L.A Ink? Se por um lado ajudam na popularização da tatuagem, por outro meio que banalizam, não acha?


Cara, isso era uma questão de tempo. Ajuda a disseminar a escola de tatuagem americana, e nisso eles são muito bons, conseguem colocar na TV, num formato que é facilmente absorvido. Mas nós estamos falando de televisão, entendeu? Não dá pra levar muito a sério ou ter uma opinião formada a respeito, é entretenimento, existem programas de tudo que é tipo – de carro, moto, cirurgia plástica, a tatuagem é só mais um tema ali no meio. A real é que a maioria de nós vai morrer sem nunca ver as tatuagens mais fodidas do mundo, porque essas pessoas não aparecem. Quantas vezes eu não vi, em casas de banho no Japão, cenas cinematográficas de carrões parando na porta, o boss descendo com vinte seguranças, entrando na sauna, os caras todos de terno na porta e só o chefão de toalha, com o corpo completamente fechado de tatuagem? Eu acho que esse conceito de arte-crime é o next level da parada. Porque, do jeito que as coisas vão, é a única coisa que ainda vai ser relevante. Hoje em dia o cara vai lá, se tatua inteiro, até o pescoço, escreve southside, LA, mas de onde saiu isso? Da cadeia. De onde saiu a tatuagem japonesa? Da máfia. Essa foi a galera que começou tudo. Hoje em dia qualquer um pode comprar a sua, e isso tira muito a magia da coisa.

Seu estilo, como você mesmo define, é uma mistura do oriental com o das ilhas do Pacífico, dos maoris, da Polinésia. Hoje, três anos depois de voltar ao Brasil, você acha que a cultura daqui começou a influenciar o seu traço?

Influenciou sim. Já estava rolando e se desenvolvendo, mas eu sinto e vejo no meu desenho hoje. Toda essa mistura de etnias, de história, é muita doideira. Como você explica um cara vir de avião do Sul só pra tatuar comigo um desenho muito influenciado pelo que acontece no Pacífico? Será que é só porque o cara simplesmente curte o meu estilo? Não sei, acho outras conexões mais fortes levam esse tipo de coisa a acontecer. Sei lá, de vidas passadas. Eu nasci em Recife, cresci no Mato Grosso, depois em São Paulo, fui pro Japão, e não sei de onde vem, mas tenho essa ligação muito forte com o Pacífico.

Como você lida com o fato de interferir para sempre na vida de uma pessoa? Não é louco pensar no que motiva uma pessoa a ir até o seu estúdio para ser marcada para o resto da vida?

A gente está falando aqui de um mundo de homens maduros, adultos e bem resolvidos. E isso já poupa um monte de conversa, de análises e discussões sobre o que que a gente está fazendo, entendeu? É lógico que tem um aspecto no mínimo intrigante no fato de você desenhar algo num cara que vai ficar pro resto da vida. É óbvio que existem todas as facetas sociais, culturais, espirituais, artísticas, teológicas e filosóficas, mas não dá pra ficar pirando nisso, senão você enlouquece. Então eu realmente espero lidar com pessoas que sabem o que querem. E eu falo muito de homem porque considero a tatuagem uma atividade essencialmente masculina. Isso não é uma afirmação machista, mas estética. Não quer dizer que não existam mulheres que possam se tatuar e circular perfeitamente nesse universo masculino e continuar sendo mulher, entendeu? Mas não são todas, pelo contrário.

Por que você acredita que a tatuagem tem mais a ver com homens do que com mulheres?

Talvez pelo histórico da tatuagem, do que era feito nas ilhas. Pode parecer careta, é uma opinião muito pessoal, mas o corpo da mulher e do homem são completamente diferentes e não podem ser tratados da mesma forma. Hoje, essa linha [divisória entre os sexos] tá ficando cada vez mais cinza na cabeça da maioria das pessoas, e eu estou indo na contramão. Quero que fique cada vez mais definido, e não estou falando só de tatuagem, obviamente. Se você me perguntar se uma tatuagem faz uma mulher mais mulher, a resposta é não. Então por que uma mulher faria algo que não vai realçar sua feminilidade – pelo contrário, pode até neutralizar, desfigurar? Pra mim isso é uma questão meramente estética, não quero ser interpretado como um radical ou retrógrado, mas me considero um especialista em tatuar homens. Meu trabalho é masculino. Mas existem mulheres que vestem bem o que eu faço, e está tudo certo.

Saiba mais:
http://www.lifeunderzen.com