Por Marina Mantovanini
As mulheres francesas não saem da vitrola da artista Thais Beltrame enquanto ela cria seus desenhos em preto-e-branco. Nanquim, pincel e papel são suficientes para que ela divague através de rabiscos semelhantes aos que fazia na infância. Aos 33 anos, Thais passou por experiências que a fizeram retornar ao começo. Em seu ateliê, cercada por diferentes papéis trazidos por ela e por amigos de diversas partes do mundo, ela bateu um papo com +Soma e refletiu sobre o seu trabalho e o papel das mulheres na arte.
Você começou desenhando desde pequena, como a maioria dos artistas, ou o seu processo foi diferente?
Sempre desenhei, nem lembro quando foi a primeira vez. Nunca gostei de lápis de cor, sempre desenhei em preto-e-branco. Pegava a caneta bic, uns livros mais antigos da minha mãe e rabiscava, era meio compulsivo. E eu já saquei uma coisa desde pequena: não me interessa tanto ver como uma coisa é exatamente, trabalho muito de memória. Eu perguntava pra minha mãe: “quantas pernas tem um cachorro?” Lembro disso porque ela me sacaneava: “seis”. Aí, quando eu mostrava pro meu pai, ele dizia: “mas um cachorro com seis pernas?” Eu era muito imaginativa. Um dia minha mãe me levou ao estúdio do Mauricio de Sousa – eu tinha uns cinco, seis anos e todo mundo falava que eu ia ser artista. Levei um monte de desenhos pra ele ver. Ele olhou e disse “vai treinando que, quando crescer, você vem trabalhar aqui para desenhar a Mônica”. Saí indignada de lá, falava pra minha mãe: “não vou desenhar desenho dos outros!” Não sei o que pensei, se ia mostrar meus desenhos e ele montaria um gibi meu (risos).
Você chegou a estudar desenho nessa época?
Eu era aquela criancinha-prodígio da escola. Todo mundo falava que eu ia ser artista e isso me incomodava – me incomoda até hoje, não lido bem com elogios –, e nessa época era mais difícil. Eu desenhava muito, em quantidade. E aí teve um concurso, eu venci, e ganhei um curso de pintura. Tinha uns 10 anos. Mas o professor não quis me dar aula porque achava que eu tinha um estilo próprio. Não queria me estragar. Então eu nunca fiz nada, não estudei. Na adolescência veio aquela rebeldia chata, e eu não queria mais atender às expectativas de ninguém, porque todo mundo tinha certeza que eu ia ser artista. Fui morar fora, estudar comunicação.
Por que você decidiu estudar fora?
[Decidi] já no primeiro ano do colegial. Primeiro fui para San Francisco, estudar comunicação. Na época, eu não conseguia relacionar meus desenhos com uma profissão. Mas, na faculdade, eu levava tudo que via para o lado poético, não tinha escapatória. Um professor me falava: “você escreve bem, mas não é informativo”. No final das contas, fui fazer uma aula de modelo vivo e pensei: “é isso que eu deveria fazer, o que eu tô fazendo nessa aula de jornalismo?” Transferi a faculdade para Chicago e fui estudar arte.
Alguns artistas condenam a faculdade e outros a acham quase fundamental. Como foi para você?
Acho que a experiência de ter saído do país, enfrentado um monte de coisa sozinha, foi muito mais valiosa do que o aspecto acadêmico. O acadêmico me deu uma travada, tive que ficar um tempo me destravando. Mas alguns professores me desafiaram muito, e foram mais importantes do que os que me apoiavam. Eu tinha um professor muito antipático, muito da linha da arte conceitual, que menosprezava o meu trabalho, tachando-o de ilustração só por ser figurativo. Mas, ao mesmo tempo, ele me desafiava a questionar o que eu tava fazendo, e isso é muito importante para o artista. Quando me perguntavam por que eu era artista, minha resposta era sempre: “porque eu gosto”. Comecei a ser obrigada a refletir. Também aprendi a ir a museus, porque o que eu fazia antes era muito mais próximo do que via nos gibis e nos livros. A experiência foi legal, mas eu não sei dizer se foi essencial, porque hoje vejo que trabalho como sempre trabalhei. Saí de lá achando que era uma ilustradora, realmente me convenci disso.
“Cada trabalho que desenvolvo é uma descida ao inferno, ao inferno pessoal. Não é fácil, você não sabe o que vai ter pela frente.”
Sempre fico na dúvida entre o que separa uma ilustração de uma obra de arte.
Acho que não sou uma boa ilustradora, porque tenho uma relação muito intensa com o meu trabalho. Pra mim, é difícil ilustrar um texto. Meu primeiro trabalho de ilustração foi na [revista] "Vida Simples". Era incrível pra mim, porque os textos eram ótimos, eu me identificava. Já ilustrei outras coisas que achava meio fúteis, e aí já é difícil. Vejo que um bom ilustrador é muito mais maleável, a maneira como ele consegue transformar o visual com o texto, essa versatilidade de moldar o trabalho com o que está escrito. Pra mim, um bom trabalho de arte vive e respira, independentemente de ter um texto acoplado a ele. Então não vou falar que quem faz ilustra não pode ser artista, mas é fato que a arte tem que ter alma. Ilustração é um trabalho mais racional, e trabalho assim não me interessa.
Como você desenvolveu a sua técnica?
Praticando, praticando e praticando. Sempre fui apaixonada por linha. Então, em tudo que eu fazia acabava usando a linha. Se fazia uma aula de cerâmica, já tava eu riscando. Assumi a linha porque é o que eu mais gosto de fazer, é com o que mais me identifico, e cada vez presto mais atenção na sensibilidade dela. Antes eu desenhava com caneta nanquim, aí passei para bico de pena e hoje é só pincel. Com o pincel você consegue dar vida à linha, ela tem movimento. Foquei muito na linha, que é o que eu tenho feito desde pequena, explorando dentro do mesmo tema. Sempre fui muito objetiva, não patinei muito nas técnicas. Pelo menos por enquanto.
De onde surgiram os personagens dos seus desenhos?
Eu diria que é uma continuidade. Se você ver meus desenhos de quando era criança, não está muito longe do que faço. Então, de novo foi bem intuitivo. É lógico que durante o caminho você sofre influências, mas não tenho uma explicação lógica, [é] uma identificação com algo que já está dentro de você. Foi um desenvolvimento natural. A impressão que tenho é que crio universos, uma história mesmo. Mas não sou eu que mando, quem dera. Quanto aos personagens, eu não gosto de desenhar adultos, não sei por quê. Acho que, muito mais do que crianças, são humanos, e quanto mais a gente cresce, mais a gente se perde. Sinto que a raiz de tudo está na infância, o mais verdadeiro está ali, quer coisa mais espontânea do que a reação de uma criança? E os sentimentos, a relação com o mundo...
Você coloca suas dores nos desenhos?
Acho que tenho sensibilidade para as dores do mundo, sou do tipo que não aguenta muito ver jornal. Uma coisa com a qual eu não faço questão de lidar é o mundano, realmente não tenho nenhum interesse em chocar. Gostaria de acreditar que as coisas que faço pertencem a um outro tipo de realidade. Acho que o papel de um artista também é reverter valores, olhar para o mundo e virá-lo do avesso. Anos atrás, a gente não tinha máquina fotográfica, e o desenho retratava coisas históricas. Não me vejo nesse papel, pelo contrário. Quero passar coisas boas.
A arte feita por algumas mulheres no Brasil hoje tem similaridades, como a delicadeza dos desenhos e alguns símbolos ligados à natureza. De onde você acha que vem isso?
Vou falar por mim. Cada trabalho que desenvolvo é uma descida ao inferno, ao inferno pessoal. Não é fácil, você não sabe o que vai ter pela frente, e eu tenho muito interesse em psicologia, em Jung, e lendo percebi que estava usando muitos arquétipos sem nem me dar conta. Usando muitos símbolos do imaginário do I Ching. A montanha tem um papel muito importante, a árvore tem um simbolismo gigantesco, a casa é você. E isso foi natural, nunca li para colocar símbolos no trabalho, foi inconsciente. Quanto às outras artistas, acho que tem uma mistura de coisas: é comum rolar um determinado período com uma tendência estabelecida, e hoje os artistas têm muito acesso a outros trabalhos, usam muitas referências. Eu entendo do que você está falando, tem um pouco de tendência, mas pode ser um resgate da mulher mesmo, a mulher tem muito mais ligação com o selvagem, com a natureza, e talvez isso seja reflexo. O que importa é ter o olhar crítico.
“Gostaria de acreditar que as coisas que faço pertencem a um outro tipo de realidade. Acho que o papel de um artista também é reverter valores, olhar para o mundo e virá-lo do avesso.”
Como você entrou para a Famiglia Baglione (coletivo de arte urbana)?
Foi do nada. Voltei pra cá, comecei a fazer ilustração e a conhecer um pessoal mais relacionado com o graffiti. Na época, era o pessoal mais aberto. A primeira vez que fui pintar na rua foi a convite de um amigo meu do colegial, e comecei a conhecer mais gente. Por conta disso, fiz um trabalho junto com o Pato, e a gente ficou bem amigo. Aí o William [Baglione] começou a ver meu trabalho e um dia me chamou para entrar. Ele apareceu em um momento legal, porque eu ainda não tinha me encontrado, e com a Famiglia entendi o valor do meu trabalho.
Como é ser a única mulher dentro da Famiglia?
Acho tranquilo. Sempre convivi com muito menino, sempre fui moleca. Sempre fiz muita questão de não me colocar como mulher. A gente já fez muito trabalho juntos, já expôs juntos, e cada um tem o seu ritmo de trabalho. Não tem diferença. Estar em um coletivo não é fácil, cada um tem as suas opiniões, mas o William é mais do que um agente, é um paizão, e nunca me tratou como menina. Inclusive, ele é durão, e é importante que seja, porque mais do que amigos, mais do que artistas, somos iguais. E a gente tem uma coisa de criticar, de falar muito a verdade sobre o trabalho do outro.
Qual a diferença entre criar em muros e nos papéis?
É bem diferente, porque pintar na rua é sair da zona de conforto, e o papel tem essa coisa mais confortável. A rua tem um milhão de variáveis. É importante perder o controle. Às vezes o muro é todo zoado, às vezes o lugar não é muito seguro, ou chove, ou aquele desenho que você achou que dava pra fazer não vai rolar. Mas não sou grafiteira, vejo mais como um exercício, sair da rotina. Faço com o mesmo cuidado, mas é mais descompromissado.
E o que te inspira a criar?
Eu leio bastante, mas é tudo muito indireto, muito de absorver. Tem um ditado célebre: “quanto tempo você demorou pra fazer isso? Minha vida inteira”. Essa é a bagagem de um desenho, é muito do dia-a-dia, das coisas que vivi. Fiz uma viagem pra China e até hoje guardo muito dela. Sou muito devagar. Todas as experiências por que passo são digeridas.
Ano passado você fez sua primeira individual fora do Brasil, na Carmichael, em Los Angeles. Como é expor fora?
Não tenho grande experiência, mas vou falar do que eu vivi. O que sinto é que ainda tem sido mais legal lá fora. É diferente a relação que as pessoas têm com arte aqui e lá. Em Brighton (onde a artista participou de uma coletiva em 2008) foi incrível, acho que foi a experiência mais legal, porque é da cultura dos caras – a pessoa tá passando ali, vê que tem uma coisa legal e entra, quer saber quem é o artista, tem uma conversa com você. Você vê bem a resposta das pessoas, elas têm interesse. Mas eu sinto que aqui tá começando a ter um público mais jovem, menos elitista, a ter uma circulação mais saudável.
Saiba mais:
flickr.com/thais_beltrame
baglione.blogspot.com