Fé no Mistério
Por Marina Mantovanini
Aos 24 anos, a paulistana Mariana Abasolo estreou sua segunda exposição individual no Espaço +Soma. A jovem artista usa o desenho como principal plataforma artística, mas também gosta de passear pelas colagens. Simpatizante da pirataria tanto na arte como fora dela, ela acha fundamental acabar com a ideia de que cultura é artigo de luxo. Conheça mais sobre Mariana na entrevista que ela concedeu à +Soma.
Você me disse uma vez que basicamente faz as mesmas coisas desde pequena: estuda, desenha, cuida das plantas e caminha. Como anda sua vida agora?
Segue a mesma coisa, acho que essa é minha dinâmica mesmo. Essas coisas, por mais simples que sejam, me deixam bem. É o que me traz calma e me dá aquela sensação de estar em um caminho que parece ser meu. Não que esse caminho realmente exista, mas só essa sensação já me ajuda a seguir fazendo as minhas coisas.
E a arte, como ela entrou na sua vida?
Para falar a verdade, eu não me sinto realmente envolvida com arte até hoje. Minha vida se encaminhou para isso, mas ela acontece muito longe disso tudo também. Agora, acho que meus primeiros contatos foram no colégio mesmo, aquela coisa de criança de desenhar o tempo inteiro. Dei sorte também de ter estudado em um colégio que me deu uma base muito boa disso tudo, não só de arte, mas de ser gente mesmo. Visitávamos tribo indígena, caverna, fábrica de sorvete, outros países, tudo. O que me fez ser, antes de alguém conectada à arte, interessada em viver e aprender as coisas. Acho que é mais por aí.
O que te inspirava a desenhar, durante o colégio,?
Acho que o que me inspirava mesmo eram os videogames, desenhos da TV, embalagens de coisas e meu avô, que pintava. Lembro de uns meninos no colégio que desenhavam o Pateta igualzinho, e pra mim era impressionante! Isso me fazia ficar triste com a minha falta de habilidade e me fez deixar o desenho um pouco de lado (risos). Mas durou pouco tempo, eu comecei a gostar mais dos meus desenhos que do Pateta e ficou tudo bem.
Você chegou a estudar em alguma escola de arte?
Assim que sai do colégio me mudei para o Rio de Janeiro e fui estudar artes na UFRJ. De cara vi que dali não ia sair muita coisa, era muito bagunçado... e resolvi que ia ter que me virar pra conseguir aproveitar um pouco melhor. Aí decidi cursar o que seria meu “curso ideal”. Acabei aprendendo algumas das coisas que queria e conheci umas pessoas legais, mas em geral achei bem desestimulante. Não sei se o problema era a instituição, a infra-estrutura muito ruim, os professores desanimados, ou os alunos que já entram se levando a sério demais. Enfim, depois de quatro anos nessa, voltei pra São Paulo e agora faço uma outra faculdade, de Tecnologia e Mídias Digitais. O curso tem quase nada a ver com arte, mas me inspira muito mais.
A exposição Fé no Mistério, que está no mezanino do Espaço +Soma, é sua primeira individual?
Montei uma [individual] em Cataguases (MG), numa espécie de museu principal da cidade. Ficava no centro de uma praça, era enorme,lindo. Tive que ocupar umas sete salas, mas foi com trabalhos que eu já tinha feito antes. Agora é bem diferente, os trabalhos foram feitos para isso, ela foi tomando forma aos poucos na minha cabeça. E fazer uma individual nunca foi uma questão pra mim, não é uma coisa que eu sentisse vontade de fazer. Mas achei o processo de montagem muito prazeroso, me fez entender com mais facilidade a relação entre alguns trabalhos, e deles comigo também. Essa exposição já tem um significado muito especial pra mim.
“Nunca fui tímida, mas sempre gostei muito de ser invisível. Isso é fundamental pra eu me sentir a vontade, poder passar um pouco desapercebida. Acho até que é por isso que gosto tanto de morar em São Paulo"
Por quê?
Passei o último ano inteiro desenhando menos e lendo muito mais. Começou com um trabalho acadêmico que eu precisava fazer. Resolvi falar sobre a necessidade dos mitos, símbolos mitológicos e principalmente do mistério pra que a nossa vida aconteça. Entrei em contato com muita coisa que eu precisava. O trabalho acabou, mas eu sigo com a pesquisa até hoje. Sabe aqueles assuntos que parecem te escolher? E agora, quando precisei parar e produzir para a exposição, percebi que o que fiz foi registrar, junto a outras coisas que me aconteceram, tudo isso que tinha estudado.
Dois desenhos seus saíram na “Gudi 02”, que tem a proposta de virar referência em arte. Como rolou esse contato?
A “Gudi” é mesmo muito legal! Eu já tinha trabalhado antes com o Dani Ueda, um dos responsáveis pela revista. Ano passado cheguei até a participar de uma exposição lá no cartel011, um espaço que ele tem com outros três amigos em São Paulo. Funcionou muito bem trabalhar com eles e desde então seguimos fazendo algumas coisas. A Gudi foi uma delas. Agora vai sair uma série de camisetas também.
Como você vê a evolução do seu trabalho desde que começou?
Vejo muitas mudanças em espaços curtos de tempo, acho que porque o volume de trabalho é grande. Eu trabalho em casa, e é difícil ser muito disciplinada. Mas já percebi que sou disciplinada a longo prazo. Às vezes passo um mês meio folgada, sem fazer o que precisava, mas compenso depois. Quando paro pra ver o que fiz em um ano inteiro, é muita coisa. Sigo registrando o mesmo tipo de coisa, mas vejo muita diferença de técnica e atenção. Me preocupo muito mais com os detalhes, acho que tenho mais paciência também. Vejo uns desenhos de um ano atrás e me acho muito grosseirona (risos). Mas com certeza isso vai acontecer ano que vem com os desenhos de hoje. A mão também parece que depois que afina não desafina mais. Antes eu desenhava todos os dias e, se parava uma semana, quando voltava já tava bem sem segurança, tudo meio torto, demorava uns dois dias pra voltar ao normal. Hoje posso passar um mês sem fazer nada, mas de primeira já tá tudo no lugar.
No seu Flickr há alguns trabalhos de colagens. Qual a importância desse estilo pra você?
Isso é engraçado, porque eu gosto muito de fazer colagem. É o que faço mais rápido e com mais facilidade. Coloco uma coisa em cima da outra e pronto, vai sempre de primeira. Tenho duas pastas lotadas de recortes que fui acumulando nos últimos sete anos. Uma parte só de pedaços de céu, outra plantas, crianças, e assim vai... Mas é aí que mora o maior mistério: eu raramente paro pra fazer [colagens], mesmo sabendo que costuma funciona bem. E pensando bem agora... deve ser de tanto trabalho que dá arrumar a pasta de volta (risos). De qualquer forma, tá nos meus planos me dedicar um pouco mais a isso.
Por que muitas vezes os personagens dos seus desenhos estão com os rostos escondidos?
Bom, aqui tem mais de uma questão. Esses desenhos são os que considero mais próximos de autorretratos que eu poderia fazer. Nunca fui tímida, mas sempre gostei muito de ser invisível. Não gostava que me percebessem muito. Quando fui fazer teste pra entrar no colégio, com uns 3 anos, fiz um desenho lindo – minha mãe que disse –, mas toda vez que a professora chegava perto de mim pra me ver desenhando eu parava e ficava só olhando pra cara dela. Só continuava se não tivesse ninguém me vendo. Me acharam maluca, mas deu certo e entrei no colégio! Isso é, e sempre vai ser, fundamental pra eu me sentir a vontade, poder passar um pouco desapercebida. Acho até que é por isso que gosto tanto de morar em São Paulo. E, depois de ter feito os primeiros desenhos assim, percebi que encontrei um jeito que gosto para retratar algumas coisas. Nunca me interessei por desenhos de observação crua mesmo, sempre preferi desenhar o que eu sentia de quem ou do que eu via, e dessa forma consegui me aproximar um pouco mais disso.
Saiba Mais
www.flickr.com/photos/abasolo