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Thu: 06-10-10

+COLUNA: Obras-Primas, Por Pedro Pinhel

(Coluna publicada na +Soma 17/Mai-Jun 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma)

Kurtis versus Curtis

Ícones de estágios diferentes da evolução da música negra norte-americana, Curtis Mayfield e Kurtis Blow têm muitos pontos em comum em sua trajetória. Se não foram os precurssores da temática social como discurso predominante em seus respectivos estilos, certamente foram pioneiros – Mayfield em 1970, quando pouquíssimos artistas, como Sam Cooke, o tinham feito; e Blow em 1980, quando nem sequer a trupe de Grandmaster Flash havia se arriscado em terreno tão fértil (a clássica “The Message” seria lançada apenas dois anos depois, em 1982). Curtis Mayfield, intérprete, compositor e cantor incomparável, se tornou grande demais para seu ex-grupo vocal, The Impressions, e partiu para sua fantástica carreira solo com o hoje célebre “Curtis”, responsável por 50% desta coluna. Kurtis Blow, rapper da fase disco do gênero, surgiu como um artista enérgico, criativo e versátil. Suas rimas, sempre esgoeladas e sobrepostas a bases das discotecas e do break, misturavam temas sempre variados, como as festas, a diversão, as ruas, a pobreza e a dificuldade da vida no gueto em 1980.

Curtis Mayfield . “Curtis” (1970)

Mais conhecido pela espetacular trilha para o filme “Superfly”, de 1972, o soulman Curtis Mayfield é uma das figuras mais inventivas da música negra norte-americana. Tão fundamental para o gênero soul da virada da década quanto seus contemporâneos Marvin Gaye e Stevie Wonder, o ex-integrante do grupo The Impressions rapidamente se tornou grande demais para o combo, e o resultado de tamanha inventividade foi o hoje celebrado “Curtis” (Curtom), disco de estreia do maestro, lançado em 1970. Mayfield, que já acumulava as funções de compositor, arranjador e vocalista nos Impressions, continuou o processo de evolução criativa em sua primeira tacada solo. Talvez o maior mérito do LP seja o fato de ter praticamente introduzido o discurso de temática social na soul music – ok, Sam Cooke havia gravado petardos socialmente relevantes aqui e ali, e Marvin Gaye já estava em estúdio com seu “What’s Going On”, mas tecnicamente Curtis Mayfield é o cara – de forma absolutamente autoral, associando o R&B elegante dos anos 60 ao soul/funk que seria a marca registrada da produção negra ao longo década de 70. Faixas como “If There’s a Hell Below We’re All Gonna Go”, “We The People Who Are Darker Than Blue” e “Move On Up” (sampleada pelo esperto Kanye West para uma faixa não tão esperta assim) tiveram impacto instantâneo na nova estética musical do gênero, mas a dica para os aficionados e diggas em geral é a lindíssima “The Makings Of You”, cujos arranjos açucarados e vocal suave são capazes de desalojar calcinhas e roupas íntimas em geral com a simplicidade da força do pensamento. Confira!

Kurtis Blow . “Kurtis Blow” (1980)

O disco “Kurtis Blow” (Mercury), lançado pelo folclórico rapper homônimo em 1980, foi um marco à época de seu lançamento. Além de ser uma raridade – pouquíssimos albums foram lançados no primeiro boom do gênero, entre os anos de 1978 e 82, em que a prioridade eram singles e hits certeiros de medalhões como Sugarhill Gang e GrandMaster Flash & The Furious Five –, o LP foi o primeiro a introduzir mensagens de temática social no discurso do rap. Confira as celebradíssimas “Hard Times”, posteriormente regravada pelo duo Run-DMC, e “The Breaks” – que, apesar de ser um hino de festinhas aqui e acolá, retrata o dia-a-dia dos guetos norte-americanos da virada da década em questão, tendo influenciado diversos artistas do tal underground hip-hop da década seguinte. Kurtis Blow tinha a língua tão afiada quanto seu estilo performático, que culminou em uma das performances mais espetaculares da história do mítico “Soul Train”, ícone da TV norte-americana apresentado pelo carismático Don Cornelius (confira a versão ao vivo para “The Breaks” no YouTube imediatamente: bit.ly/kbsoultrain). Mas nem só desses dois clássicos vive a pepita, portanto preste muita atenção às ótimas “Rapping Blow” (Part 2) e “Way Out West”, igualmente dançantes e inventivas. Mas a influência das discotecas estadunidenses não era a única na música de Blow, que foi buscou inspiração nas baladas soul para compor faixas como a nem-tão-boa-assim “All I Want In This World (Is To Find That Girl)”, que remete aos Chi-Lites, um dos grupos vocais preferidos do MC. O sucesso comercial de “Kurtis Blow” tem importância histórica evidente no cenário do rap, viabilizando contratos de long plays para gente como Run-DMC, Whodini e Fat Boys, a chamada segunda geração do gênero. O resto é história!

Pedro Pinhel faz o Radiola Urbana e o blog Original Pinheiros Style. A partir desta edição, escreverá sobre dois discos aparentados entre si nesta coluna.