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Thu: 05-27-10

+ENTREVISTA: Blitz The Ambassador, Por Daniel TamenpI

(Entrevista publicada na +Soma 17/Mai-Jun 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)

Boombox Suicida


Por Daniel Tamenpi . Fotos divulgação


Blitz The Ambassador foi uma das grandes novidades no hip-hop em 2009. Natural de Gana, na África, o rapper mudou-se para os Estados Unidos para concluir seus estudos e por não ver futuro na carreira musical em seu país. Com uma proposta sonora bem diferente – que unifica, no real sentido da palavra, o rap com as raízes africanas –, o rapper formou a banda The Embassy Ensemble (que conta com a colaboração de integrantes do Hypnotic Brass Ensemble) e lançou seu elogiado disco de estreia “Stereotype”, no meio do ano passado. Seu auto-definido “afrotronic hop”, que une afro-beat, eletrônica e rap, agradou de cara, e o Embaixador está com a agenda cheia de shows. O MC ganense já abriu turnês de nomes como Nas e Big Daddy Kane. Em conversa com a +SOMA, ele falou sobre suas raízes, sua música, Fela Kuti, a decadência da indústria fonográfica e muito mais.

Você nasceu e foi criado em Gana, na África. Como foi sua aproximação com a música, e quando o hip-hop passou a fazer parte de sua vida?

Ter crescido em Gana influencia tudo que eu faço – definitivamente influenciou meu estilo musical por completo. Meu estilo de som dentro do hip-hop é um reflexo direto do highlife e do afro-beat, que foram as músicas da minha infância. Na África nós temos uma relação muito intensa e poderosa com a música. Você já viu um show do Fela [Kuti]? Mas eu também peguei muita influência do resto do mundo. Eu adoro música em geral, então dá para ouvir jazz, funk, música latina e blues no meu disco. Fui apresentado ao hip-hop pelo meu irmão mais velho quando eu era bem novo. Entre os primeiros artistas que ouvi estavam Public Enemy, Bid Daddy Kane e Rakim.

Eu li que você tem como principal influência Fela Kuti e Hugh Masekela. Fale sobre a importância que esses músicos têm para a África e para a música africana.

Eles foram os primeiros a abrirem a África para o mundo, em termos de música africana de raiz. Foram os primeiros a exportar esse som. Sem eles eu não poderia fazer o que faço. Eles pegaram sons tradicionais e os tornaram internacionais. Agora estou tentando pegar esses mesmos sons e incluí-los no hip-hop.

O que levou você a se mudar para os Estados Unidos?

Eu me mudei para os EUA para cursar uma Universidade e seguir minha carreira musical. Existem muitas oportunidades nos Estados Unidos e em Nova York, em particular.

O seu som tem o diferencial de incluir a banda The Embassy Ensemble, que dá grande ênfase aos metais, criando uma sonoridade única dentro do hip-hop e fugindo de comparações com outras bandas de rap. Você já tinha esse formato na cabeça?

Sim, eu sabia que nenhuma banda de hip-hop enfatizava os metais. Por ser de Gana, eu considerei necessário incluir isso no meu som. Se você ouvir o Embassy Ensemble, reconhecerá a banda imediatamente, exatamente pelo naipe de metais.

Como está sendo a aceitação da sua música nos Estados Unidos?

Temos sido muito bem aceitos. Chegamos ao Top 10 no ranking americano do iTunes hip-hop. Estamos fazendo turnês constantes pelo país e conquistando novos fãs a cada dia.

Como você define “afrotronic-hop”?

Estava esperando alguém me perguntar isso. Afrotronic-hop é afro-beat, eletrônico e hip-hop, tudo junto. A minha música é isso.





A capa de “Stereotype” é ótima, parece uma campanha contra as rádios. Como você teve essa ideia?

Antes de começar a escrever as músicas eu pensei na imagem de um homem com cabeça de boombox cometendo suicídio. Mais tarde, nós demos vida a esse personagem e o chamamos de St@tic Stereohead. Foi a minha metáfora para a indústria musical. Essa imagem influenciou o meu som também. Depois disso, todas as músicas que eu fazia tinham que ser tão fortes quanto essa imagem. A parte mais longa do processo foi fazer o álbum. Não quis que fosse apenas uma compilação de músicas, quis criar um disco verdadeiro e consistente, que levasse o ouvinte a lugares diferentes. Como qualquer grande história, eu queria inspirar, desafiar e entusiasmar o ouvinte. Tudo de uma vez só. Então gravei várias músicas. Muitas delas não entraram no álbum simplesmente porque não se encaixaram na vibe, no sentimento de uma determinada sessão, ou porque eram muito semelhantes em estilo a alguma outra música que eu já tinha feito. Alguns desses sons terminaram fazendo parte da mixtape “On My Mistape Sh*t”. Por isso a mixtape acabou ficando tão boa. Eram faixas feitas para entrar em um disco completo.

Confesso que conheci sua música através de downloads em blogs. O que você pensa dessa situação dos downloads ilegais de sua obra?

Música é feita para ser ouvida. Até esse ponto, a música é gratuita. O que não é grátis são elementos do show, que não podem ser transformados em marca comercial. Um dia as pessoas que fazem download da minha música irão a um show ou comprarão uma camiseta. Acho que é uma excelente forma das pessoas conhecerem meu trabalho. Por isso, eu me concentro no visual e no show ao vivo. É importante ter alguma coisa que as pessoas não possam baixar na internet. A experiência ao vivo é única, e gostsaria muito de fazer uma turnê pelo Brasil em breve.

Suas letras têm um teor social e político muito forte, fato raro no hip-hop atual. Qual a importância de temáticas sérias para o hip-hop?

O hip-hop comercial não é feito para ter mensagem que não gire em torno do consumismo. Mas sinto que as pessoas comuns que conheço lidam com uma gama bem maior de questões, e é para essas pessoas que eu falo. Não tenho problema nenhum com músicas que são puramente divertidas, mas acho que é preciso existir outro polo, uma plataforma para pessoas que querem falar sobre assuntos mais sérios.

Você é um artista independente e faz questão de dizer isso. Seu disco foi lançado pelo seu próprio selo? Como você vê o futuro das majors em uma época de decadência da indústria fonográfica?

Sim, eu lancei o álbum pelo meu selo, Embassy MVMT. Acho que a indústria musical está mudando rapidamente. Os grandes selos estão sofrendo uma verdadeira crise. A indústria musical da forma que conhecemos está morrendo, se ainda não morreu. Músicos independentes podem fazer música mais rápido e sem amarras. Eu gosto da liberdade de ser independente. A internet muda tão depressa e é tão flexível e veloz... Agora é possível chegar diretamente até os fãs.

Como você enxerga o hip-hop atual nos Estados Unidos e também no mundo?

O hip-hop ao redor do mundo é mais usado para influenciar mudanças políticas. Nos Estados Unidos é algo mais recreativo. Não existem tantos artistas ligados a movimentos. Mas há algo a ser dito para o mercado que os artistas comerciais têm dado conta de criar. Existe, claramente, um amplo mercado nos Estados Unidos, então isso não pode ser ignorado. Eu acho que o hip-hop é o que fazemos dele.

Gostaria que você indicasse bons nomes da música africana atual.

Reggie Rockstone, K’naan, Wale, Baja And The Drye Eye Crew, e Mensa.

Saiba mais:
myspace.com/blitztheambassador