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Mon: 05-24-10

Entrevista: Guizado Fala Sobre o Recém-Lançado Álbum Calavera

Em 2008, o trompetista Gui Mendonça lançou “Punx”, seu primeiro disco instrumental sob a alcunha de Guizado. O álbum angariou muitos fãs e elogios da critica especializada com uma receita que misturava bateria, trompete, baixo, guitarra, pitacos eletrônicos e muitas colagens. Dois anos depois, Guizado coloca nas prateleiras o disco “Calavera”. Dessa vez, ele deixou um pouco de lado as colagens, colocou letras em algumas músicas e apresentou um álbum mais direto. Em entrevista ao site da +Soma, Gui Mendonça conta como construiu “Calavera”. Leia abaixo e baixe o disco aqui

Como foi o processo de gravação do “Calavera”?

O que facilitou bastante a pesquisa e poder experimentar várias possibilidades (neste disco) foi o fato de ter um tempo grande dentro do estúdio da Trama, onde pude fazer a pré-produção com bastante calma. Passei a frequentar o estúdio diariamente, de tarde, a noite, de madrugada, nos finais de semana. Além disso tive acesso ao acervo de instrumentos que existem ali, que é bem bacana, como sintetizadores analógicos da década de 1970, baterias eletrônicas clássicas como a Tr- 808 e a Linndrum. Isso tudo levou uns três meses de dedicação forte, depois fui convidando outros músicos para somar ao que eu já havia produzido. Ao todo foram cinco meses de gravação.

Qual a relação do título “Calavera” com a sonoridade do álbum?  

Calavera, que significa caveira em espanhol, remete às ruas do México, as festas do dia dos mortos, Acho interessante como certos povos pelo mundo encaram o mistério e o desconhecido de forma alegre e festiva. Voce encontra essas manifestações em diversos cantos do mundo como nos povos da Ásia, do Leste Europeu. E seguindo nessa viagem eu procurei compreender essa relação que existe entre o terreno e o divino, entre o bem e o mal, onde a sombra e a luz são uma coisa só. Vendo as coisas dessa forma talvez seja possível ficar no corre caótico da cidade e ao mesmo tempo ter uma consciência um pouco mais desenvolvida sobre nós mesmos. Ou seja, queremos amar essa cidade, suas luzes, suas ruas, as pessoas, as baladas, o cotidiano, mas também é necessário buscarmos algo que vai muito mais além disso tudo, algo que só encontraremos quando vamos de encontro a nós, na calma.
 
Quais foram as principais influências durante a criação do álbum?

Fora tudo que foi desenvolvido no disco anterior, como os arranjos eletrônicos explorando os beats e os sintetizadores, um certo conceito de improvisação e uma estética de rock, o que veio a somar dessa vez foi o tempo disponível para pesquisa e experimentos. Fiquei bastante envolvido com a cultura do meu instrumento principal, o trompete, mais especificamente dos povos em que este instrumento é muito popular como o México, o Nordeste Brasileiro, o Leste Europeu, Espanha e um pouco da música pop. Tenho ouvido também muitas outras coisas como as produções de Phil Spector e seu Wall of Sound, Os primeiros discos  dos Silver Apples, Serge Gainsbourg, Eletric Prunes, e algumas coisas atuais.

Diferente do "Punx", que era totalmente instrumental, no Cavalera você canta em algumas faixas. Como foi essa transição?
 
Foi uma passagem gradual, já vinha cantando um pouco nos shows. Músicas como “Amplidão” e “Marisco” já vinham sendo tocadas. Sempre procurei usar o canto como ferramenta de estudo, pois sempre acreditei que você deve tocar um instrumento mais ou menos como se canta para a som soar verdadeiro. E essa maneira de pensar me ajudou a ter uma pequena proximidade com a história do canto. Mas eu já adianto que não sou um cantor mesmo,  estou apenas aprendendo a usar a voz para imprimir uma coisa mais orgânica no som, e levar um pouco mais de poesia na música.

Fale um pouco sobre a participação das cantoras Céu e Karina Buhr do M. Takara e do Bernardo Pacheco. Como desenvolveu esta história? O que eles trouxeram para o disco?

A Céu chegou trazendo a leveza que faltava para a música “Skatephaser” se equilibrar e contrastar com a minha voz grave e carregada de efeitos. Ela canta nos refrões e essa parte ficou mais ensolarada com sua voz. Karina canta em “Girando”, uma canção que descreve alguém que vê uma garota dançando e girando meio que distante, meio como um sonho. Entre os primeiros versos e refrões surge uma parte especial em que a música se desdobra e Karina canta como se fosse aquela garota dos sonhos descrevendo uma espécie de festa cósmica. Com o Takara nós simplesmente marcamos uma tarde no estúdio e começamos a fazer esboços e improvisações. Então foram surgindo harmonias, formas e  texturas interessantes, depois eu editei tudo e desenvolvi um pouco mais aquela ideia. No caso do Bernardo foi ele quem mixou o disco todo. Nas músicas “SkatePhaser” e “Calavera” sua participação foi naturalmente se estendendo para a parte artística e ajudou na criação de certas partes da música.

O “Punx” é um disco mais desconstruído, com mais colagens. Já em “Calavera” rolou uma sensação de unidade maior. A batida também é mais cadenciada, menos quebrada. Foi intencional construir um disco mais direto?

Sim, realmente, isto que você esta me colocando faz muito sentido. Acho que muito disso se deve ao desafio de ampliar um estilo e ao mesmo tempo não perder a sua essência. Esse exercício é bastante estimulante pois aumenta as possibilidades do que se pode fazer e até aonde se pode ir, E houve realmente a intenção nesse trabalho de estabelecer um equilíbrio maior entre a comunicação direta e o abstrato, como que se os pés estivessem mais firmes no chão, a mente livre para navegar por aí. Pelas melodias, pelas harmonias e pela poesia também. Apesar de tudo isso, eu nunca sei exatamente como um disco vai soar no final. Muitas coisas aconteceram antes e durante a produção do disco que levaram as coisas na direção que foram. Viagens, descobertas, coisas alegres e coisas tristes que surgem quando você menos espera e que tiveram também sua porção de contribuição para o resultado final.

Faça uma análise da sua evolução musical desde o lançamento de "Punx" até hoje.

Sei que o tempo nos ajuda a fazer as coisas cada vez com mais calma. Quando você me pergunta sobre evolução musical eu entendo como algo que não está diretamente associado aos meus discos, mas que obviamente acabam sendo influenciados por essa evolução. O “Punx” mostra de forma muito forte minhas descobertas no campo da música eletrônica, meu fascínio pelas máquinas e sintetizadores velhos, pelo trabalho com o computador. Foi um momento em que estava descobrindo todo um universo de artistas que criavam com máquinas. E isso foi muito motivador para mim naquela época: manipulei bastante o som do trompete, fazendo com que ele soasse bastante eletrônico, com uma certa sujeira digital-analógica. Já no momento em que comecei a produzir o “Calavera”, eu já estava há algum tempo voltado para outras coisas também. E então, muitas coisas vieram a tona e passaram a fazer sentido e se encaixar... passei a ouvir muito um trompetista mexicano erudito chamado Rafael Mendez, assim como alguns artistas da região da Sérvia... junto a isso minha pesquisa no campo da música eletrônica também seguiu em frente. Voltei a escrever nesse disco, escrevi para trombones e trompetes, pensei em arranjos mais orquestrais para alguns momentos, explorei a voz e tive muito mais tempo para trabalhar e isso foi muito importante.
 
Por Marina Mantovanini