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Tue: 05-11-10

Miguel e Os Demônios . Lourenço Mutarelli . Companhia das Letras . 2009

A editora vende o produto como antirromance. Segundo a tradição, no máximo, teríamos uma antinovela com pouco mais de 100 páginas. Mas nada disso é importante para definir a nova ficção de Lourenço Mutarelli, um dos maiores quadrinistas brasileiros, que jogou para o alto sua reputação nessa área e foi amealhar respeito e visibilidade na ficção e no teatro. A tinta verde da impressão e os elementos que fazem do livro quase um roteiro de cinema (“Sépia. Terreno baldio. Imagem borrada, luz difusa. Lembrança. Um menino solitário brinca com um graveto. Miguel, menino. Detalhe da mão do menino erguendo o graveto para o céu”) funcionam como uma cortina de fumaça que esconde a qualidade pela qual o autor vem se destacando: contar histórias absurdas como ninguém. “Miguel e Os Demônios”, grosso modo uma novela policial, conta com todos o arsenal típico de Mutarelli, como o insólito e o absurdo, o humor negro, pinceladas de pedofilia, tortura, sexo e satanismo (inclusive as moscas constantes em todos os ambientes é alusão direta a Belzebu – nome que significa “senhor das moscas”), frases curtas e diálogos desconcertantes, tudo isso operado para escarafunchar as mazelas do ser humano. O drama de Miguel, um policial obrigado a lidar com uma vida particular estraçalhada, a falta de dinheiro para comprar presentes natalinos e outras adversidades, acaba por se tornar o inferno na Terra quando ele resolve praticar um ato de corrupção. Daí em diante, travestis e uma múmia na parede são apenas artifícios para Mutarelli tratar de sentimentos sufocados e de como certos atos nos transformam por completo. O que é mais legal, por fim, é ver o refinamento de elementos que poderiam justificar dizer que o autor continua fazendo quadrinhos, só que sem imagens. Por trás da cortina de fumaça   ou até em razão dela – é interessante notar que o autor usou o domínio de sua primeira vocação para agarrar um público mais amplo em seu trabalho literário e impor novos limites à ficção atual.

Por Arthur Dantas