Laboratório Fantasma . 2010
Mais do que um rapper, Emicida deve ser considerado um artista pop. Suas letras mostram que do jogo do rap ele já superou várias fases, e agora ele parte com a cara e a coragem que não lhe faltam para uma esfera maior. Não se deixem enganar pelo método de guerrilha usado para disseminar sua arte, isso é só parte da sua sensibilidade. Desde sempre, seu talento e sua desenvoltura para transformar chavões um tanto desgastados do rap lembram artistas como Jay-Z.
Mas o rap não é indústria por aqui – mal chegou à MTV. Nesse contexto, Emicida é esperto o suficiente para dimensionar seus pequenos passos e não jogar o bebê junto com a água do banho: ele pode não estar no topo do mundo como o rei de Nova York, mas a disposição é a mesma, e as inúteis barreiras entre rap underground e comercial não o assustam. “Já é hora do jogo virar, disposto, na sede / Meu caso é grave, eles querem sacudir as redes / Eu vim pra arrancar a trave”. Os versos de “Avua Besouro” são sintomáticos: caso viesse da boca de outro candidato a MC pop, soaria como pura falta de noção. Tanto no recém-lançado single como no EP, Emicida amplia seu leque criativo de forma curiosa, com resultados diversos.
O single, feito em parceria com Felipe Vassão, um mangue beat à moda Nação Zumbi, serve de cama para uma das melhores letras que o rapper já escreveu. Padre do balão, Glória Maria, Beto Jamaica, Ronaldo, gripe suína, flashdance, um herói da capoeira convertido em estrela de cinema – nunca sua visão foi tão precisa ao se valer do imaginário popularesco para falar do sempre pertinente tema da percepção dos negros em versão realista fantástica nervosa.
Como sempre, a levada do MC – consciente como ninguém do poder da voz, da interpretação – é ágil e potencializa o sentimento que busca despertar no ouvinte. Mas o que levaria Emicida a fazer rap/rock – uma equação perigosa desde sempre – aos 45 do segundo tempo? A explicação parece óbvia: Jay-Z não arriscou sua credibilidade ao lado do Linkin Park? Sabotage não gravou com o Charlie Brown Jr.? Quando o alvo é o pop, o que parece um desvario justifica-se em certa medida.
Já no EP “Sua Mina Ouve Meu Rap Também”, cujo nome faz referência a um som do MC Marechal, Emicida mostra o que tem de melhor: se a solução para o rap, que perde a cada dia espaço para o funk, é criar sons para as garotas (como “Mulher Elétrica”, dos Racionais), ele manda exemplos de ironia com amor interessado (“Quer saber/ é fácil gostar de mim/ fácil assim/ afinal, onde vou, onde tô”), elogia a arte do flerte, fala sobre o cara que não sabe dar valor às mulheres, amor sexual... Se essa é a cara do rap esperto do momento, mais uma vez Emicida está na frente. São ações pontuais como essas que o tornam o protótipo do artista completo do século XXI e deixam no ar a pergunta: será que, com o lançamento de um álbum de verdade, com produção à altura, seus trabalhos vão se tornar objetos cercados de expectativa como os discos dos Racionais MCs? Acompanhar a evolução e a música de Emicida é estimulante como poucas vezes a música consegue ser.
Por Arthur Dantas