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Tue: 04-27-10

+ENTREVISTA . MQN + Walverdes, Por Mateus Potumati

(A entrevista oi publicado na +Soma 16/Mar-Abr 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)

 

MQN + Walverdes . A Noite das Brincadeiras Mortais

Por Mateus Potumati . Fotos por Claudio Cologni e acervos pessoais.

121 decibéis. Um show de rock que chega a esse volume, contando com toda aparelhagem, já é considerado muito alto. Só como referência, 126dB mantiveram o The Who no Guinness por oito anos como banda mais com o som mais alto do mundo ao vivo. Em novembro de 2009, durante a passagem de som para seu show conjunto no Goiânia Noise, MQN e Walverdes chegaram aos 121dB. Mas com um detalhe: durante a medição, estavam ligados apenas os monitores de palco. Para quem não entende os pormenores técnicos, basta saber que, na hora do vamos ver, ficou MUITO mais alto. Eu sei, eu estava lá.

A brincadeira de medir volume, a um só tempo masturbatória, divertida e adolescente, resume bem o estado de espírito, naquele dia e sempre que se encontram, dessas duas velhas parceiras de estradas esburacadas, vans apinhadas de marmanjos e uma alternância entre noites memoráveis e presepadas homéricas. A “molecagem” no Noise foi o último golpe nos tímpanos de uma amizade que se confunde com a história da música independente no Brasil. A partir de Goiânia (MQN) e Porto Alegre (Walverdes), as duas bandas ajudaram a costurar uma rede sólida de bares, festivais, bandas e produtores que estão mudando a cara da música no país. Mas o que faz a cabeça deles mesmo é tocar. Alto.

O Walverdes é mais antigo que o MQN, então imagino que a amizade entre vocês veio do interesse da Monstro no Walverdes, é isso?
 

Fabrício Nobre . O Walverdes entrou na Monstro antes de mim. O “90 Graus” saiu pelo selo em 1999, mas na primeira vez que eles tocaram no Noise eu estava na produção, e o MQN tocou. Foi na 6ª edição, em 2000. Lembro que o Jorge [Nascimento, ex-baixista] pirou no Walverdes. E eu e Mini já éramos amigos via [a lista de discussão] Poplist. É isso, Mini?
 
Gustavo Mini . É isso aí. O Léo [Bigode, da Monstro] entrou em contato com o Marcos [Rubenich, baterista do Walverdes] quando a gente estava terminando o “90 Graus”. Era ótimo sermos lançados por uma gravadora de fora do Rio Grande do Sul. E o Fabrício era nosso parceiro de Poplist, o cara do CD-R com aquela capinha esquisita, uma letra cheia de rococós escrito MQN (risos).




 
Você já conhecia a Monstro?
 
GM . A gente conhecia a Monstro por alto. Eu não tinha noção da força que o selo viria a ter. Era um bom parceiro pra lançar nosso EP, que entendia o som e falava a mesma língua. E tinha a disposição de botar na rua, porque nós nunca fomos muito bons nesse lado.
 
FN . Marcio [Jr., sócio da Monstro] e Bigode são muito do zine, e o Mini também, né?

GM . Eu fiz três números de um zine chamado “Pôneifax”. Foi uma experiência bacana, mas não me considero propriamente fanzineiro. Li e troquei muito fanzine, mas nunca militei na causa. Foi uma passagem experimental bem bacana. Meu contato veio também das fitas dos Walverdes. A gente lançou seis, então trocamos muito com fanzines.
 
Vocês falaram da Poplist, e a lista teve um papel importante em toda uma geração de bandas e produtores.
 
GM . Era um lance muito fértil, deu em muitos contatos que frutificam até hoje.
 
FN . Não tenho mais tempo e/ou saco pra seguir, mas foi foda. Poplist era o Twitter. Você fazia um lance e ficava louco para as pessoas saberem.
 
GM . A quantidade de informação circulante era bem alta, numa época em que não tinha tanta informação como hoje. Foi algo muito valioso. E tinha um componente humano também: todo mundo fazendo porque gostava ou de música ou de bagunça, então a coisa rolava de um jeito leve.
 
FN . Hoje em dia tem outra geração que vem de outras articulações de web, mas muitos Poplisters seguem firmes. A primeira vez que tocamos em São Paulo foi com a Debbie, Adriano Cintra e Marco Butcher (Thee Butchers Orchestra e Ordinary Records). Também foi nas listas que conhecemos Lariú, Wry, Relespública... O pessoal de Brasília, da Divine, Prot(o) e tal. Autoramas, pessoal da Borracharia, Rodrigo do Grenade, os Irmãos Martucci de São Carlos, Sandro Garcia (Continental Combo), Zimmer e Ambervisions, o pessoal do Nordeste... Além de Walverdes, Video Hits e Bidê ou Balde. Essa galera meio que virou a turma da Monstro daí 5 ou 6 anos, fizemos shows e discos de quase todos. A Obra (Claudão) e Motor Music (Jeff, Fernanda e Boffa) também ajudaram muito, marcaram nossos primeiros bons shows fora – SXSW, Seattle com a Estrus. Pessoal da Slag, e em volta deles depois Gui, Dago... Putz, vou esquecer alguém e pagar um baita mico, certeza (risos).



 

Em 2001 vocês fizeram a tour com Nebula. Foi a primeira tour gringa da Monstro?
 
FN . Foi a primeira que a Monstro se meteu a fazer sozinha. Latada! (risos)
 
Tomaram no cu?
 
FN . Cara, tomar no cu é algo bem menor (risos). Não recebemos Londrina até hoje, tivemos que bater no baixista drogado num dia, voltamos dentro da van de reboque de Uberlândia a Goiânia, quase fomos presos com a van toda enfumaçada na fronteira entre Goiás e Minas. Perdemos toda a grana que tínhamos ganhado no Noise. Aquelas roubadas que só a Monstro foi capaz de fazer (risos). Mas foi foda. Era 2001, não tinha essas tours de hoje – um show em SP e um festival pagando tudo. Era tour mesmo! Mas me lembro de ter ouvido os refrões na demo do “Anticontrole” (disco do Walverdes lançado em 2002) e pensado “pelo menos alguém aproveitou” (risos).

GM . Mas peraê, quando fizemos essa tour o “Anticontrole” já estava gravado...

FN . Então não serviu mesmo pra nada! Fodeu! (risos gerais)


"A gente até botou numa fita 'cantar em português is cool'. Mas era só tiração de onda. Aliás, essa é a melhor coisa dos tempos atuais: caiu um certo patrulhamento que existia." Gustavo Mini, Walverdes

 

Lembro que um jornalista de São Paulo falou mal dessa tour, que vocês tinham colocado os gringos numa van (risos).

GM . Foi o Álvaro Pereira Junior. Eu escrevi pra ele dizendo “Os caras se matam pra trazer uma banda pra vocês assistirem e você só reclama?” E na resposta o cara foi bem menos ácido e mais compreensivo... Tem jornalista que tem síndrome de reclamão e confunde isso com qualidade.
 
Vocês também tocaram juntos com o Breeders em 2004, né?

FN . Essa tour foi classe. Tocamos no Club Fuzz em São Paulo com o Diagonal, no Curitiba Pop Festival, na Obra em BH com Space Invaders... E teve o Amexastock em Floripa, com Ambervions e The Dools!

GM . Amexastock no Rio Tavares com presença do Fábio Massari e do Gastão.

FN . Na Chácara do [guitarrista do Ambervisions] Amexa! Foi foda! As bandas tocaram literalmente na garagem. E nós levamos o Gastão e o Massari, que encontraram a gente em Curitiba. Chegando lá tinha uma bebida chamada “Aquela Mistura” (risos). Ficou todo mundo bêbado, 100% da festa. Daí a galera dormiu na casa do Amexa, e no outro dia dois fatos aconteceram: um cara cagou na cadeira da sala (risos) e a Fender novinha do Amexa sumiu. Acordou todo mundo de ressaca e puto, mas logo virou piada: os únicos não conhecidos eram os dois, então um tinha cagado no sofá e o outro roubado a guitarra! (risos gerais) Ficamos rindo disso o dia inteiro, depois acho que até contei pro Massari.





Walverdes e MQN pegaram bem essa transição de antes/depois da internet. Vocês lembram como encararam isso na época?

FN . O Walverdes pegou mais isso, porque é mais antigo. Mas eu chapei de cara com a internet: em 97, na faculdade, a gente pôde se inscrever para testar e eu entrei. E ajudava meu pai no escritório dele também. Ficava o tempo que podia no computador, participando de tudo que é lista, zines eletrônicos.

GM . Antes da internet usávamos o que tinha. Qualquer meio digital era caro ou difícil no início. A primeira grande mudança veio com as listas de email. Hoje se fala muito da importância do mp3, mas falar com mais agilidade foi uma revolução. Antes tinha que gastar uma grana de telefone ou dependia de carta. Outro avanço importante foi o advento de companhias aéreas mais baratas. Ficou mais fácil fazer tour.

O que mudou quando vocês começaram a sair mais de Porto Alegre?
 
GM . Fez toda a diferença, foi quando a banda renasceu. Antes do “90 Graus” a gente vinha fazendo pouco show, meio afastados em termos de banda. Eu tava com a Tom Bloch, o Marcos, o Bruno e o Gian com o Wander [Wildner], e a gente deixou a coisa meio em banho-maria. Com o “90 Graus” e a Monstro, a gente começou a tocar mais e sair de Porto Alegre. Foi fundamental pra abrir os olhos, formar contatos, ver como as pessoas de outras cidades resolviam suas questões. Nos primeiros anos a gente não era nada empreendedor, era um lance muito “subir no palco, ligar os instrumentos e ver no que dá”. E dava frutos, porque a melhor forma de conhecer Walverdes é ver o show. O “Anticontrole” foi outro salto. O disco nos deixou mais conhecido fora de Porto Alegre, por conta das músicas, da produção e do trabalho da Monstro. Todo mundo ganhou com ele: a gente, o [produtor] Iuri Freiberger e a Monstro. Não dinheiro, mas reconhecimento.

E o MQN, quando começou a sair mais?

FN . Em 1999 a gente foi pra São Paulo numa viagem com Motherfish, Prot(o) e Divine. Tocamos na Borracharia, Matrix, Torre e Alternative, e ainda gravamos “Lado B MTV|. Lembro exatamente o valor do nosso primeiro cachê na Borracharia: R$ 79, rachados com a Divine (risos). O mais importante pra uma banda é viajar. É meio inacreditável saber que já dividi palco com Buzzcocks, Mudhoney (Mark Arm até cantou com a gente), Trail Of Dead, Deep Purple, Nashville Pussy, L7 etc.

O ponto alto da amizade entre vocês até agora foi o show das duas bandas no Noise 2009. Falem um pouco a respeito.

GM . Foi tudo muito simples. O Fabrício propôs e a gente começou a ensaiar, cada banda na sua cidade, as músicas da outra. Durante os ensaios a gente meio que se arrependeu, porque começou a bater um receio de que fosse um fiasco. Mas não tinha mais volta. E tinha que ensaiar direitinho – nos covers cortamos as partes que não nos interessam ou nos atrapalham, mas nesse caso a gente tinha que tocar certo. Dois dias antes fomos pra Goiânia ensaiar, mas eu acordei com uma sinusite dos infernos. Pra completar, descobri que a agência onde eu trabalho perdeu uma das maiores contas. Mas, de qualquer forma, fizemos os ensaios e uma boa passagem de som. E até hoje me impressiona como tudo funcionou bem. O show foi ótimo, e seria fácil embolar as duas bandas, do jeito que tocamos, no Martin Cererê. Facilitou porque quem operou o som foi o Iuri, que conhece muito bem as duas; o diretor do palco era o André dos Astronautas, que também conhece. É um daqueles assustadores momentos em que tudo converge pra funcionar.

FN . A ideia era maluca, mas, como aqui no Noise a gente teria controle total da produção, eu resolvi arriscar. Todo mundo ficou cabreiro, mas topou. A preocupação maior foram as duas bateras, mas a galera se empenhou. Na hora foi muito alto, o Cererê lotado – melhor lugar do mundo para um show desses –, o povo pirando! Temos que repetir isso um dia.

Mini, as letras do Walverdes misturam coisas agressivas com outras mais filosóficas, talvez porque você seja budista. Você é budista há quanto tempo?

GM . Meu primeiro contato foi em 97, mas só comecei a praticar formalmente anos depois. Como influenciou toda minha visão de mundo, acaba influenciando nas letras. Mas eu já tinha minhas dúvidas existenciais antes de ter contato com o budismo. O que ele me ofereceu foram ferramentas para investigá-las.

“Insistente”, por exemplo, é uma mistura de um senso de humor punk – uma coisa gaúcha, no sentido Replicantes – e desse tipo de reflexão.


GM . É exatamente isso. A gente tem muita influência de Replicantes – não consciente, mas é do ambiente daqui. Aquela coisa TNT, Cascavelettes, Replicantes, da segunda metade dos anos 80, foi muito forte. Não era alternativo, tocava na Atlântida, a principal FM.

E tem a coisa de cantar em português também, bem forte no Sul.

GM . Isso era uma coisa engraçada. Até 2001, quando a gente saía de Porto Alegre e nos entrevistavam, sempre perguntavam: “Por que essa escolha de cantar em português?” (risos gerais)  E a gente ria, né, o que tu vai falar? Como assim, é a nossa língua? No resto do Brasil, 90% das bandas cantavam em inglês. Mas não era militância, era da nossa formação. Depois veio o mangue beat, Planet Hemp e aí parou essa coisa de inglês x português. Hoje cada um faz o que quer e ponto final. A gente até botou numa fita “Cantar em português is cool” (risos). Mas era só tiração de onda. Aliás, essa é a melhor coisa dos tempos atuais: caiu um certo patrulhamento que existia.





Não só em termos de letra, mas em termos de som também. A curadoria de um festival como o Noise era impensável 10 anos atrás.

GM . De tudo. As coisas estão diferentes.

Fabrício, essa curadoria é fruto de um gosto musical mais amplo que você desenvolveu nos últimos anos. Hoje vejo você curtindo tanto Hellbenders como Siba. Mas musicalmente o MQN é mais conservador, até mais do que bandas que influenciaram vocês. Como você resolve isso na tua cabeça?

FN . Cara, eu ouvi muito rádio quando era criança, muito rock brasileiro e gringo tipo Kiss, Queen, Beatles, Stones. No final da adolescência eu caí de cabeça no tal do indie, grunge, essas coisas. Então estão na base Pavement, Sonic Youth, Teenage Fanclub, Sonics, Cramps, Rocket From The Crypt, Gories, Nirvana, Melvins, Mudhoney. Quem me aplicou o heavy metal foram os guris do MQN, CJ e Miranda, e descobrimos junto o stoner. Então AC/DC, Deep Purple, Accept, vêm deles, e a gente pirou junto em Fu Manchu, QOTSA, Nebula. Então com a banda eu toco algo que representa mais o som que a gente gostou junto, aprendeu a fazer. MQN é meio rock burro, de roqueiro, diversão, mas tem um conceito, que funciona com aqueles quatro caras tocando daquele jeito, naquele volume, com aquele tanto de cerveja derramada. O lance da música brasileira vem de um uns seis anos pra cá, quando comecei a viajar mais. Tenho Siba como herói, acabei de produzir um show dele. Sou fã do Roberto Correa, trabalhei com Almir Sater, acho sensacional o pré-Carnaval no Recife. Jorge Ben e Tim Maia estão sempre no toca-discos no final de semana. Eu gosto de música.

Saiba mais:
myspace.com/mqn
myspace.com/walverdes