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Tue: 03-23-10

+ENTREVISTA . Otto Guerra: trinta anos e enfim a Sbórnia, Por Arthur Dantas

(Esta entrevista foi publicada na na +Soma 16/Mar-Abr 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)

Por Arthur Dantas . Retrato por Maurício Capellari . Imagens divulgação

Esqueça os estereótipos e os desenhos animados para crianças. A Otto Desenhos Animados, criada pelo lendário notívago e biriteiro gaúcho Otto Guerra, 53 anos, está por aí faz mais de trinta anos jogando areia nos olhos dos incautos e fazendo dinheiro quando possível. O que começou nas telas ingenuamente, com o O Natal do Burrinho – sucesso no Festival de Cinema de Gramado de 1984 – acabou em longas mais cascas-grossas como "Rocky & Hudson" (baseado nos personagens de Adão Iturrusgarai), de 1994, e "Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll" (personagens de Angeli), de 2006. Após a versão tropical de "Cheech & Chong", o negócio ficou sério: são 42 pessoas trabalhando no estúdio, onde estão no meio de um longa baseado na peça "Tangos & Tragédias", "Fuga em Ré Menor" de Kraunus e Pletskaya e se preparam para a operação mais audaciosa: um filme baseado na fase recente de tiras mais nonsense e existencialistas de Laerte.

 “[Tangos e Tragédias] tá na metade, falta um ano e meio mais ou menos de produção. Eu preferi dar um foda-se para os prazos e fazer uma puta animação. Vai ficar em um nível altíssimo!”

No site da Otto Desenhos, há uma síntese da gênese nada sagrada do lance todo, descrita com o humor característico de seu criador: “Em agosto de 1978 a Otto Desenhos Animados Ltda. surgiu a partir de uma iniciativa do jovem, musculoso e talentoso Otto Guerra, do alto dos seus 22 anos de idade. Naquela época a TV broadcast (sic) exigia as mesmas 720 por 486 linhas de definição de hoje e o mínimo para alcançar esse patamar era a película 16mm. Uma câmera Paillard Bolex usada custava algo como 8 mil dólares! (…) Sendo assim, após locar durante um ano esse equipamento (…) a empresa comprou em São Paulo (...) a tão almejada Bolex. A primeira Bolex a gente nunca esquece!”

A entrevista foi realizada a palo seco – contrariando os conselhos de amigos em comum, que achavam mais interessante entrevistá-lo no bar, regado a muito álcool – em sua produtora de aparência nada chamativa, onde o notório boêmio nos falou das incomuns pedradas criadas lá dentro. Porque, como disse Allan Sieber em mensagem também alcoolizada, “animação no BRAZIL é cuzeta mesmo, mas pelo menos o Otto faz alguma coisa menos monga”.

Qual a maior parte do trabalho do estúdio?

Faz uns seis anos que não trabalho com publicidade – graças a Deus (risos). Em vinte e tantos anos de trabalho fiz uns 600, 700 comerciais. Como eu fazia quadrinhos antes de montar a produtora, a ficção é quase como um filho, e a publicidade com o vínculo com o cliente tem o objetivo concreto de venda e deixa a coisa muito restrita. Mas foi através desses trabalhos que formei mão-de-obra, comprei equipamentos. Agradeço a propaganda todos os dias, mas que é um saco é um saco. O último trabalho que a gente fez foi uma campanha grande pra RBS (“Monstros RBS”), que é a Globo daqui. Até chamei o Jaca pra esse trabalho, só que a linguagem dele é muito evoluída pra propaganda (risos). A partir da genial derrocada do cinema brasileiro causada pelo gênio Collor, com o fechamento da Embrafilme, posteriormente surgiram entidades públicas e privadas sem aqueles vícios todos de corporativismo, de conchavo, toda aquela merda...

Mas tá rolando de novo, não?

Tá rolando de novo a mesma merda. A Ancine tirou a força das novas entidades. Como o último concurso era setorial, foram aprovados apenas projetos do Rio de Janeiro e de São Paulo. A Marta [Machado Desenhos], que é nossa produtora, uma guerreira, entrou numa briga com os cachorros grandes. Não dá pra deixar o corporativismo voltar – seria trágico para o cinema. Esse modelo brasileiro de o cinema ser mantido por grana pública é um lance polêmico pra burro: cinema deveria ser uma indústria com o ingresso pagando a produção. Daí tem essa distorção de o cinema não precisar atrair público. Sempre questionei isso: o pessoal fala do lance de dar grana pra filmes e não pra hospitais, por exemplo. Mas é um exagero: um país não ter uma produção de cinema causa uma doença de falta de identidade. Quando eu era guri o cinema era algo muito mais cultural – era quase como ler um livro, não era entretenimento apenas. O cinema tá passando por um fenômeno que é cinema pra comer pipoca e se divertir. No mundo todo.





Como começou seu interesse por animação?

Sou da mesma geração do Jaca e do Angeli, por exemplo. Em Porto Alegre tem uma comunidade de desenhistas fantástica. Mas todo mundo tem dificuldade pra viver disso. E na década de 1970 já era assim. A animação foi uma forma de conseguir fazer dinheiro.

Mas animação não era um lance fácil, eu imagino. Ainda mais em Porto Alegre.

Tinha uns argentinos – eles têm uma puta tradição em animação, foram os argentinos que fizeram o primeiro longa animado do mundo – que vieram pra Porto Alegre, tinham a manha toda, revelar os filmes de 16mm, sonorizar etc. Eu trabalhei com eles, fazendo muita publicidade, para o Brasil todo. Como o custo de vida no Rio e em São Paulo era mais alto, as produções lá custavam mais, e assim gente de todos os cantos faziam com a gente.

E você era uma espécie de sweatshop dos argentinos no Brasil.

Lógico (risos). E assim consegui comprar meu equipamento. Uma câmera custava um balaio de grana. E na real a história de vender a alma ao diabo custou meu estilo próprio, que era um lance bem "Tintin", do Hergé. Eu perdi o estilo e meu desenho não evoluiu. A partir de 1984 parei de desenhar. O diretor de arte do filme atual é o Alemão (Eloar Guazelli, artista das HQs e ilustrador gaúcho que vive em São Paulo).

O Allan Sieber e o Fabio Zimbres já trabalharam com você.

O Allan começou bem guri, fazendo faxina, lavando banheiro (muitos risos). O Zimbres fez direção de arte em dois curtas nossos. O cara tem um estilo fantástico. O Jaca fez pouco. A gente chegou a tentar fazer um curta que não foi adiante. Mas antes de morrer quero terminar, o trabalho dele se presta muito a animar.

E tem outros animadores conhecidos que passaram pela produtora?

O Andres Lieban, um argentino que mora no Rio e faz produção para o Canadá, animou o "Rock & Hudson". O Lancast Mota, um cearense que animou a série "Annabel", que foi a primeira a passar em TV comercial, na Nickelodeon. Muita gente, aqui em Porto alegre tem muito.

 “A Ancine tirou a força das novas entidades. Como o último concurso era setorial, foram aprovados apenas projetos do Rio de Janeiro e de São Paulo. (...) Não dá pra deixar o corporativismo voltar – seria trágico para o cinema.”

E qual foi a primeira ficção?


Foi o curta "O Natal do Burrinho", de 1984. Naquela época era muito raro um filme de animação brasileiro de ficção. Eu pegava dinheiro do próprio bolso pra fazer esses filmes, não tinha retorno. Com a retomada do cinema nacional, a partir de 1995, fizemos um longa, "Rocky & Hudson", do Adão Iturrusgarai, que também escreveu o roteiro do longa. Era muito divertido – foi tudo feito à base de muita birita, o storyboard feito com caneta BIC (risos).



Uma verdadeira esbórnia.

Sim. Aliás, o novo longa é baseado em "Tangos & Tragédias" (Sbónia é uma metáfora avacalhada do Rio Grande do Sul, uma ilha que fica vagando no oceano criada pelos comediantes Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky), uma peça que está em cartaz faz mais de 25 anos. Eu vi a dupla em 1984 e foi a primeira vez que me identifiquei com algo da cultura gaudéria. Por mais que quando fosse guri usasse bombacha em Alegrete. Tu acaba se identificando mais com "Johnny Quest" na TV do que com as tradições.

E como será a animação?

A peça é um musical, uns esquetes. O roteiro tinha a pretensão de fazer cinema comercial mesmo – mas não estúpido – e chamamos dois roteiristas: o Tomás Kreus e o Rodrigo John, que fez o roteiro do "Wood & Stock". Eles escreveram por dois anos. O filme tá na metade, falta ainda um ano e meio mais ou menos de produção. Eu preferi dar um foda-se para os prazos e fazer uma puta animação. ("Wood & Stock" já rendeu problemas à produtora com MinC pelos mesmos motivos, em 2000). Fazer um filme que custaria US$ 10 milhões com apenas 2 milhões. Vai ficar em um nível altíssimo!

O estilo é diferente das produções anteriores?

Sim, o filme novo dá um banho. Minha sobrinha de 10 anos viu o "Wood & Stock" e falou: “por que você fez ele assim?” (risos).

E agora que você é o patrão? Onde entra a sua mão nesse processo?

É uma polêmica aqui no estúdio. Dizem que há dois polos. Um que escolhe as pessoas para o trabalho, pra fazer a animação etc., e outro que vai mexer em todo o processo. Eu seria o primeiro: escolhi a história, escolhi quem seriam os melhores animadores e os melhores roteiristas. Participo também na edição final – o que faz o cinema, a narrativa cinematográfica, é a edição.

O Brasil não tem tradição forte em animação. Isso ajuda ou atrapalha?


Pessoalmente, foi muito importante ter um olho em terra de cego. É bom e é ruim. Por outro lado, não ter uma escola, uma tradição, não ajuda muito. As primeiras coisas que fiz eram horríveis – são poucas as coisas que eu não teria vergonha de mostrar. O "Wood & Stock" entrou em todos os festivais – em Brasília só entrou porque não tinha filme brasileiro. Estamos reinventando a roda. Teve o "Sinfonia Amazônica" (primeiro longa animado do Brasil, de 1953), do Anélio Lattini Filho. A gente quer ter uma produção constante, tem feito um trabalho atrás do outro e esse novo filme vai nos colocar em outro nível.

E o cinemão de animação dos Estados Unidos? Pixar, Disney etc...


Eu gosto muito. Vi agora "A Era do Gelo 3". Eles estão num nível de roteiro surpreendente. A expressão mais desenvolvida do ser humano é o desenho, porque é a mais antiga – é dela que vem a escrita. A animação com desenho é algo muito fantástico, tem muito a se desenvolver. Estamos fazendo o roteiro de um filme do Laerte, "Cidade dos Piratas". Eu tava indo pra São Paulo conversar com ele e caiu a ficha que não valia a pena tentar esse tipo de cinemão, início-meio-conflito-virada-virada-fim, porque não dá pra competir. No filme do Laerte vou me agarrar a referências ao cinema marginal brasileiro – brincar em cima da transgressão. E esse existencialismo atual do Laerte é genial. Já tem um argumento, usando as tiras mais atuais: vamos usar várias fases dessas tiras, amarrando tudo isso. É um longa, porque tem que ser um produto pra ter visibilidade. Só assim tem chance de ser exibido. O Brasil é um país muito rico culturalmente. A gente tem essa coisa de falar que o país é pobre, atrasado, e é um estereótipo que vem de fora. Em um festival na Itália, ano passado, passou o "Wood & Stock". Um italiano numa mesa de debate ficou assustado pelo fato de o governo pagar por um filme daqueles, com sexo, drogas. E eu falei: “Sim, o Brasil é um país muito evoluído” (risos). E é verdade! O italiano ficou de cara. Estamos fazendo uma co-produção sobre o José Lutzenberger, um ecologista famoso aqui do Sul, secretário do Meio Ambiente no governo Collor. Bebum notório, uma pessoa maravilhosa. Ele contou pra mim, em um bar, uma história ótima: já muito incomodado com a história toda do governo etc, ele foi pra Áustria em encontro com o Collor, a Zélia Cardoso de Mello – só o primeiro escalão. E todos os ministros, o presidente, falando em inglês, dizendo que o Brasil era um país pobre. O Lutz falava alemão fluente, e fez um discurso que era mais ou menos assim: “O Brasil é um país rico em todos os aspectos, tem riquezas naturais, um povo maravilhoso, uma cultura riquíssima... pobres são os políticos, como vocês puderam observar pelas falas anteriores” (risos). E ninguém do governo sabia alemão. No outro dia, com a repercussão toda, exoneraram o Lutz do cargo.

E essa história entra no filme?

Não, é uma conversa pessoal. Mas ele foi muito espirituoso e derruba essa pecha de sermos pobres. A gente tem uma cultura riquíssima, nós absorvemos tudo, e eu acho isso fantástico.

“No filme do Laerte vou me agarrar a referências ao cinema marginal brasileiro – brincar em cima da transgressão. E esse existencialismo atual do Laerte é genial. (...) Quero fazer um clássico, com ideias que não tentem reproduzir aquela maravilhosa e fantástica indústria americana, que vem evoluindo continuamente desde A Branca de Neve".





Tem muitos animadores brasileiros trabalhando para os grandes estúdios no exterior?

O Carlos Saldanha, por exemplo. Ele fez a direção do "A Era do Gelo" ,criou aquele esquilo maluco. Teve o Ennio Torresan, que trabalhou em "Madagascar", "Bob Esponja"...

Você pensou em ir pra gringa?


Eu tive algumas propostas – era muito dedicado, nerd, mandava currículo pra todos os lados. Chegaram até a me chamar, mas eu não sabia inglês e pensei: “Porra, vou acabar diluído naquilo tudo”. E tinha um clichê da época que dizia “é melhor ser a cabeça do rato do que o rabo do leão” (risos). Com esse filme do Laerte eu quero fazer um clássico, com ideias que não tentem reproduzir aquela maravilhosa e fantástica indústria americana, que vem evoluindo continuamente desde "A Branca de Neve".   

Você gosta de algum animador novo por aqui?


Tem aquele povo que fez o "Avaiana de Pau", completamente anárquico, e o próprio Allan Sieber, com a Toscographics, que eu admiro muito.

Você fez a voz de Deus em Deus é Pai (série polêmica criada por Sieber), né?

Sim, foi primeiro papel que eu fiz. Me deram um à minha altura (muitos risos). Eu ajudei também na filmagem. Acabamos em Paris por causa do filme, tomando chope (risos).

 

MEMÓRIAS ALCOÓLICAS, por Allan Sieber
“Em 2000, morávamos eu, Denise (minha mulher e sócia na época), Lica (minha outra sócia) e todo o Defalla num apartamento do Leblon que funcionava como moradia e produtora. Era um inferno. Na época, Otto estava numa merda medonha e resolveu morar no Rio. Odiou muito, claro. Pois bem, uma bela noite estou trabalhando de madrugada na sala e irrompe Otto aos urros: ‘Filho da puta!’ Ele tinha acabado de tomar banho e se secado numa toalha que estava cheia de merda. Até hoje ele acha que eu caguei na toalha dele.Provavelmente foi ele, bebum, que fez isso na noite anterior.”

 

Saiba Mais:
Além do Youtube, você pode ser os filmes da Otto Desenhos Animados em:
www.ottodesenhos.com.br
www.portacurtas.com.br