Edições Ideal . 2010
Década de 1990. Imagine uma realidade musical em que as rádios locais estadunidenses não tenham sido engolidas por monopólios que determinem uma programação geral para todas as suas retransmissoras, uma realidade em que o grunge não tenha transformado contestação e independência em moda e alienação, em que gravadoras independentes como a SST tenham pagado direito artistas como o Sonic Youth e este nunca tenha ido para uma major, uma realidade em que a música é o foco e não a imagem que ela sugere sendo ditada por uma emissora como a MTV. Em que o movimento anticapitalista, cujo ápice foi o tumulto em Seattle em 1999, não tenha se dispersado, espetacularizado.
Tudo isso para dizer que essa realidade alternativa seria a da cultura faça-você-mesmo inspirada no peace punk de um Crass ou Zounds, que teve seu apogeu nos EUA com o Fugazi e figuras como Jello Biafra, Steve Albini, Mike Watt, Kathleen Hanna e Ian MacKaye, por exemplo. Um lugar onde diversidade era o foco, e processo e resultado final eram indissociáveis. Política era algo natural em uma cena que incentivava/discutia todas as esferas da vida. Justamente pela falência desse projeto é que o livro "Não Devemos Nada a Você", organizado pelo editor do espetacular fanzine "Punk Planet", Daniel Sinker, parece falar de algo que não dialoga com a cultura jovem atual.
Alguns fanzines, como "Flipside" e "Maximunrocknrol"l, chegaram a tiragens na casa da centena de milhares nos EUA. O Punk Planet apareceu já durante o declínio dessa ideia de pensar a música independente como a expressão de uma comunidade. Sua qualidade principal era resgatar a pluralidade que havia se perdido no punk rock, tanto por sua fraquezas como pela sua cooptação traumática por parte da indústria cultural. Assim, cabiam no zine entrevistas com gente como Thurston Moore, Bob Mould, Jello Biafra, Jawbreaker, Negativland, Los Crudos, The Gossip, artistas como Miranda July, Jem Cohen e Frank Kozik, grupos ativistas como o Punkvoter e o Vozes no Deserto e até o respeitado intelectual/ativista Noam Chomsky. O Punk Planet foi uma espécie de incrível exército de Brancaleone de uma cena, já que tentava recuperar a solidez que havia se desmanchado no ar. Sua grande riqueza está nos momentos em que os entrevistados falavam francamente e com desenvoltura – dialogavam com gente que vivia o que eles viviam.
E ao Brasil, o que isso tudo comunica? Se a minha geração, que tanto se espelhou nos referenciais do PP, falhou e virou uma espécie de culto vazio (nas palavras do ativista gay Matt Wobensmith), o livro traz inspiração e questionamentos para a cultura jovem que surgiu em um mundo onde a distinção entre majors/indies é rarefeita e o objeto CD como produto pouco diz sobre a música. E é por isso que a ideia de não dever nada a ninguém pode ganhar corpo e dimensão novamente a qualquer momento.
Por Arthur Dantas
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