Amok . 2009
Quando uma obra vem com todas as etiquetas à mostra, recomenda-se desconfiança. A trama é contemporânea, urbana. A ação é envolvente, com cortes cinematográficos – tendência comum à maioria dos escritores novos metidos a ousados (com o atenuante de se tratar um livro de um gênero voltado por excelência à sétima arte, o policial) –, a protagonista tem até trilha sonora composta (“Laura Te espera Com Uma Arma na Mão”, de Stela Campos) e as referências à corrupção policial e à cultura pop agradam o público médio. Tudo isso seria sinal indicativo de fiasco, caso o autor não fosse Rogério de Campos, o editor-guerrilheiro midiático por trás da Conrad Editora, a mais importante editora de HQs do país.
O passado de militante esquerdista do autor (“o nacionalismo tem razões que escandalizam a razão”) e o bom conhecimento da obra de autores como Valerio Evangelisti e Luther Blissett/Wu Ming acrescentam um componente de crítica política que agrada tanto aos caretas como aos radicais (“a gente descobre que a verdade da vida está em qualquer jornalzinho tosco, demagógico, de partideco de esquerda”, afirmação que, proferida por um policial federal, soa engraçada), já que se insere em um vácuo ideológico (para os padrões brasileiros) que o empurra para algo conhecido como autonomismo.
Mas isso, enfim, é discussão para outro momento. A disputa eleitoreira entre velhos parceiros do passado que na atualidade militam em campos opostos (daí o revanchismo do título e o curioso jogo de falsa verossimilhança com a realidade brasileira) move personagens acossados e bem delineados por seus papéis sociais. Entre eles destaca-se uma nerd fã de cultura pop (Nick Drake, R. Crumb, Hagakure, Lênin, Lou Reed – o próprio universo do autor) e um policial honesto – personagens possíveis e ao mesmo tempo irreais. Todos tendo que lidar com situações em que a realpolitik os força a lidar com forças nem sempre desejáveis. Nesse cabo de guerra entre projetos pessoais e dinâmicas macropolíticas dispostas de forma mais ou menos bem acabada nesse romance de estreia – graças ao ponto de vista enviesado sugerido – Revanchismo sopra ares promissores ao gênero policial pós-Rubem Fonseca.
Por Arthur Dantas