Lucas Bambozi é o curador do Vivo arte.mov, evento que acontece até o dia 11 de dezembro em São Paulo e se dedica à arte eletrônica, especialmente ao que é produzido por meio de mídias móveis. Em entrevista ao site da Soma, o especialista no assunto procura destrinchar o tema e revela os novos rumos da utilização da tecnologia para produzir arte.Por Marina Mantovanini
Como surgiu a ideia de montar um projeto que tem a intenção de apresentar as possibilidades criativas das mídias móveis?'
Conduzimos por alguns anos um projeto chamado Fórum de Midias Expandidas, em que buscávamos entender como as transformações tecnológicas recentes estavam tornando possíveis outras formas de pensamento acerca da imagem. O Fórum, que acontecia junto ao festival Eletronika, ajudou a escrever um pouco da história do "Vjaying", ou "Live Images" no Brasil - um importante e contemporâneo capítulo da Arte Eletrônica no país, possibilitando trocas de experiências e informações muito interessantes, entre brasileiros e artistas de diversas partes do mundo. Promovíamos encontros e discussões, mas que envolviam também apresentações e performances audiovisuais. Este projeto deu origem ao arte.mov por entendermos que naquele momento uma das principais transformações estava sendo dada pela portabilidade/mobilidade das formas de produção e de distribuição de formatos audiovisual distintos.
Qual é o real papel das mídias móveis nas artes? O que a mobilidade e a facilidade de acesso aos produtos eletrônicos trouxeram para a criação artística?
As mídias móveis são uma realidade de nossa época, assim torna-se uma produtiva forma de se pensar nossa sociedade, de se expressa-la, e porque não através das próprias mídias moveis? Ao mesmo tempo falamos de uma tecnologia que se espalhou e tornou-se presente de forma inédita, com uma rapidez e uma abrangência nunca antes vistas, tornando acessível um meio de produção e distribuição audiovisual a parcelas da sociedade antes excluídas. Nesse sentido, podemos dizer que potencialmente poderemos ver surgir novos produtores dentro das mais diversas camadas da estrutura social.
Existe muita discussão em torno disso, você não acha que a tecnologia, especialmente neste tipo de mídia, transforma qualquer um em um artista que não pensa para executar?
A informalidade e ao mesmo tempo a instantaneidade possibilitadas por estes meios, trazem ao mesmo tempo uma certa banalidade (e com isso uma efemeridade e até mesmo o que poderia para alguns aparentar leviandade), mas trazem também uma espontaneidade e legitimidade que dificilmente poderíamos conseguir com outras formas de produção. A câmera acoplada ao celular espalha o potencial audiovisual a níveis pouco imaginados antes. Para os menos afeitos com as tecnologias, antes carregar uma câmera era uma situação especial, de exceção, hoje não carrega-la é a exceção. O que se tem feito com isso, é uma pergunta constante, mas não única. Em um prazo de poucos anos vimos as tecnologias de produção, distribuição e exibição audiovisual se tornarem cada vez mais próximas de nosso dia-a-dia. Somos testemunhas mais que oculares, somos todos coadjuvantes, atores de movimentos como esse. Com relação a qualquer um se transforma em artista, há que se ponderar que os percursos para se tornar um artista não são tão fáceis ou meramente associados ao domínio de uma técnica. Mas é interessante que deixe de ser privilégio de alguns poucos.
Como é feita a curadoria? O que vocês priorizam?
A curadoria do arte.mov é feita a partir de pesquisas que realizamos, seja para fins de programação ou para pesquisas tanto téoricas e artísticas. Fazemos muitas reuniões e há alguns anos passamos a fazer viagens dedicadas à prospecção. Desde 206 temos o Marcus Bastos como um curador convidado que se junta à equipe de curadoria e programação. Há também curadores que convidamos para determinadas vertentes, como fizemos este ano para as mostras voltadas para 4 das 5 regiões do país. Em termos de dinâmica e prioridade, atualmente estamos valorizando bastante as especificidades e as características de cada cidade onde o festival passou a acontecer em 2010, nas cidades de Belém, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo. Trabalhamos um formato que se diferencia bastante de festivais de vídeo ou cinema por exemplo, pois damos uma atenção especial ao contexto local onde o evento ocorre. Se estamos lidando com conceitos ligados às chamadas mídias locativas, que resultam de uma atenção ao contexto social, político e cultural de determinadas localidades, faz sentido que observemos atentamente cada cidade para efetivarmos uma programação em sintonia com cada ambiente. Assim, alem das mostras audiovisuais que acontecem tanto em situações típicas de cinema como em redes Bluetooth e terminais ligados a internet, temos sempre uma área expositiva, que não se limita aos espaços do evento ou da instituição que nos abriga, mas sempre avança para o ambiente público e urbano. Em 2007 utilizamos o Parque Municipal de BH como um grande laboratório para projetos locativos. Em 2008 realizamos um grande jogo na Praça de Santa Teresa, em um bairro bastante tradicional, envolvendo participantes online e outros percorrendo as ruas, e os espaços do bairro - falo do game Can You See Me Know? Do grupo inglês Blast Theory. Em 2009 houveram vários trabalhos que partiram das ruas para se distribuírem pelas telas (através de workshops por exemplo como se passou com os projetos do Bruno Vianna e do grupo que realizou o trabalho vencedor do prêmio de mídias locativas de 2009, o Culture Robot 4.0) - ou seja, uma parte da curadoria está associada a atividades de formação também.
Em 2010, a partir da multiplicação de suas ações em várias capitais do país, o Festival amadureceu muito em termos de conceituações e posicionamento no cenário nacional, afirmando a prioridade dada a projetos idealizados por artistas ligados às cidades onde o festival passa a acontecer. Em 2010 trabalhamos com o tema "Novas Cartografias Urbanas: Reconfigurações do Espaço Público", que se desdobrou em 3 subtemas: 1) Mobilidades e imobilidades contemporâneas, Expandir o presente e contrair o futuro; 3) Novas forma de negociação da vida no espaço público. Esses temas foram debatidos por cerca de 45 pensadores e críticos ao longo do ano, nas várias cidades. Cerca de 30 projetos foram expostos e articulados de forma a comentar de forma mais subjetiva e artística os temas do festival neste ano.
Eu queria que você falasse um pouco sobre a programação deste ano. Como ela se divide, como foi a parceria com os locais que estão exibindo o projeto?
O festival tem três vertentes bem definidas: 1) um simpósio internacional, que privilegia uma discussão critica sobre a profusão e confluência dessas mídias no mundo atual; 2) uma parte expositiva, que funciona como um eixo temático, de forma a expandir os pensamentos envolvidos pelo tema para além da pesquisa acadêmica e teórica. E claro, como terceira e não menos importante vertente, temos uma programação audiovisual bastante completa, composta por showcases internacionais de vários países, mostras regionais e uma mostra nacional competitiva muito significativa, que este ano distribuiu mais de 65 mil em prêmios. Além disso temos vídeos na mostra Para Além da Tela Pequena, em um formato de exibição em multitelas que existe desde 2007, votações online via Web, redes de distribuição por Bluetooth e vídeos que circulam por váios meios (este ano tivemos em São Paulo vídeos em exibição nas redes TVO (em várias linhas de ônibus) e TV Minuto (nas linhas de metrô) na capital paulistana. Dentre os convidados internacionais deste ano vale citar os nomes Bruce Sterling (EUA), o grupo Subtlemob (Inglaterra), Alessandro Ludovico (Itália), Marc Garret (inglaterra), Bronac Ferran (Inglaterra), Heidi Kumao (EUA), Daniel Belasco Rogers (Alemanha/Inglaterra), Sarah Shamash (Canadá), Andrés Burbano (Colômbia), Arcangel Constantini (México), Jasmina Tesanovic, dentre outros.
Dentre os nomes brasileiros, participam das edições de 2010 Guilherme Wisnik, Jorge Mena Barreto, Cícero Inácio Silva, Luciana Tognon, Fabi Borges, Val Sampaio, Giseli Vasconcelos, Vanessa de Michelis, Andre Lemos, Karla Brunet, Grupo GIA, Andre Parente, Elaine Tedesco, Santiago Navarro, Dudu Tsuda, Lenara Verle, Massimo Felice, Lucia Santaella, Felipe Fonseca, Paulo Lara, Rogério Borovik, Almir Almas, Karina Montenegro, Sonia Guggisberg, Daniel Lima, Paula Sibilia, Giselle Beiguelman, Raquel Rolnik e vários outros. A programação é bastante extensa, e a diversidade de nomes reflete uma busca por um leque bastante amplo de abordagens e interesses.
Por último, qual é o interesse de vocês com o projeto e como tem sido a repercussão do evento?
O interesse no projeto reflete, com muita sinceridade, um interesse por ferramentas contemporâneas que possam ser apropriadas pela arte e para fins de intervenção social. A criação do arte.mov coincide com a observação de certos fenômenos observados no campo cultural e artístico. Acreditamos que há cada vez mais motivos para discussão e criação no cenário atual. São milhões de telas pequenas espalhadas por todo canto, em aparelhos que começam a se tornar micro-centrais de produção de conteúdo - e a cada dia se popularizam mais. Apenas esse aspecto já justificaria um olhar sério por parte de pesquisadores ou artistas. Mas vale lembrar também que essas tecnologias também, locativas, permitem também novas formas de se trabalhar mapeamentos, de se produzir imagem, de distribuição de informação ou de se agir socialmente através de situações criativas. A repercussão depende de muitos aspectos, inclusive ligados à simpatia com que determinados meios tratam o assunto. Nos planos de formação, artístico e teórico, temos sido muito aplaudidos. Acreditamos que para muitos dos participantes nesses anos, a existência do festival foi um marco crucial em seus percursos. Mas não é uma repercussão instantânea e fácil, típica de entretenimento de grandes massas. O reconhecimento nacional e internacional vem sendo construído a partir das experiências que estamos conduzindo e é muito gratificante ver como a cada edição as bases se solidificam e se expandem.
* Foto Divulgação