(Quem Soma publicado na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Quem Soma . Bocada Forte
Por Raquel Setz
O site "Bocada Forte/Central Hip-Hop" começou sem grandes ambições. Era 1999, e o grupo Urbanos Mcs, que tinha acabado de participar de uma coletânea de rap da gravadora Trama, foi convidado pelo Sesc para fazer uma turnê pelo Brasil. André Cesário da Silva, estudante de publicidade e vizinho da banda no Jardim Monte Alegre, Zona Sul de São Paulo, se propôs a fazer um site para divulgar o trabalho dos amigos. O colega de faculdade Fábio Henrique Pereira também entrou no jogo e logo o site foi para o ar. "Começou com essa ideia de ajudar, mas, como não tinha nada na época sobre hip-hop, o "Bocada Forte" acabou virando um canal de comunicação e foi crescendo", conta Fábio. Em 2001, os dois amigos criaram a ONG Serumano, para dar suporte jurídico ao site e viabilizar projetos junto ao poder público. "Se a gente fosse abrir uma empresa com CNPJ, uma empresa capitalista, o pessoal do hip-hop ia cair de pau na gente", explica André.
Em 2004, eles receberam o apoio de uma ONG holandesa para criar uma versão internacional do site, em quatro línguas, com o nome Central Hip-Hop - como o preconceito contra o rap ainda é forte no Brasil, a alcunha Bocada Forte acabava espantando eventuais patrocinadores, que poderiam associar o nome ao mundo do crime. Com o dinheiro dos holandeses nas mãos, André e Fábio pediram demissão dos respectivos empregos e resolveram se dedicar ao projeto em tempo integral. Seis meses depois, estavam sem dinheiro e sem emprego.
Para sair do buraco, tiveram a ideia de montar uma firma de duplicação de CDs, serviço muito procurado por grandes empresas. Compraram o equipamento, fizeram um site institucional caprichado e arregaçaram as mangas. Com um capital inicial de 2 mil reais, uma máquina de duplicação que gravava apenas sete CDs por vez e tendo como sede boteco desativado do pai de André, nasceu a Ponto 4 Digital. "A gente comeu o pão que o diabo amassou", comenta Fábio, logo corrigido por André: "Pão não, pastel com Dolly. Durante um ano, todos os dias". A exótica dieta rendeu a Fábio uma úlcera. E esse não foi o único perrengue por que passaram - quando adquiriram a máquina de lacrar os CDs, a pequena sala em que a firma estava instalada se transformou em um forno que os assava lentamente a 45 graus. Além disso, se o vendedor de material de limpeza passasse gritando na rua ou se os passarinhos do vizinho resolvessem piar na hora em que eles estavam com um cliente ao telefone, a pessoa do outro lado da linha ouvia tudo - razão que inclusive os levou a tomar muito cuidado na hora de dar descarga. Mas, com trabalho duro e suor (muito suor, literalmente), a empresa foi crescendo, e hoje ocupa dois galpões no bairro de Veleiros, contando com uma equipe de 45 pessoas e uma lista de clientes de fazer inveja.
A história de sucesso poderia terminar por aqui e servir de exemplo para jovens empreendedores. Mas o que vem a seguir é ainda mais legal: cientes do que é passar dificuldade, André e Fábio usam a Ponto 4 Digital como meio para apoiar jovens rappers. "Muito material se perde na impressão, mas o CD continua virgem. Então, se chega um grupo que não tem grana, a gente grava os CDs usando esse material. Se o cara tem uma verba, a gente faz por preço de custo", conta Fábio. "E o legal é que, quando você apoia alguém, essa pessoa te apoia também. Divulga, ajuda a encontrar novos clientes", completa. Recentemente, a ONG Serumano transformou a antiga sede da empresa em um ponto de cultura, onde jovens têm aula de produção musical e, ao fim do curso de três meses, irão gravar uma faixa - e os CDs serão prensados na Ponto 4.
André e Fábio também se preparam para lançar, em parceria com o MC carioca Marechal, uma linha de roupas chamada Muro. Além de camisetas de artistas de rap, a marca trabalha com coleções especiais: uma música é escolhida, enviada para diversos artistas plásticos, grafiteiros e designers e cada um cria uma estampa inspirada no som. Em novembro sai a primeira fornada de camisetas, com mais de trinta estampas inspiradas em "Espírito Independente", de Marechal. Quem compra a peça de roupa leva de graça um CD ou vinil com a música. "Já que não se vende mais CD de música, o objetivo é fazer esse CD chegar às pessoas por meio das camisetas. A ideia é também gerenciar produtos de outros artistas, porque o foco do cara é fazer música. Não dá pra se preocupar em confeccionar roupa, gerenciar loja virtual, toda a logística de venda", explica Fábio.
O site "Bocada Forte/Central Hip-Hop", onde tudo começou, continua firme e forte, apesar de não veicular anúncios e, como consequência, não gerar nenhuma renda. É mantido por jornalistas que trabalham de forma colaborativa, escrevendo sobre o que gostam. Parceria é isso aí.
Saiba mais:
centralhiphop.uol.com.br
www.ponto4digital.com.br
twitter.com/bocadaforte