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Fri: 12-03-10

+Máteria: A Banda de Joseph Tourton, por Mateus Potumati

(Matéria publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)    

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Por Mateus Potumati . Fotos por Flora Pimentel

Ainda é meio difícil entender como, mas o fato é que, nos últimos anos, novas formas de rock instrumental se tornaram populares no circuito independente brasileiro, especialmente fora do eixo Sul-Sudeste. Também é curioso constatar que esse fenômeno nem sempre é devedor de bandas nacionais mais veteranas, como o Hurtmold, seja em termos estéticos ou históricos - e frequentemente, excluída a ausência de vocais, essas bandas guardam poucas semelhanças entre si. O principal expoente dessa cena, o trio cuiabano Macaco Bong, passa longe de vibrafones, elementos eletrônicos e da atmosfera jazzy à Chicago do grupo paulistano - insistindo na analogia imperialista, os ares ali são mais Seattle ou Washington. E a paleta de cores muda completamente no caso do post-rock à Enio Morricone do Ruído/mm ou do neo-psicodelismo nordestino do Burro Morto.

Seja como for, a música sem refrões ressurgiu de forma espontânea, orgânica, para conquistar um lugar legítimo e inédito na cultura jovem brasileira. Talvez a maior prova disso seja o quarteto A Banda de Joseph Tourton, de Recife. Na ativa desde 2008, o grupo já representa uma terceira geração de grupos indies instrumentais, para quem Hurtmold e Macaco Bong são parte da formação. "Cada mês eu descubro uma banda instrumental nova boa", conta Gabriel Izidoro, 19, que toca guitarra, escaleta e flauta transversal. "Mas não sei dizer o porquê disso. Acho que, quando você vê uma banda que funciona, isso automaticamente abre uma possibilidade. Você vê que existem novos caminhos e começa a explorar."



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Mas, se aqueles pioneiros são parte da grade curricular, o som da Joseph Tourton não é meramente derivativo: seu primeiro disco homônimo, lançado em setembro deste ano, mostra personalidade notável para um grupo de garotos entre 19 e 21 anos. Com base no rock, as faixas do álbum se arriscam por ritmos hostis ao gênero, como o choro, e por atmosferas pouco exploradas pelas bandas dessa seara, como a ambient music e o kraut rock (ainda que Brian Eno lhes seja um ilustre desconhecido, e grupos como Can ou Tangerine Dream sejam aquisições recentes ao repertório musical dos pernambucanos). Essa vocação exploratória é resultado, em grande parte, da formação musical variada dos membros da banda. "O Diogo [Guedes], que é o outro guitarrista, curte muita coisa gringa, pesada. Pedro [Bandeira], o batera, ouve muito reggae. Eu gosto mais das coisas brasileiras, por exemplo Novos Baianos, e de samba", diz Gabriel, que já tocou em um grupo de choro e lista Luiz Gonzaga como uma de suas principais influências. "Mas também gosto muito de rock", ele deixa claro. Como se fosse preciso.

Formação musical também é um conceito chave para entender A Banda de Joseph Tourton dentro do seu contexto local. Se a pouca idade ainda dificulta uma articulação maior sobre o próprio trabalho, o talento criativo da banda é fruto maduro da cena de Recife, cidade com tradição e mentalidade musical arejada, que dispensa maiores apresentações. Gabriel aprendeu a tocar violão no Colégio de Aplicação da UFPE. "A gente teve aula de música da 5ª série até o 3º ano, e isso desenvolve muito quem passa por lá", resume. Depois do violão veio a guitarra, mas ele não parou por aí. "Eu sou muito curioso com música. Tinha um amigo que tocava flauta, e pedi pra ele me ensinar. As primeiras músicas que eu aprendi foram as do Mombojó. Depois comecei a estudar choro." A flauta e a escaleta entraram na música da Joseph Tourton com naturalidade, oferecendo um contraponto tão sutil quanto eloquente às bases de guitarra. Com essa e outras "impurezas" de timbres e ritmos, sempre bem-vindas no mundo monolítico da guitarra brasileira, a Joseph Tourton de saída já produz um som mais rico e denso do que a média.

Essa impressão só é amplificada ao vivo. No show da banda durante o Coquetel Molotov 2010, em Recife, o contraste entre dinâmicas fortes e sutis - nas quais, além das guitarras, o baixo de Rafael Gadelha tem papel fundamental - se mostrou bem resolvido, reforçando o sentimento de coesão das composições e, principalmente, pondo à prova uma serenidade de execução difícil de encontrar em músicos tão pouco experientes. Ali, diante de um teatro quase lotado (com capacidade para 6 mil pessoas), no mesmo palco que receberia o primeiro show do Dinosaur Jr. no Brasil em menos de uma hora, A Banda de Joseph Tourton passou no seu teste de fogo e mostrou que o futuro do rock recifense e do novo rock instrumental brasileiro está em boas mãos.




Saiba mais:
myspace.com/josephtourton
www.josephtourton.com.br

A Soma viajou a Recife a convite do festival Coquetel Molotov/ Conexão Vivo 2010.