(Matéria publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Dinosaur Jr.
Iluminação Pelo Barulho
Por Mateus Potumati . Fotos por Fernando Martins, Caroline Bittencourt . Retratos por Jon Fetler e Divulgação
"É assim mesmo, não é por maldade. Quando você faz uma pergunta, é como se ele tentasse entender cada palavra, interpretando literalmente o que você está dizendo. E muitas vezes ele não tem resposta. Acho que só hoje ele está se sentindo mais confortável para falar a respeito de si mesmo." Enquanto mastiga um pedaço de algo que parece uma lasanha - que ele segura com a própria mão -, Lou Barlow tenta me explicar que J Mascis não estava me testando ou desdenhando quando dias antes, em Recife, a uma hora de subir pela primeira vez em um palco na América do Sul, ele dava respostas monossilábicas ou criava segundos incômodos de silêncio após algumas de minhas perguntas. "E ele falou bastante com você, fiquei surpreso", ele insiste, como um reconhecimento do meu esforço. Condescendente ou não, a declaração de um especialista nas idiossincrasias do líder do Dinosaur Jr me deixa mais satisfeito. Por mais que o laconismo de Joseph Donald Mascis (não erre mais: se pronuncia "Mésquis") seja folclórico e tenha deixado vários entrevistadores na mesma situação ao longo de três décadas de carreira, nada é igual à primeira vez. Especialmente porque outro lado conhecido de sua personalidade, o senso de humor afiado e meio sádico, se encarrega de manter uma nuvem de insegurança no ar. Falar com ele, Barlow e Murph, os três membros fundadores do Dinosaur Jr, é assim: uma experiência em que desconforto e um estranho senso de intimidade se alteram em bipolaridade pura.
Desconforto e intimidade "estranha", por sinal, são termos que definiram boa parte do relacionamento entre os três. Foi uma identidade musical intensa e imediata, fruto de uma obsessão mútua pelo hardcore e pelo rock dos anos 70, que uniu Mascis e Barlow em 1982, quando eles formaram o Deep Wound. Foi ela, liderada pelo talento de J Mascis, que criou "Dinosaur" (1985), "You're Living All Over Me" (1987) e "Bug" (1988), discos divisores de águas na história do punk norte-americano e influentes para gerações de bandas (e os três únicos gravados com o trio original até "Beyond", de 2007). Mas, apesar de extraordinária, essa intimidade musical não se converteu em um relacionamento pessoal minimamente razoável até 2005, quando, depois de 16 anos, Mascis, Murph e Barlow voltaram a tocar juntos. Ao contrário: os anos iniciais da banda foram marcados por desentendimentos, causados por uma incapacidade tragicômica de comunicação. Essa característica foi responsável por momentos realmente tensos, como a crise nervosa de Murph em um quarto de hotel, em 1987, em que ele jogou vários objetos em Mascis. Ou um show no ano seguinte, em que Barlow e Mascis duelaram com seus instrumentos em cima do palco, depois que o primeiro estragou deliberadamente uma música para irritar o segundo (ambos os fatos são relatados com detalhes no livro "Our Band Could Be Your Life", de Michael Azerrad). "Quando a gente era novo, não sabia como fazer uma turnê. Ainda estávamos aprendendo, e foi muito difícil", lembrava Barlow em Recife. "Éramos moleques, saindo da casa dos nossos pais pela primeira vez. Na verdade, foi a primeira vez que saímos dos nossos quartos! (risos) E fomos direto pra estrada."
Essa imaturidade e inépcia para o diálogo, por fim, causaram a demissão do próprio Barlow em 1989, em um evento que poderia ser usado como exemplo negativo em um livro medíocre sobre comunicação interpessoal - Mascis e Murph foram à casa dele, mas não conseguiram dizer com todas as letras que ele estava demitido; o baixista só ficou sabendo o que acontecera ao certo por um amigo comum, dias depois. Com a saída de Lou, que deu início a uma carreira também muito influente com o Sebadoh, o Folk Implosion e depois como artista solo, J Mascis seguiu lançando discos muito bons, agora por uma major (Sire Records /Warner). A saída das indies (Homestead e depois SST), como era de se esperar, foi vista por muitos como traição. Em resposta, Mascis disse, em entrevista a Azerrad: "Eu gosto do Greg Ginn (Black Flag/SST) e tal, mas eles não me pagavam. Da Homestead eu não gostava, e eles eram uns cuzões - não pagavam e não estavam nem aí. E a gente ainda tinha que achar esses selos indie que te roubavam melhores que a grande gravadora que não te roubava".
Dois desses discos da fase Sire/Warner ainda contaram com Murph na bateria em algumas faixas ("Green Mind", de 91, e "Where You Been", de 93) e nos outros dois Mascis, ele próprio um grande baterista, tocou quase todos os instrumentos ("Without a Sound", de 94, e "Hand It Over", de 97). Desdenhados por parte dos fãs antigos (a parte chata, diga-se de passagem), ranhetas com a mixagem mais limpa, que flertava com os anos grunge, pelas melodias grudentas e pelos solos de guitarra ainda mais compridos, esses discos foram o mais perto que o Dinosaur Jr chegou do sucesso mainstream - J Mascis deixaria o Tiger Woods no chinelo se jogasse golfe toda vez que a MTV passou o clipe de "Feel The Pain". Mascis parou oficialmente de lançar álbuns sob o nome Dinosaur Jr em 1997, passando a produzir discos solo (o que ele já vinha fazendo desde o ano anterior) e trabalhando em outros projetos, como a veterana banda de doom metal Upsidedown Cross e o projeto de stoner rock Witch, com quem ele se ainda se apresenta esporadicamente. Murph, por sua vez, tocou com o Lemonheads e em projetos como o Sons of the Corporate Dog (com o ex-Deep Wound Charlie Nakajima).
"Eu gosto do Greg Ginn e tal, mas eles não me pagavam. Da Homestead eu não gostava, e eles eram uns cuzões - não pagavam e não estavam nem aí. E a gente ainda tinha que achar esses selos indie que te roubavam melhores que a grande gravadora que não te roubava." (J Mascis, a Michael Azerrad)
Um dos discos solo de Mascis, "J and Friends Sing and Chant for Amma" (2005), é dedicado à líder espiritual hindu Ammachi - conhecida como a "Santa dos Abraços" -, de quem ele é devoto desde o final dos anos 1990. Há dezenas de vídeos no Youtube de cerimônias de cânticos comandadas por Mascis e seus amigos. Do alto de minha ignorância sobre o assunto, pergunto a ele se é comum devotos criarem músicas para seus gurus. "Essa coisa dela tem muita música, ela canta todas as noites", ele explica, em um nível ainda mais elementar do que a minha dúvida. Mas o assunto aparentemente o anima: "Várias pessoas compõem para ela cantar. Como eu toco, decidi dedicar alguma coisa a ela, e quem sabe outras pessoas também pudessem se identificar. Essas pessoas [que participam dos cultos] não são fãs do Dinosaur, vêm de vários lugares diferentes, tipo donas de casa mais velhas." A observação me faz rir, e ele esboça um meio-sorriso. Apesar de a músicas não serem direcionadas para fãs da banda, tirando as letras devocionais elas soam bastante como as canções seculares de Mascis.
Coincidência ou não, o disco para Amma saiu no mesmo ano em que a banda voltou, durante uma pausa na reunion tour. As práticas devocionais de Mascis teriam ajudado a reunir os três novamente? "Tenho certeza que sim", ele diz. Depois de alguns segundos pensativos, em que o som de sua boca mascando chiclete é a única coisa ouvida na sala, ele completa, ao melhor estilo J Mascis: "Não sei exatamente como". Murph, o mais prestativo desde o começo da entrevista, acode: "O maior responsável foi aquele cara ali (aponta para Brian Schwartz, manager de J Mascis e do Dinosaur Jr)". Lou desenvolve: "O J tinha finalmente recuperado os direitos de relançar os três primeiros discos, e o Brian disse que achava uma boa ideia a banda voltar para ajudar na promoção. Pelo que eu entendi, o J não estava muito a fim (risos). Mas ele autorizou o Brian a nos chamar, e nós aceitamos. Foi assim". Em uma entrevista da época, eles disseram que, como de costume, não houve muita conversa, muito menos lavação de roupa suja (que afinal já havia sido feita pelos três - separadamente - no livro do Azerrad). Assim, com frescura zero, o trio voltou ao estúdio e começou a tocar.
Se os três hoje não são exatamente comadres que trocam segredos pessoais entre si (o que provavelmente nunca serão), é evidente que algo mudou entre eles. E uma parte grande disso é cortesia inegável da passagem dos anos. "Estamos bem mais velhos e aprendemos a nos adaptar", analisa Lou. "Não sabíamos como fazer uma turnê naquela época, e agora sabemos. É simples assim." "É muito diferente hoje, não dá pra comparar", concorda Murph. "É muito melhor. Sabemos o que esperar quando vamos viajar, então as coisas são fáceis." Os dois parecem pensativos por um momento quando J, quieto até ali, quebra o tom pragmático com um aparte inesperadamente pessoal: "E eu gosto mais de tocar hoje em dia do que naquela época". Eu, Lou e Murph olhamos para ele, como a esperar o desenrolar de uma epifania, que, claro, não virá. Antes que o silêncio se prolongue, comento sobre outra entrevista, dada na Inglaterra nos anos 1980, em que ele diz achar a guitarra um instrumento de maricas. "É, eu só tocava por tocar", ele diz. "Pra ter uma banda e poder fazer música." Insisto, perguntando o que mudou, e ele então repete a mesma resposta dada ao jornalista britânico duas décadas atrás: "Hã... Eu não sei". Como as respostas dele, meu arsenal de perguntas se esgota. Procuro então por um assunto novo nas minhas anotações, mas antes que eu continue Lou devolve a entrevista ao senso prático: "A gente tem coisas que funcionam de verdade, isso faz muita diferença. Quando começamos, ainda estávamos experimentando com equipamento. Hoje nossas coisas são muito melhores." Murph acrescenta: "Também estamos mais à vontade com o nosso som, o que torna mais divertido tocar". Sem mais revelações de foro íntimo à vista, Lou fica livre para encerrar o assunto no mais puro determinismo material. Ao lembrar de outro detalhe ausente nos primeiros anos, quando a banda sobrevivia na estrada com uma ração diária de 5 dólares, ele reconhece: "E temos muito mais dinheiro, isso sem dúvida é importante".
"As pessoas não entendiam o que a gente fazia naquela época. Hardcore era uma coisa, punk era outra, e o rock então... Ou você era uma coisa, ou era outra." (Lou Barlow)
Esse prazer recém-descoberto em tocar juntos (contando que, como eu, você também ache que 2005 foi ontem) surpreendeu até as previsões originais do Dinosaur reunido. Em 2005, o objetivo era apenas fazer a turnê promocional para o relançamento dos três primeiros discos. Na época, Lou Barlow chegou a desdenhar da ideia de gravar material novo, dizendo que ninguém gostava de ouvir músicas inéditas de bandas velhas. Cinco anos depois, "Beyond" (2007) e "Farm" (2009) se encarregaram de manter a banda na estrada. "Fizemos esses discos novos para poder fazer mais shows", J admite. "Estamos fazendo muitas turnês novamente, e queremos continuar assim, mas queremos músicas novas para tocar." Os dois discos não apenas receberam reviews entusiasmados da crítica órfã dos velhos tempos, como renderam um séquito totalmente novo de fãs, como eles próprios explicam.
Lou Barlow . A maioria das pessoas que vai aos nossos shows hoje é bem jovem.
Murph . É engraçado, nos tornamos uma banda que a molecada quer ver.
LB . Isso me lembra de quando eu descobri os Ramones. Eu era bem moleque. Gosto de pensar que a gente talvez seja uma banda assim, com um som característico, que outras gerações vão querer ouvir. Nós temos um som que, por alguma razão (hesita)... Tem a guitarra do J, a pegada da banda... É fácil de identificar, é único, e faz com que nos sintamos renovados o tempo todo. Acho que é por isso que ainda soamos como novidade para algumas pessoas (risos). Isso é demais.
J Mascis . E se não fossem esses garotos, não haveria ninguém nos nossos shows (risos).
LB . A gente estaria se aproximando lentamente do fim (risos gerais). São eles que nos mantêm na ativa.
M . E eles são ávidos por... conhecimento.
LB . "Conhecimento!" (Lou e J riem)
M . Conhecimento punk!
J . Verdade, e o Murph é o professor deles. (Lou ri muito)
Soma . Vocês são filhos de professores, então devem ter isso no sangue (risos).
M . Isso. (Fica sério) E todo mundo agora é pai, então...
Soma (para J Mascis) . Quantos filhos você tem?
J . Um garoto de 3 anos.
Soma . Uma das frases-símbolo dos anos 1960/70 era "Hope I die before I get old" ("espero morrer antes de ficar velho"), e nos anos 1990 isso mudou pra algo como "acho que nunca vou ficar velho" ou simplesmente "não vejo futuro/não tô nem aí com isso". Acho que tem algo a ver com a cultura do skate e do punk. Vocês tocam juntos há quase 30 anos e são mais velhos do que eu...
LB . (Interrompendo) Sim, nós somos (risos).
Soma . ... Mas vocês fazem basicamente o mesmo tipo de música de antes. Já pensaram em como é envelhecer dessa forma?
LB . Não é uma grande preocupação. Eu cresci numa época em que a gente simplesmente não achava que ia viver. Havia aquela grande ansiedade pela iminência de uma guerra nuclear. Eu fritei nessa ansiedade, e depois disso nunca mais pensei a respeito (risos). Mas o Who fez essa música, e obviamente a banda continuou por muito tempo. Ou seja, a frase não significava nada (risos gerais). Sei lá, tem tanta gente tão mais velha que nós, centenas de bandas veteranas que ainda fazem música. The Cure, Nick Cave, que nem eram dos anos 1960. As pessoas não param simplesmente. Já me perguntaram coisas do tipo "como você consegue continuar?". Mas quem para, porra? Você consegue pensar em alguém em particular que era muito bom e se aposentou totalmente?
Murph . E, se você para, as pessoas querem que você volte (risos gerais).
Soma . O clipe de "Over It" tira um pouco de sarro disso, como se dissesse "não somos velhos, mas colocamos dublês pra fazer as cenas" (risos). Você ainda anda de skate?
J . De vez em quando. Meu filho começou a brincar com o skate agora.
Soma . E você está ensinando ele?
J . Não, eu só acompanho ele. Não sou bom professor de nada.
A se levar em conta o público no show de Recife, a observação dos três não poderia estar mais correta. No teatro da UFPE, a frente do palco foi tomada por garotos e (muitas) garotas de menos de 20 anos. Já nos dois shows de São Paulo (sem contar o extra na praça, que eu também não vi, e o show de Lou Barlow na Soma, um capítulo totalmente à parte), o clima foi mais fornecer a desculpa perfeita para caras de 30 e poucos se comportarem como adolescentes de 15. Molecagem do mesmo jeito.
Nos três shows, com setlists semelhantes, a banda tocou músicas de todas as fases, das mais novas a faixas obscuras dos primeiros discos, além de lados B como o cover de "Just Like Heaven", do The Cure. Sons mais polidos e melodiosos como "Over It" e o hino noventista "Out There" (para compensar a ausência de "Start Choppin", muito pedida pelo público) se comportaram bem em meio à montanha de fuzz e barulho de "Mountain Man" e "Forget the Swan", do primeiro disco, ou "Little Fury Things" e "Sludgefeast", do segundo. "Tem sido ótimo", diz Murph. "As músicas novas acabaram se misturando muito bem com as antigas. E agora que está tudo junto, parece um catálogo só." O barulho, na verdade, exerce aí um papel de coesão. Só quem já viu um show do Dinosaur Jr sabe o volume de som que é produzido em cima do palco. A sensação física - o ar e a vibração do ambiente atacam como um linchamento onde nunca se perde a consciência - chega a se equiparar à auditiva.
"As músicas novas acabaram se misturando muito bem com as antigas. E agora que está tudo junto, parece um catálogo só." (Murph)
Uns 80% disso sem dúvida se devem à guitarra de J Mascis, uma união ainda hoje improvável entre pegada e solos de hard rock, levada de hardcore e um muro de efeitos que parte das lições de um Wipers e de um Hüsker Dü para chegar a níveis abissais, que descem mais fundo até do que um My Bloody Valentine. Evidentemente, a coluna de seis caixas e três cabeçotes Marshall fazendo uma concha (um casulo?) atrás de Mascis também influencia no resultado. Menciono que o Dinosaur Jr é considerado um dos pais da cena shoegaze inglesa (Ride, Lush, Slowdive), e Lou vai além.
LB . Não só isso, mas dá pra ouvir até naquela porra de música do Radiohead.
Soma . "Creep"?
LB . Isso. É tão na cara! Eles ensaiavam no mesmo estúdio e usaram os mesmos caras com quem gravamos. (Imita com a boca o guincho da guitarra antes do refrão.) Quando ouvi a música, pensei na hora "uau, isso aí veio da guitarra do J". Só colocaram um overdub que salta na sua cara. Ninguém deixava fazer isso na nossa época, nenhum engenheiro de som que tivesse respeito por si mesmo permitiria que as pessoas fizessem isso. O J só conseguiu fazer porque nós mesmos produzimos nossos primeiros trabalhos e ele tinha uma ideia específica do que queria. Ele fez acontecer. Nós também escutávamos muitos discos de punk rock que tinham um som bem ousado. Transferimos isso para as nossas músicas. E essas bandas inglesas, os produtores ingleses, pegaram isso.
Soma . Você teve que brigar muito com os produtores para fazer o que queria no começo? Como eles queriam que você gravasse?
J . Eles nem queriam estar lá (risos). Achavam a gente uma merda. É difícil se comunicar com esses caras que não sabem de onde você vem e não estão nem aí. Então você tem que fazer sua vontade prevalecer.
LB . Os caras do som odiavam a gente, todos eles.
Soma . E hoje eles gostam mais?
LB . Claro. Se você faz sucesso... As pessoas não entendiam o que a gente fazia naquela época. Hardcore era uma coisa, punk era outra, e o rock então... Ou você era uma coisa, ou era outra. Tudo era diferente. Hoje em dia, os técnicos de som são basicamente punk rockers. Você pode fazer uma turnê pelos EUA e em todo clube vai ter um cara punk que cresceu ouvindo punk rock, então ele - ou ela - vai entender. Há vários técnicos de som que nasceram no ano em que lançamos nosso primeiro disco! Quando começamos havia tantos tipos diferentes de música, era tudo tão incrivelmente rico. Quero dizer, sempre é, mas naquela época, quando paramos de tocar punk rock, ouvíamos de tudo. E havia bandas que eram bem mais punk: The Birthday Party, Swans... Não sei pra onde eu tô indo (risos). Mas era um espectro muito complexo de música e o punk rock parecia muito simples, então deixamos ele pra trás. O punk rock hoje se tornou apenas rock.
Experimentar esse fenômeno ao vivo causa uma espécie de torpor nos ouvidos que leva a apreciação musical a outro nível, no qual o semi-dano auditivo ("country de sangrar os ouvidos", já disse Mascis a respeito da sua forma de tocar punk) se transforma no mais perto de uma doutrina de iluminação que J Mascis tem a oferecer ao mundo. Não sei se essa intenção sequer passa por sua cabeça, mas, naqueles momentos, me ocorreu que talvez seja uma boa forma de ser lembrado.
Lou Barlow também tem ocupado mais o vocal principal do que no passado. "Eu compus duas músicas nos três primeiros discos, e nos dois últimos eu compus quatro, então eu faço muito mais agora (risos)." Nos shows de Recife e São Paulo, ele cantou duas delas: a quase-grunge "Imagination Blind" e a quase-Sebadoh "Back To Your Heart". Isso contribui para aumentar a impressão de que as coisas vão bem como nunca entre eles. Mas talvez o maior sinal disso seja algo que Lou me disse no carro, a caminho do seu show apócrifo no Espaço Soma. Debaixo da chuva torrencial que caiu em São Paulo naquela noite de segunda, ele me contava sobre o climão que surgiu entre ele, a banda e o manager quando fechamos o show. Surpreso, eu também disse a ele que, do meu lado, fazer aquilo acontecer (tudo rolou em poucas horas, de forma completamente informal) não foi sempre um mar de rosas. Vendo o temporal, comentei que forças superiores talvez não estivessem contentes com o show. Ele riu. "Os caras ainda não perceberam que, para eu fazer o que eles querem, precisam me deixar fazer o que eu quero". Segundo Lou, esse tipo de coisa é comum quando ele quer fazer um show durante as turnês do Dinosaur. "Acham que vai atrapalhar, desviar a atenção, essas coisas." Nesse momento, fiquei levemente preocupado de estar interferindo mais do que gostaria na vida da banda. Vendo minha apreensão, Lou riu. "Não precisa ficar preocupado. Tá tudo bem entre a gente. Isso é só um dos pontos da relação que ainda não discutimos.
< br/>
"
A Soma viajou ao Recife a convite do festival Coquetel Molotov/Conexão Vivo 2010