Um duo de voz e bateria já é um tanto improvável. Quando você chega ao teatro e percebe que a bateria se resume a uma única peça (caixa), a coisa fica mais estranha ainda. Não sabia o que esperar do show, e não era a única: os próprios músicos não tinham ideia do que iria rolar sobre o palco. O cantor inglês Phil Minton e o baterista holandês Han Bennink, veteranos da música 100% improvisada (ou, como eles preferem chamar: composição instantânea), se apresentaram na segunda noite do Projeto Festival de Improvisação, no Centro Cultural São Paulo. Embora já tivessem tocado juntos em outras ocasiões, essa era a primeira vez em que se apresentavam com essa formação enxuta - ou melhor, aparentemente enxuta, porque após trinta segundos de show já dava para perceber a capacidade daqueles dois senhores de tomar conta do espaço. Além de terem décadas de experiência, eles possuem jeitos inusitados de trabalhar com seus instrumentos. Phil Minton abre mão do bel canto e extrai do corpo sons que vão desde suaves assobios que lembram canto de pássaros até berros, passando por momentos em que emite duas notas diferentes simultaneamente. Han Bennink reduz a bateria a somente uma peça, trocando chimbal, bumbo e pratos por chão, escada, banco, sola dos sapatos e até o próprio tórax.
Quem conseguiu superar o estranhamento inicial e se deixar envolver pode perceber que durante os mais ou menos trinta minutos de show os dois não pararam de dialogar nem por um instante - uma conversa de malucos, é verdade, mas que fazia total sentido dentro dessa loucura. Também é preciso confessar que, se o áudio da apresentação fosse gravado e lançado em disco, seria penoso de se ouvir. Porque uma boa parte do encanto do show vinha da parte visual: da maneira como Phil se mexe sentado na cadeira e das caretas que faz (não por graça, mas porque para produzir aqueles sons é preciso fazer poses e expressões meio bizarras), e da inquietação de Han, que parece estar sempre a caça de sons diferentes: depois de vinte segundos na caixa, pula pro chão, batuca os sapatos, levanta, tira som da escada, troca de baqueta, batuca o banco onde está sentado, arremessa a caixa ao chão - além de se fingir de desastrado, simular desentendimentos com os objetos, deitar no chão em pose de Jesus crucificado, entre outras peripécias.
Se para muita gente (incluindo aí instrumentistas talentosos e professores de música) improvisar significa fazer solos intermináveis sobre temas e harmonias de standards de jazz, Phil Minton e Han Bennink provam exatamente o contrário: improvisar é correr riscos, sair da zona de conforto. E dispensando não somente uma base harmônica pré-estabelecida, mas qualquer base harmônica, trocando melodias por ruídos e esfacelando a métrica, eles proporcionaram uma experiência musical ao mesmo tempo estranha, fascinante e (por que não?) divertida.
Por Raquel Setz