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Thu: 12-16-10

R.E.M. lança faixa nova; ouça e leia entrevista com Michael Stipe

Em janeiro de 2001, o R.E.M chegou ao Brasil para fazer um dos shows mais memoráveis da história do Rock in Rio. Dez anos depois, Michael Stipe, líder da banda, volta ao Brasil para acompanhar Thomas Dozol para a exposição de fotos I´ll be Your Mirror no Espaço Soma. Foi durante essa visita ao país, enquanto os olhos não estavam voltados para ele e sim para o seu companheiro, que Stipe concedeu uma entrevista exclusiva para a revista Soma. O papo de exatamente uma hora vai sair na próxima edição da revista, mas você já pode conferir abaixo.

Aproveite para ler a entrevista escutando "Discoverer", o primeiro single do disco Collapse Into Now, que tem previsão de lançamento para o começo do ano que vem. Para baixar, é só entrar no site oficial da banda e colocar o seu mail. Você receberá a música alguns minutos depois na sua caixa postal.
 

OUT OF TIME
Uma hora com Michael Stipe

Por Marcos Diego Nogueira . Colaboração de Diego de Godoy e Mateus Potumati . Retratos por Eldon Masini .

A pontualidade britânica de Michael Stipe quase faz esquecer que ele é um cidadão da pequena Decatur, no estado norte-americano da Geórgia. No horário marcado, ele desce para o lobby do hotel onde está hospedado em São Paulo por conta da abertura da exposição fotográfica de seu companheiro, Thomas Dozol, que aconteceu no Espaço Soma entre outubro e novembro de 2010.

De barba branca e gorro de lã azul, no melhor estilo Bill Murray em A Vida Marinha Com Steve Zissou, leva uns bons três segundos para ser reconhecido (sucessos como "Stand", "Everybody Hurts", "The One I Love" e "Losing My Religion" certamente são identificados em menos tempo). Cumprimenta a todos cordialmente e, enquanto nossa equipe procura um lugar mais calmo para o bate-papo, se aboleta em uma das mesas. "Não podemos fazer aqui mesmo?", pergunta. That's him on the corner. Michael Stipe. O cara que há 30 anos nos ajuda a achar coisas escondidas dentro de nós mesmos, como definiu Eddie Vedder no discurso de introdução do R.E.M. ao The Rock And Roll Hall of Fame, em 2007. "Existem sentimentos muito profundos no meu coração que foram colocados pessoalmente por Michael Stipe", disse ele à época. E alguém, por acaso, nunca se identificou com isso? É esse homem que está ali, ajustando a luminária no lugar onde escolheu para, em uma hora, resumir e destrinchar não só três décadas (e 14 discos) de R.E.M., mas também de gosto pelas artes, pelo punk, por ativismo político, religião e sexualidade.

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O som de abertura de Accelerate se chama "Living Well is The Best Revenge". Para você, o que significa viver bem?

Eu vivo uma vida muito gratificante. Sempre fui cercado por boas oportunidades e também tive sorte. Mas trabalhei muito duro. Venho de uma família de trabalhadores. Acho que a ideia de viver bem é curtir o seu trabalho e poder fazer as escolhas que quiser para continuar gostando dele, em detrimento a fazer algo que lhe foi imposto.

E como é um dia na vida do Michael Stipe?

Eu tenho uma vida ótima, não posso reclamar. Gostaria de ter mais cabelo e não me incomodaria de ter 32 anos de novo. Mas obviamente ninguém pode ser o que é agora e ser jovem ao mesmo tempo.

Você tem casas em Nova York e também em Athens. Como concilia ritmos de vida tão diferentes no seu cotidiano?

Athens é mais uma casa de campo para mim. Tenho um jardim onde posso cultivar minhas próprias frutas e vegetais. É um ambiente muito tranquilo em comparação a Nova York, que é muito elétrica e emana uma energia diferente. Athens tem sua própria energia e às vezes e até mais intensa do que NY, porque em NY eu consigo desaparecer. Mas as duas se complementam muito bem.

Em quais aspectos a cidade ajudou a definir o som do R.E.M.?

É um lugar com o qual temos uma ligação emocional muito complexa. Athens, como comunidade, sempre incentivou muito a música e a criatividade, então foi fácil me desenvolver. O maior impacto em nós como banda foi ter um lugar onde nos sentimos à vontade, onde podemos relaxar e que podemos chamar de casa.



Athens revelou algumas das bandas indie mais importantes dos anos 1990, como Neutral Milk Hotel e Olivia Tremor Control, e também tem uma cena forte de rap. Você ainda acompanha o que acontece por lá?

Bom, eu tenho 50 anos de idade. Sou fã de música, mas não vou a clubes toda noite ver qualquer banda que apareça. Acabo dependendo de amigos com muito bom gosto que dizem: "Você precisa ver essa banda". Então, há muitas bandas de Athens que eu não conheço e não vi tocar. Mas adoro o Neutral Milk Hotel e a música feita por Jeff Mangum. Acho que, para um cara de 50 anos, estou indo bem. Além de música há uma grande comunidade de artes em Athens. Dentro do estado da Geórgia, que é relativamente conservador politicamente, Athens é uma espécie de ilha de pensamento liberal. É como uma ilha de brinquedos quebrados, onde todos os excluídos da sociedade se unem e criam algo próprio.

Algo como o que ocorre em Austin, no Texas?

Sim, Austin também segue essa linha. Acho que isso tem a ver com o fato de serem comunidades estudantis. No caso de Athens e a Universidade da Geórgia, há moleques de 17 e 18 anos que vêm de todas as partes do mundo. Na universidade, assim como em qualquer negócio ou instituição, há coisas boas, mas também há outras muito ruins, então não pense que estou levantando a bandeira da universidade, particularmente. Mas, como cidade universitária, ela traz uma energia nova a cada ano e uma grande comunidade internacional. Em Athens há uma história de pessoas que lutaram pelos direitos civis nos anos 60. Meu tio e o nosso empresário passaram por lá, e ambos lutaram na linha de frente pelos direitos civis. Então hoje em dia há um entendimento - não diria tolerância - e aceitação sobre pessoas que são diferentes, o que não se acha em todo lugar no meu país.


Não foi exatamente o curso de artes da Universidade da Geórgia o responsável pela formação do R.E.M. Na realidade, a culpa foi das comunidades e lojas que ficavam nas redondezas do campus universitário. "Eu era um ‘slacker' (desleixado, vagabundo), só queria transar, fazer música e ter uma banda (risos). E fiz todas essas coisas", conta Stipe. Não à toa, ele e Peter Buck se conheceram em uma loja de discos por ali. Nos primeiros segundos de conversa, uma afinidade para a vida toda: o gosto pelos quatro primeiros discos de Patti Smith.

Os dois logo se tornaram companheiros de quarto e chamaram os amigos Mike Mills e Bill Berry para montar um grupo. O primeiro show do R.E.M. foi em abril de 1980. Durante aquela década, enquanto a maioria das bandas pensava em sintetizadores, eles olhavam para os anos 60. Apesar da veia pop, a banda fez questão de manter proximidade com o punk, como aconteceu na turnê com o Replacements, em 1983, ou com o Minutemen, em 1985. "Mais ou menos naquela época, percebemos que tínhamos liberdade para fazer o que quiséssemos", diz Stipe. "Não precisávamos obedecer a gravadora em tudo. Então, chamamos bandas de que gostávamos pra tocar conosco."A turnê com o Minutemen aconteceu pouco antes do trágico acidente que matou o guitarrista D. Boon, de quem Stipe ainda tem uma memória muito viva. "Dennes tinha uma personalidade maravilhosa, era muito amoroso e cheio de energia. Eles eram fantásticos ao vivo e eu os amava." O assunto anima Stipe.



 

Na época em que você entrou na universidade já pensava em seguir carreira na música?

Antes de me mudar para Athens, aos 18 anos, eu gostava da comunidade punk de St. Louis, que era bem diferente de Athens. Eu morava com uma banda punk e todo mundo que eu conhecia queria fazer música. Isso era 1978. Quando cheguei a Athens, tudo que eu queria era conhecer pessoas com quem pudesse fazer música, conversar e conviver. Não fui aceito na universidade na primeira tentativa, então tive que fazer aulas à noite, o que me fez conhecer um grupo interessante de pessoas, que também trabalhava em restaurantes, lavando pratos e coisas assim.

Por um bom tempo, nos anos 80, o R.E.M. parecia estar distante dos fãs de bandas como Hüsker Dü e Sonic Youth.

Nos anos 80 acho que nos ouviam, talvez no final da década - quando tivemos hits em rádios - as pessoas tenham perdido o interesse, por acharem que tínhamos ficado muito grandes. Mas ainda assim elas nos apoiaram, apesar de terem mantido certa distância. Nós éramos uma banda pop, assim como o Sonic Youth [se tornou pop], apesar de tudo. Temos uma atitude similar, apesar da sonoridade diferente.

E eles assinaram com uma grande gravadora apenas nos anos 90, então até lá eles ainda seguiram fazendo parte do ethos indie/punk.

Sim. O Peter Buck disse uma vez que nós éramos a face aceitável de coisas inaceitáveis. Esse foi o comentário mais puro que eu ouvi sobre o R.E.M., em comparação a outras bandas punks da época. Eu não saberia me expressar melhor.

Kurt Cobain disse que o admirava pela maneira como você lidou com o sucesso. Como é sua relação com o sucesso?

O que ele quis dizer foi mais sobre a nossa atitude em relação à indústria da música. Por exemplo, o fato de termos nos negado a aceitar patrocínios, a fazer clipes idiotas ou nos vestir de uma maneira que, segundo a gravadora, venderia mais discos. Então tudo que era importante no punk naquela época ainda é muito relevante para nós, após todos esses anos. Kurt e toda aquela geração de músicos se inspiraram no R.E.M. e no Sonic Youth como bandas que se desenvolveram no mundo da música e alcançaram um sucesso moderado ou grande, e ainda assim permaneceram puros e verdadeiros em relação ao que se propunham. Bem ou mal, esse ainda é o lugar onde nos encontramos 30 anos depois. Me orgulho do fato de termos cometido erros e nos responsabilizado por eles. Todos os fracassos foram unicamente nossos, não podemos culpar a gravadora, os fãs ou os críticos. Mas os triunfos também são nossos, e esses nós ficamos felizes de compartilhar com os fãs. (risos)


Quando o grunge surgiu, no começo dos anos 90, o R.E.M. já era contratado de uma grande gravadora, a Warner Bros. (com quem eles assinaram em 1988). Enquanto as guitarras gritantes estavam mundialmente em voga, hits na contramão faziam cada vez mais parte do cardápio do quarteto de Athens (o que dizer da colorida "Shiny Happy People"?). Em 1994, ano em que Kurt Cobain tirou sua vida, a banda lançou Monster, com riffs a todo volume. Não é por acaso que um dos seus discos de mais sucesso se chama justamente Out of Time (termo sem tradução literal, que pode ser traduzido como "na hora errada" ou "no tempo errado"): nada define melhor a história da música do R.E.M do que essa expressão.

Em suas respostas, Stipe mostra que tem orgulho de sua obra como um todo e parece não se incomodar com nenhuma pergunta sobre músicas e álbuns. Pelo contrário, se empolga e responde com riqueza de detalhes.

Vocês talvez tenham sido os primeiros a incluírem rimas de rap em uma música pop (em "Radio Song", do álbum Out of Time, de 1991). Qual sua visão sobre isso hoje em dia?

É interessante porque, após todos esses anos, me parece que nós fomos os primeiros a colocar o rap no rock and roll, assim como o Run DMC colocou o rock and roll no rap. Eu só fiz aquilo porque sempre gostei do Boogie Down Productions e do KRS-1, e achei que ficaria interessante colocá-lo no nosso disco. Adoro o flow, a voz e o humor dele. Essa história aconteceu por acaso. Anos depois, alguns membros da comunidade hip-hop vieram me dizer que não tinham ideia do que aquela gravação significaria. Naquele tempo a MTV não tocava muitos artistas negros, com exceção de Michael Jackson. Já com Q-Tip (na música "Outsiders", de Around The Sun, de 2004) a história foi diferente. Eu compus um rap - na verdade achei que fosse um rap mas não era, estava em um flow diferente -, mas não me via cantando essa parte e recorri a alguém que faria o trabalho direito. O engraçado é que Around the Sun é um disco que as pessoas amam odiar. Outro dia fui a um restaurante em Nova York e estava tocando "The Outsiders". No começo não reconheci e fiquei curtindo o som, até me dar conta de que era eu. E aí veio a parte do rap, com o Q-Tip, e é um puta som maravilhoso!

E "Losing My Religion"? Você se surpreendeu com o fato de uma simples canção sobre amor ter sido interpretada como religiosa?

Na passagem de um século a outro, as pessoas parecem sempre questionar temas como fé e religião. A igreja organizada, neste século que começa, precisa trabalhar duro para se tornar mais inclusiva como instituição - e não estou falando especificamente sobre a igreja católica ou protestante, mas de todas as religiões organizadas. Elas têm que fazer um grande esforço para não se tornarem algo do passado. "Losing My Religion" tem um significado muito diferente, mas aconteceu a nove anos do fim do século, e se transformou em uma metáfora por engano. O significado de algo pode ser mal-interpretado e essa má-interpretação pode ter mais poder do que o sentido original. Foi o que aconteceu. Eu compus uma canção muito simples de amor, sem pensar em algo mais poderoso do que isso. Mas essa música se tornou um ponto importante na história da cultura pop da época. Fico feliz por ter feito parte disso.

Já New Adventures in Hi-Fi (1996) foi um álbum gravado na estrada. Na época você disse que alguns banheiros de hotéis tinham a acústica perfeita para gravação. E funcionou, é um dos álbuns mais queridos pelo público. Já pensou em repetir essa experiência?

Nós fizemos uma coisa bem idiota em termos de divulgação do álbum e, quando ele foi lançado, houve um mal-entendido: ficou parecendo se tratar de um disco ao vivo. Na verdade, nós queríamos dizer que fizemos algo diferente, gravando as bases das faixas ao vivo, em passagens de som ou outros lugares. Depois pegamos essas gravações e fizemos um híbrido entre ao vivo e estúdio. Nunca havíamos feito nada parecido. Mas, se você conhece a história da música "Benny and the Jets", um dos grandes hinos pop feitos por Elton John, sabe que foi uma gravação de estúdio feita com som de plateia. Isso é fantástico. Então não foi nada sensacional o que fizemos, em termos musicais. Se eu faria de novo? Com certeza. Gosto muito desse disco, é um dos meus favoritos. Existe só uma música que eu gostaria de ter trabalhado melhor, mas nunca vou dizer qual é.



(risos)

Mas e os banheiros de hotéis?

Isso foi mais uma tentativa de fazer com que as pessoas entendessem o processo. Mas banheiros em geral são muito bons para cantar.

Mike Mills e Peter Buck gostaram desse processo ou são mais músicos de estúdio?

Se dependesse do Peter, nós faríamos um disco em 43 minutos (risos). Pode-se dizer que partes do nosso próximo disco também foram feitas ao vivo. Digo, estamos gravando em estúdio, mas houve momentos em que a inspiração veio e os microfones não estavam exatamente preparados. Captamos coisas mágicas assim.

Depois que Bill Berry saiu da banda, você gravou dois álbuns, Up (1998) e Reveal (2001), que têm uma atmosfera bem diferente das já exploradas pela banda. São discos mais climáticos, que sempre passaram uma impressão de terem sido subestimados...

Up foi muito longo. Eu sempre olho para os discos um ano depois de lançados e penso "gostaria de ter feito isso e aquilo de forma diferente". Faz parte de ser artista, você faz algo e ama o resultado, mas depois fica mais crítico. Acredito que tanto Up como Around the Sun poderiam ter um ou dois sons a menos. Sendo bem honesto, a banda se perdeu em algum momento no estúdio, e dá pra perceber nos discos. Reveal eu considero um disco mais sólido, simplesmente porque nós tínhamos uma ideia. É uma ideia pura e simples, mas que não perdeu o foco. Soa melhor como álbum, pra mim. Eu não acho que fomos bons durante toda nossa carreira. Creio que existem momentos em que você mira uma estrela, mas acerta em um pequeno planeta, entende o que eu quero dizer? Às vezes nós tentamos e a coisa não funciona. Eu ficaria triste se um artista que eu gosto fizesse algo muito idiota ou bobo. Entendo que as pessoas não gostem de certos discos, e isso não me incomoda muito. Apesar de tudo, tenho muito orgulho das músicas, gostaria muito de ouvir alguém como a Taylor Swift fazendo uma versão de "Aftermath" ou algo assim. Seria ótimo ouvir um artista pop pegando alguns desses sons e reinterpretando como se fosse deles. Não precisa ser exatamente a Taylor Swift, só citei porque acho ela uma cantora muito boa (risos).

O que você pode adiantar sobre o próximo álbum, Collapse Into Now?

Não posso falar sobre ele, porque ainda não falei com ninguém. Só posso dizer que estamos muito animados com as músicas e com o processo de estúdio. Deve sair no fim de março. Eu aprendi uma lição muito dura falando sobre um álbum antes que ele saísse. Acho que foi em Around the Sun, quando eu disse que seria um disco cheio de raiva, com letras inconformadas, e as pessoas pensaram no Clash. Quando o álbum saiu, o que viram foi uma revolta mais madura, que vem de um lugar mais profundo. Não é a fúria de alguém de 20 anos de idade que quebra janelas, mas a de um cara de 47 anos que está olhando o mundo e percebendo que nos últimos 25 anos nada mudou muito. E tudo o que eu fiz como ativista político, tudo o que tentei mudar na política praticamente não deu resultados. É uma revolta diferente. Além do mais, esse disco foi escrito durante o governo George W. Bush e eu rezo, se houver um Deus no céu, para que a política americana nunca volte à escuridão daquele tempo.

Falando em política, o Obama enfrenta taxas de reprovação muito altas e tem sido retratado como um presidente isolado e perdido. O que você acha do governo dele até aqui?

Quem dissemina a ideia de que o povo americano está desapontado com Obama? A mídia. E o que a mídia americana fez a favor da política ou de algum progresso nos últimos vinte anos? Nada. Eles já jogaram essa administração pelo ralo, porque isso rende boas manchetes. Talvez esperassem que o Obama criasse asas, esticasse os braços, abrisse as mãos e resolvesse de uma hora pra outra os oito anos de economia desastrosa de Bush e Cheney. Eles faliram a infra-estrutura do nosso país e o sistema financeiro estava corrompido, em colapso, por culpa também de Clinton, Bush Pai e Reagan. O governo Obama assumiu um puta pepino, e nenhum canal de TV falou isso. Ninguém disse "vamos parar de criticar e tentar resolver o que foi corrompido nos últimos anos". Isso sem falar nas duas guerras. E há pessoas que são contra o nosso presidente só porque ele é negro. O fato é que a mídia tem sido muito injusta com esse governo e eu fico furioso com isso, como ficava com a administração Bush. Mas ainda existe um grupo de jornalistas que pensam em como a sociedade pode se desenvolver, discutem sobre economia ou questões culturais, como as diferenças entre homens e mulheres no mesmo trabalho, ou estatísticas como o número de pessoas negras que estão na cadeia em relação ao total. Ainda somos adolescentes como cultura e país, cometemos erros horríveis. Um deles é o racismo incrível, do qual nem podemos falar. Outro é a inabilidade de discutir questões de classe. [Os conservadores] gostam de definir os Estados Unidos como nação cristã. Para quem se intitula democrático, isso é um insulto tremendo. Posso continuar nesse assunto por dias, mas não são ideias que vieram da minha cabeça, elas estão aí, claras como água.

Letras como a de "Losing My Religion" ou "Suspicion" não falam só de amor, mas atingem estados dolorosos de amor. Por que isso acontece? Tem a ver com a forma como você foi criado, ou com o fato de ser gay nos EUA?

Eu não escrevo letras autobiográficas, minha tendência não é essa. Vejo alguém conversando do outro lado da sala e penso em uma história, levando em conta a forma como ela reage às outras pessoas - "Suspicion" veio de algo assim. Vejo alguém brigando em uma boate e isso se torna "Fascinating" ou qualquer outra música. Tenho facilidade em escrever canções mais obscuras, tristes. Essa é uma parte da resposta. A outra é que eu não me identifico como gay, mas como queer, que é uma diferenciação importante a ser feita no século XXI.



Qual a diferença entre os dois?

Simplificando, é o entendimento de que existem muitas variações de sexualidade. As pessoas não são sexuais de um jeito binário, não se dividem apenas entre gays e héteros. Se um travesti se apaixona por uma mulher, isso faz com que ela seja lésbica ou, como "ela" é um homem, na verdade é hétero? Considero um pensamento antiquado querer identificar "isso é isso e aquilo é aquilo é aquilo". O termo queer abrange tanto quem é gay como quem é hétero, e as variações que existem entre esses dois conceitos. É apenas um outro jeito de olhar a sexualidade. Tem uma terceira parte da sua pergunta que eu ainda preciso responder. Acho que a minha sexualidade contribuiu muito para minha escolha de trabalhar com criação. Quando decidi ser cantor e ter uma banda punk, eu não sabia que tinha essa voz, não sabia que sabia compor, só sabia que era algo que eu tinha que fazer isso. E fiz. Acho que me sentir um outsider, alguém diferente do que a sociedade esperava de mim desde pequeno, me levou a explorar minhas características de forma diferente. Isso é uma coisa positiva. Eu gostaria de abraçar e encorajar todas as pessoas que se sintam outsiders, ou mesmo aquelas que não se sentem assim, a seguir sua voz, ouvir a si mesmos, e viver uma vida realmente verdadeira.

São sete horas da noite, e os 60 minutos que teríamos com Michael Stipe chegam ao fim. Mesmo assim, ele ainda abre seu iPhone para mostrar o que tem escutado. "Pra mim, o álbum do Yeah Yeah Yeahs foi o melhor do ano passado, junto com o do Grizzly Bear", define. Sobre o segredo para se manter 30 anos na estrada, Stipe é taxativo: "É preciso amar e respeitar os companheiros de banda, apesar de ser cansativo manter o compromisso que temos em fazer sempre álbuns completos, e não apenas singles".

Ele se levanta da cadeira e coloca-se à disposição do fotógrafo. "Vamos lá fora?", sugere. Na rua, faz pose em frente a uma caçamba de entulho e, após alguns cliques, corre para a esquina, onde mais entulho e sacos de lixo se amontoam. "Isso aqui é legal, não é?", ri de si mesmo, e chega a brincar com a atitude punk em um homem "hospedado em um hotel de luxo e com um celular de mil dólares na mão". Atitudes como essa fazem pensar que, para estar "out of time" é preciso, acima de tudo, estar à frente do seu tempo.

Saiba mais:
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