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Wed: 12-15-10

+Entrevista: Izolag, por Daniel Tamenpi

(Entrevista publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)    

Izolag
Firme & Forte na Mistura

Por Daniel Tamenpi . Fotos por Izolag e Ananda Nahu

Ainda lembro do impacto que senti na primeira vez que vi uma obra de Rodrigo Almeida Galosi, mais conhecido como Izolag, artista nascido no Rio de Janeiro que adotou a Bahia como terra natal. Criado em Ipiaú, cidadezinha de pouco mais de 40 mil habitantes no interior baiano, foi para Salvador cursar Artes Plásticas na UFBA, mas abandonou o curso para mostrar seu trabalho nas ruas (e depois nas galerias). Com um estilo original que mistura o graffiti com o estêncil, Izolag - que atualmente vive em Petrolina, Pernambuco - já se tornou uma referência singular no circuito das artes plásticas, com obras caracterizadas pela forte presença da música e de diferentes temas urbanos, como a pobreza e o abandono. Usando diferentes tipos de suportes, como carcaças, madeira e couro, o artista foi reconhecido primeiro no exterior, com obras compradas por diversas galerias europeias, e agora começa a se destacar no cenário nacional. Neste bate-papo com a +Soma, ele conta sua história, explica a importância da música em seu trabalho e critica a falta de apoio a artistas fora do eixo Rio-São Paulo.

Quando e como a arte começou a fazer parte da sua vida?

Desde criança trabalho com couro, sola e madeira. Meu pai é sapateiro, então sempre convivi com a produção de calçados e artesanato. Eu também fabricava carros de madeira quando criança, no interior. Cheguei a ter uma minioficina no quintal de casa, onde consertava carros de pau (usados para carregar as compras da feira para casa nas cidadezinhas do interior) de gente de todo o bairro.

Por que, apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, você se apresenta como um artista baiano, e não carioca?

Aos sete anos saí do Rio de Janeiro e fui morar no interior da Bahia, em Ipiaú. Não foi nada planejado. Meu pai perdeu tudo que tínhamos com jogo e bebida, e tivemos que achar uma alternativa pra sobreviver. Como minha mãe tinha parentes por lá, tive que me agarrar a ela. Aprendi a amar muito a Bahia, e foi lá que tive a maior parte da minha formação e do meu trabalho.

Vejo o Nordeste muito presente na sua arte, com uma mistura de cores intensas em volta das gravuras. Você concorda?

Sim. Quando pinto no Nordeste, a coisa fica quente. A claridade é imensa, o chão é marrom e vermelho, cheio de espinhos. É uma coisa natural, não é algo que pesquiso em livros. Mas a minha fonte inspiradora maior é a música. Só depois vêm as capas de discos, os cartazes, os filmes, a literatura, os documentos antigos, a política, a caligrafia... Sempre fui vidrado em imagem e som. Fiz programas de rádio comunitária, de choro, MPB, rock e hip-hop na adolescência. Além disso, a gravação da imagem em estêncil é bem demorada e cansativa. Tem o trabalho digital da imagem, montagem, lavar radiografia e cortar. Parece não acabar nunca. Nesse processo, o som nos deixa em movimento e atividade.

Sobre o período em que estudou Artes Plásticas em Salvador, você acha que foi um fator importante pra sua formação ou a faculdade apenas deixa o artista mais restrito e bitolado?

Acho que o indivíduo se põe na condição de bitolado. Cheguei a dormir na rua pra fazer esse curso na Universidade Federal da Bahia, saí do interior sem ajuda, só com a força que minha mãe me deu. Hoje eu não faria isso de novo. A internet está aí, e também a facilidade de ver boa arte. Não acho mais necessária essa formação acadêmica que só restringe e segrega.

Você é casado com a Ananda Nahu, que tem um estilo que combina muito com o seu, tanto que vocês fazem parcerias constantes. De que forma vocês se influenciaram artisticamente?

Nos conhecemos no período da faculdade, estudamos juntos e abandonamos juntos. Ananda também é fruto de influências de sua terra natal, além da música, do cinema, do cartazes, dos tecidos. Nós desenvolvemos em parceria a nossa maneira de fazer o estêncil. Antes disso, pra mim, o estêncil era mais ligado ao protesto, a ícones da luta armada e uma pop-art mais extrema. Começamos a misturar cores e a trabalhar com mais complexidade, e isso aconteceu com outros artistas no mundo no mesmo período. Mas mesmo assim ainda são raros os casos.

Você usa matérias-primas diversas em suas telas: couro, vários tipos de madeira, carcaças. Por que essa diversidade de superfícies?

Eu moro muito longe. Não dá pra ir no comércio e comprar uma tela pra pintar, então uso coisas do cotidiano e que costumo achar nas ruas, no lixo. Outras eu compro. Aqui em Petrolina existe um curtume onde trabalham o couro. Como desde pequeno lido com esse suporte, creio que vou usar muito ainda, e ele pode ser usado de diversas formas.

O seu trabalho tem chamado bastante atenção nos últimos anos, rendendo exposições fora do país. Como tem sido a recepção da sua obra nas galerias?

O Brasil é uma grande potência nas artes atualmente. Tenho muitos colecionadores, um mercado do qual eu não esperava participar. No período da faculdade, achava que viveria do graffiti, não de pintar telas. Isso seria uma loucura! A rua é uma coisa mágica, mas pra pintar na rua tem que ter tinta, e se eu não pinto em telas não rola. O graffiti é a melhor parte do processo. Telas e galerias são a parte mais chata. Se eu pudesse só pintaria na rua.

Suas obras estão expostas em presídios europeus e em multinacionais. Como funciona isso?

As galerias com que eu trabalho estabelecem contato com diversos meios: TV, cinema, moda, instituições como presídios e empresas multinacionais como a Philips, que coleciona meus trabalhos há alguns anos. Quanto às pinturas nos presídios, o tratamento e a importância que se dá ao presidiário europeu é coisa fina. Existem três psicólogos pra cada detento, além do alto investimento em arte.

Você e a Ananda têm um projeto juntos, chamado Firme & Forte. Conta um pouco mais sobre isso.

Por termos as mesmas afinidades na arte, na cultura e na vida, a gente criou a Firme & Forte Records, uma gravadora de imagens que tem como principal referência a música e seu mundo. A ideia é ampliar os limites das mídias, transformar as batidas sonoras em arte gráfica multicolorida, atuando com cartazes, pintura, graffiti e fotografia, criando uma união da imagem com o som. É uma coisa diretamente influenciada pela cultura brasileira. O nosso repertório não integra a antiquada e ditatorial arte acadêmica, mas sim a arte impregnada nas capas de discos de diversos países, cartazes que vão desde os revolucionários e psicodélicos até os dos dias atuais - filmes, desenhos animados, o mundo do skate, quadrinhos etc. E a intenção é trabalhar também com a produção fonográfica, com discos de vinil. Temos como parceiros diversos grupos, bandas e cantadores também.

Você atualmente mora em Petrolina, em pleno agreste pernambucano. Essa mudança teve algum objetivo relacionado à sua arte?

Estou sempre disposto a aprender, e vim morar aqui porque precisava de um tempo pra ganhar maturidade como artista e como pessoa. A Ananda é de Petrolina, e fazia muito tempo que queríamos realizar algumas coisas por aqui, trabalhando com graffiti e também com outros suportes, como fotografia e vídeo, assim como fiz no sul da Bahia.

Você acha que as coisas são mais complicadas pros artistas que não estão no eixo Rio-São Paulo?

Sem dúvida alguma. As coisas acontecem no eixo Rio-São Paulo. Vemos o tema e a estética da cultura nordestina tateando aqui e ali no trabalho de diversos artistas das grandes capitais. Já aqui não existe nem tinta. Muitos desistem. Tudo vem do Rio e de São Paulo: spray, tinta acrílica, telas... Pra desenvolver algo é preciso alto investimento, mas há pouca circulação de dinheiro pra cultura, que vive apenas do passado e não dá conta do novo. Não se nota que o Nordeste hoje é valvulado, mas também é digital, e que sempre estaremos olhando pro futuro.

Saiba mais:
www.flickr.com/photos/izolag/
www.fotolog.com/izolag