(Matéria publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Perdidos no Espaço
Por Sean Edgar* . Fotos por Drew Reynolds
(*)Tradução de Alexandre Boide
Depois do lançamento de seu incendiário álbum de estreia, em 2004, ninguém sabia direito o que esperar do Autolux. Dizer que o próximo passo do trio de art rock de Los Angeles era aguardado com ansiedade é um eufemismo de marca maior. Consideremos os fatos: os membros da banda têm origem na realeza do indie rock, já tocaram com todo mundo, desde o Nine Inch Nails até o White Stripes, e o primeiro trabalho que fizeram juntos foi a trilha sonora para uma peça de Dario Fo, dramaturgo italiano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. A única certeza era a de que o baixista Eugene Goreshter, o guitarrista Greg Edwards e a percussionista Carla Azar (os três se revezam nos vocais) iriam se reunir novamente, de um jeito ou de outro. Seis anos depois, eles enfim voltaram a transitar na mesma órbita. Porém, apesar de o segundo disco da banda ter demorado mais de meia década para sair, "Transit Transit" não soa exatamente como o retorno de um superpotência emergente do mundo indie. Na verdade, parece ser justamente o contrário.
Muita coisa mudou desde que a banda surgiu, gerando um intenso boca-a-boca na internet e angariando fãs como Thom Yorke. Aquele que pôs o Autolux no mapa, o produtor de "Future Perfect" - T Bone Burnett, que com seu rock de raiz inspirou artistas como Robert Plant e Willie Nelson e faturou três Grammys pela trilha sonora de "E Aí, Meu Irmão, Cade Você" -, não está mais entre eles. Afinal de contas, era um tanto estranho ver um ícone do bluegrass à frente dos mais novos expoentes do rock eletrônico. Edwards a princípio também pensava assim. "É verdade que, se você pegar o histórico [de Burnett], jamais imaginaria que uma banda como a nossa poderia trabalhar com um cara como ele. Mas isso não importava", explicou o guitarrista. "Ele está na mesma sintonia que nós tanto quanto qualquer outro que conhecemos. Não havia ninguém melhor que ele pra trabalhar com a gente naquele momento."
A colaboração entre eles rendeu uma pérola do underground que adicionou uma fúria incandescente ao brilho opaco do shoegaze. Em "Future Perfect", Goreshter, Edwards e Azar criaram uma série de histórias sobre robôs que invadem jardins e exércitos formados por pessoas "pra quem você nunca deu a mínima" ("everybody you never cared for"). O resultado é uma música ácida e provocativa que, no vocal sussurado e andrógino de Goresther, se torna também estranhamente reconfortante. As comparações com outros mestres no uso da estática, como My Bloody Valentine e Sonic Youth, não demoraram a aparecer. Impulsionada pela reputação de seus membros (Azar já tocou percussão com Ednaswap, PJ Harvey e Vincent Gallo), a banda saiu em turnê com Beck, Elvis Costello, Clinic e Broadcast, entre outros.
Foi então que, em 2005, chegou ao fim o DMZ, o selo dirigido por Burnett e os irmãos cineastas Joel e Ethan Coen. Com a perda do suporte da gravadora, o trio foi forçado a assumir ele mesmo todas as questões relacionadas à sua música. Em seu segundo álbum, o grupo cuidou sozinho de todo o processo de gravação e produção em seu estúdio em Los Angeles, o Space 23, no qual eles tinham tudo de que precisavam. "No estágio criativo em que estávamos, nós precisávamos ficar totalmente isolados pra conduzir o processo exploratório que nos levou a descobrir que tipo de músicas queríamos compor pro álbum", contou Edwards.
Depois de disponibilizar "Audience No. 2" no Myspace, em maio de 2008, o Autolux ainda precisou de mais um ano e meio para aperfeiçoar "Transit Transit". Foram necessários ainda mais oito meses para encaixar o disco nos respectivos selos. O TBD Records, mais conhecido por lançar "In Rainbows", do Radiohead, assumiu a distribuição nos Estados Unidos e no Japão, enquanto o ATP Recordings ficou responsável por sua comercialização no restante do mundo.
A faixa de abertura, "Transit Transit", que também dá nome ao álbum, estabelece o tom de desolação que permeia todo o LP. Acompanhada por fragmentos de piano e uma bateria eletrônica quase imperceptível, a mensagem introdutória de Edwards não é das mais positivas: "One more lonely fascist loser / Let the spirit go / 60 thousand turnstile kids all bracing for the show / Eyes like vinyl / Lips like rain clouds / Dreams all in a row / The golden age of feeling nothing / Brought your spirit home."
Porém, conversar com esse veterano do rock alternativo, que carrega na distorção desde os anos 90, quando fazia parte da banda grunge Failure, não tem nada de tedioso. De acordo com ele, a ideia do trio era criar algo muito mais otimista para a sua mais recente odisseia no espaço. "Obviamente, e em vários sentidos, o novo álbum é muito mais experimental que "Future Perfect", que hoje eu considero simples demais pra nós", ele explicou antes de subir ao palco em uma madrugada em Chicago. "Mas sem dúvida nenhuma não era o que nos propomos a fazer. Acho que, entre outras coisas, nos propomos a fazer um disco que fosse muito mais pop, nos termos daquilo que a gente considera pop. Por algum motivo, ele saiu desse jeito."
Lançado sem alarde no dia 3 de agosto, o álbum não teve quase nenhum impacto na comunidade blogueira que glorificou seus realizadores seis anos atrás. As dez novas canções do Autolux compõem uma jornada interior claustrofóbica, com pouquíssimas melodias atraentes - algo difícil de vender em qualquer mercado. "A explicação mais simples [para a mudança no clima sonoro] é que o disco novo foi feito mais como uma espécie de colagem, meio que um overdubbing, enquanto "Future Perfect" foi uma experiência coletiva do início ao fim. Acho que, quando a pessoa está experimentando ou trabalhando sozinha, as coisas tomam um rumo muito diferente de quando está tocando junto com outras pessoas em um estúdio."
Solidão é a palavra-chave: o álbum soa como um episódio de "Star Trek" dirigido por Nietzsche. É a crônica de uma viagem por um espaço sem fim, sem tempo e sem vida, em que os viajantes exigem que o cosmo "abra mão do futuro" ("Let the future go"). Experimentos melódicos como "Spots", tocada ao piano, revelam o amor de Edwards e Azar pelos Beatles da época do "Álbum Branco", ao passo que o single "Supertoys" segue uma batida lenta, permeada por notas ruidosas. Qualquer que seja o padrão, não se trata de uma experiência sonora das mais fáceis, apesar dos 75 pontos obtidos (de 100 possíveis) no agregador de resenhas Metacritic. Quando ouvido com mais atenção, o álbum não deixa dúvidas de que é um maquinário complexo, marcado por uma profundidade oculta. Só não queira fazer ginástica aeróbica com ele.
Mas, para quem fala em abandonar o futuro, o Autolux está bastante ocupado fazendo novos planos. O grupo está encabeçando uma turnê internacional que deve durar até janeiro, e Azar, que sofreu uma séria fratura no cotovelo em 2002, vem aprimorando cada vez mais suas batidas, graças a uma cirurgia de caráter experimental em que foram usados oito parafusos de titânio. "Ela está tocando ainda melhor", garantiu Edwards. "Depois da contusão e da recuperação, acho que, mesmo que de forma não consciente, ela começou a se esforçar ainda mais". E o mais importante de tudo é que a jornada interestelar do Autolux não vai mais demorar tantos anos para ser retomada. Na verdade, pode demorar apenas alguns poucos meses. "A ideia é fazer isso o quanto antes. Acredito que em algum momento do mês [de janeiro] a gente vai começar a trabalhar."
É de se esperar também uma fuga do buraco negro, já que o próprio Edwards prevê o retorno das batidas mais vibrantes e das guitarras mais ásperas e distorcidas. "Acho que a gente vai pensar o próximo álbum de uma forma em que o processo leve a coisas mais aceleradas e agressivas. É assim que a gente está se sentindo. Não vai ser outro disco como "Transit Transit"."
Saiba mais:
www.autolux.net
myspace.com/autolux